Toda a sujeira dos médicos

Stephen J. Dubner and Steven D. Levitt

Eu já escrevi bastante – provavelmente até demais para o gosto das pessoas comuns – sobre o péssimo padrão de higiene dos hospitais (principalmente sobre os médicos que deixam de lavar as mãos) e a proliferação de infecções bacterianas resultante disso. Não é surpresa, portanto, que eu acredite que chegou a hora de parar de reclamar desse problema. Afinal, faz dez anos que o Instituto de Medicina lançou o relatório “Errar é Humano: Construindo um Sistema de Saúde Mais Seguro”, que revelou que os erros médicos são responsáveis por cerca de 44 a 98 mil mortes de pacientes a cada ano.

Mas depois de examinar o último Relatório de Qualidade dos Serviços de Saúde Nacionais, acho que não vou me calar tão cedo. Apesar de muitos esforços e inovações, o problema não parece estar sendo resolvido. De acordo com o relatório, “as infecções adquiridas durante o cuidado hospitalar, também conhecidas como “infecções hospitalares”, são uma das preocupações mais sérias dos pacientes em relação à segurança. Infelizmente, os índices dessas infecções não estão diminuindo.”

Por que é tão difícil convencer os funcionários dos hospitais, principalmente os médicos, a prestarem mais atenção à higiene?

Como escrevemos em “SuperFreakonomics”, acredito que é uma questão de consciência: as bactérias que os médicos podem transmitir ao não lavarem as mãos normalmente não costumam prejudicar os próprios médicos, mas afetam o próximo paciente da fila. Nesse sentido, as bactérias letais são muito parecidas com as atitudes que provocam poluição na vida cotidiana: como não experienciamos pessoalmente as consequências de nossas ações, não temos muito incentivo para mudar nosso comportamento.

Já pensei várias vezes que se os médicos fossem responsabilizados individualmente por seus maus hábitos de higiene – digamos, se as bactérias de um indivíduo pudessem ser rastreadas de modo que a fonte de uma infecção hospitalar pudesse ser identificada – os incentivos no ambiente de trabalho seriam radicalmente ajustados a isso.

Bem, o primeiro passo para um sistema como esse pode estar a caminho. Um estudo recente publicado no jornal “Proceedings of the National Academy of Sciences” argumenta:

Trabalhos recentes demonstraram que a diversidade de comunidades de bactérias associadas a infecções de pele é bem maior do que se acreditava anteriormente, com um alto nível de variação interindividual na composição das comunidades bacterianas. Como as comunidades de bactérias da pele são personalizadas, imaginamos que podemos usar as amostras de bactérias da pele deixadas em objetos na identificação forense, comparando a bactéria do objeto à bactéria da pele do indivíduo que tocou o mesmo. Aqui descrevemos uma série de estudos demonstrando a validade dessa abordagem. Mostramos que as bactérias da pele podem ser facilmente recuperadas das superfícies superfícies (até mesmo de uma única tecla de computador) e que a estrutura dessas comunidades pode ser usada para diferenciar objetos manipulados por diferentes indivíduos, mesmo que esses objetos tenham ficado sem uso por até duas semanas, à temperatura ambiente.

Se esse tipo de investigação funcionasse para as infecções hospitalares, os médicos – e seus advogados – com certeza seriam responsabilizados por seus erros. E isso pode ser uma das melhores coisas que já aconteceram para a segurança dos pacientes desde que um médico húngaro chamado Ignaz Semmelweis começou a insistir na necessidade da assepsia das mãos no século 19.

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos