Alimentação

Ela comeu mais de 100 cheeseburgers em um ano e não engordou

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

  • Divulgação/Yelp.com

    Drive-in em Louisville (EUA) é famoso pelos sanduíches, entre eles, o tradicional cheeseburger

    Drive-in em Louisville (EUA) é famoso pelos sanduíches, entre eles, o tradicional cheeseburger

Vamos tentar adivinhar: muitos de vocês provavelmente estão pensando em entrar em forma, agora que as festividades glutonas das férias acabaram.

Se você for a um nutricionista ou a um personal trainer, provavelmente vão descrever em detalhes precisos os tipos de alimentos que você deve comer, e quanto de cada um --quantas porções de frutas e legumes e cereais integrais; quantas calorias de gordura e proteína e carboidratos. Eles vão lhe dizer para correr, nadar ou pedalar. Você sabe como é.

Nem é preciso dizer que nada do que disserem vai ser muito divertido.

Mas e se houvesse uma maneira de se enganar e fazer todas essas coisas boas e pouco divertidas sem nem pensar? E se, em vez disso, você se concentrasse em uma coisa muito ruim e muito divertida? Algo como comer cheeseburgers.

Foi isso que fez Emily O'Mara. Vamos explicar.

A primeira coisa que você deve saber sobre O'Mara é que ela ama --ama mesmo-- cheeseburgers e batatas fritas. Na verdade, ela se considera uma verdadeira viciada em fast food. "Eu adoro. Sei que não faz bem", disse a Stephen Dubner. "Eu li aquele livro 'Fast Food Generation' e fiquei com muita fome". A paixão é profunda. Sua família tem uma longa tradição de comprar a ceia de Natal na cadeia de lanchonetes chamada White Castle.

O'Mara vive com o marido em Louisville, Kentucky --segundo alguns, o berço do cheeseburger--, onde trabalha como consultora de software. Louisville tem uma variedade de opções de hambúrgueres para os amantes de fast food como O'Mara. Um dia, não muito tempo atrás, ela decidiu identificar, de uma vez por todas, qual lugar tinha o melhor cheeseburger com batatas fritas da cidade. Para isso, O'Mara comeria dois cheeseburgers por semana por um ano (o que dá mais de 100 hambúrgueres), atribuindo a cada refeição uma pontuação numa escala de 0 a 100, com 25 pontos para o sanduíche, 25 pontos para as batatas fritas, 25 para o valor, 15 para o ambiente e 10 para o serviço. Que fique claro, O'Mara gosta mesmo é do cheeseburger sem firulas: queijo americano, tomate fresco, alface, um pouco de cebola, muita gordura e sem condimentos.

Então, qual lanchonete de Louisville saiu-se vitoriosa após o Ano do Cheeseburger de O'Mara? Dizzy Whizz, um drive-in "tradicional", que opera desde a década de 1940, nas mãos de uma família. Em um livro de memórias ainda não publicado, O'Mara conta sobre o cheeseburger de Dizzy, que ganhou 98 pontos: "Ele me deu uma sensação muito primal, que eu só sinto assistindo aos episódios de 'Os Sopranos' ou ouvindo 'Led Zeppelin II'". (O cheeseburger menos favorito de O'Mara, que tirou humildes 37 pontos, foi de um moderno food-truck da moda, que mói a própria carne.)

Nós sabemos o que você está pensando: O'Mara deve ter ganhado muitos quilos e arruinado sua saúde, tudo em busca de alguma obsessão infantil.

Sendo uma pessoa sensata, O'Mara fez uma promessa para si mesma: ela iria monitorar seu peso e pressão arterial ao longo do ano e, caso começassem a dar errado, ela abandonaria a missão. Bem, O'Mara terminou o ano sem nada de errado. Na verdade, as coisas quase não mudaram. No início do projeto, O'Mara, que mede um pouco mais de 1,64 m de altura, pesava 57 kg e seu colesterol totalizava 160 (qualquer coisa abaixo de 200 é considerada ideal). Depois de 101 hambúrgueres, ela ainda pesava 57 kg, e seu colesterol total tinha subido apenas para 179. Enquanto isso, os triglicerídeos, que são más notícias, de fato tinham caído.

Como isso é possível? De forma evidente ou não, tem a ver com o "comportamento compensatório": a ideia de que os seres humanos tendem a equilibrar seus comportamentos nocivos com outros positivos, muitas vezes sem nem pensar. No caso de O'Mara, o próprio hábito de comer terrivelmente mal a forçou, em grande parte inconscientemente, a comer mais saudavelmente no geral e se exercitar mais. Ou seja, ela ia para as lanchonetes a pé ou de bicicleta; ela não comia pizza, nem macarrão nem sorvete. E todo esse autocontrole não parecia tão difícil, com os hambúrgueres no cérebro. "Inadvertidamente, dei uma virada na noção de dieta convencional", disse O'Mara a Dubner. "Eu disciplinei a diversão, o que parece uma contradição em termos. Mas foi realmente divertido, e eu realmente fiquei disciplinada. E, como eu disse, nem sequer me preocupava, nem mesmo pensava: 'Ih, hoje eu tenho de comer frutas e legumes'. Eu simplesmente comia."

É claro que nem todo mundo vai ser capaz de reproduzir com tanto sucesso a dieta do cheeseburger de O'Mara. E se o seu objetivo é perder muito peso, comer uma enorme quantidade de fast food provavelmente não é a melhor ideia, não importa o que você faça para compensar.

Mas vale a pena lembrar que há maneiras de comer melhor e se exercitar mais, sem ficar obcecado em comer melhor e se exercitar mais.

O curioso é isso: depois da aventura de cheeseburgers de O'Mara, ela começou a comer pior e se exercitar menos. Sem todos aqueles hambúrgueres e batatas fritas para se focar (e compensar), ela perdeu a disciplina e voltou ao seu comportamento antigo de amante da junk food: sorvete, Taco Bell e tudo mais. Antes que ela percebesse, as roupas pararam de entrar.

Então, recentemente, O'Mara lançou outro projeto para enganar-se de forma a ter uma alimentação saudável: encontrar a melhor pizza em Louisville.

Tradutor: Deborah Weinberg

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