Piloto automático de avião faz tudo? Por que a fila no aeroporto é lenta?

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

  • Getty Images/iStockphoto

É verão oficialmente [no hemisfério norte], o que significa que você, e quase todo mundo que você conhece, logo deverá estará pegando um avião. O que também significa que você, e quase todo mundo que você conhece, logo estará reclamando disso.

Mas por quê? É simplesmente a miríade de inconveniências --as intermináveis filas de revista, atrasos no último minuto, comida terrível e espaço para pernas inexistente--, ou é algo mais? E as viagens aéreas em 2016 são realmente mais perigosas do que costumavam ser?

Para ter respostas para estas e algumas outras perguntas incômodas, Stephen Dubner indagou a alguém que voa quase todos os dias --Patrick Smith, piloto de uma grande companhia comercial dos EUA (ele não diz qual). Smith também é um blogueiro prolífico (em askthepilot.com) e o autor de "Cockpit Confidential: Everything You Need to Know About Air Travel" [Confidências da cabine de comando: tudo o que você precisa saber sobre viagens aéreas]. Abaixo, trechos editados da conversa.

Hoje em dia, é considerado perfeitamente normal odiar a indústria de companhias aéreas. Por que você acha que isso acontece?

Acho que em parte é por medo --o fato de que em certo nível as pessoas têm medo quando embarcam num avião. E isto, sejamos francos, é amplificado pela insubordinação das companhias aéreas. Elas não gostam de falar. Elas não gostam de dar respostas se não forem obrigadas. Elas não gostam de explicar problemas [como] questões de segurança. Elas não precisam, porque as pessoas não vão parar de voar, mas vão continuar detestando.

Você culpa as pessoas por sentirem medo? É algo estranho subir num grande tubo metálico e deixar algumas pessoas levarem você voando pelo país.

Sim. Mas nós resolvemos com engenharia o que costumava ser as causas mais comuns de acidentes. Hoje estamos muito mais seguros do que antes. Você pode fazer as estatísticas de outro modo, mas ouvi falar [que estamos] oito, nove, dez vezes mais seguros do que 30 anos atrás. Volte a 1985, por exemplo. Naquele ano houve 27 grandes desastres de avião em todo o mundo, que mataram cerca de 2.000 pessoas. E tivemos dois dos desastres mais mortíferos da história com 60 dias de intervalo. É claro que foi um ano excepcionalmente ruim, mas tivemos anos como esse o tempo todo, com diversas catástrofes ao redor do mundo. Não vemos mais isso. Mas você quase não saberia disso, porque cada vez que há um incidente ele é exibido em todas as plataformas de mídia 24 horas por dia.

Diante da tecnologia atual de piloto automático, suponho que você apenas fique sentado na cabine jogando "Boogle" no seu iPhone. Você não precisa realmente fazer nada para conduzir o avião, não é?

A automação da cabine --do que ela é capaz e do que não é capaz-- talvez seja a coisa mais mal compreendida em toda a aviação comercial. As pessoas têm uma ideia muito exagerada do que o piloto automático faz e de qual é o papel do piloto ao interagir com essa automação. O piloto automático não faz o avião voar. A tripulação faz isso por meio da automação. Nós ainda precisamos lhe dizer o que fazer, onde fazer, quando e como fazer. É verdade que há menos pilotagem manual --isto é, as mãos no volante-- do que nos anos 1940 ou em qualquer período. Mas isso está bem para mim. Não posso imaginar o tédio de voar através do oceano tendo de ficar com as mãos no manche o tempo todo. Os pilotos passaram a contar com um conjunto diferente de habilidades. Mas eu acho errado dizer que um conjunto de habilidades é mais importante que outro. Eu ainda decolo e pouso meu avião manualmente o tempo todo.

Durante anos, vocês nos disseram que nossos iPhones podiam derrubar um avião se ficassem ligados no bolso. Depois, finalmente, soubemos que nossos telefones não podem derrubar um avião. Por que levaram tanto tempo para descobrir isso?

Realmente não sei. Havia muitas histórias conflitantes e relatos conflitantes sobre o que um telefone poderia fazer na verdade --o que pode, o que não pode, o que já fez; evidências anedóticas de telefones interferindo com certos sistemas em acidentes no passado. Isso realmente aconteceu? Não sabemos. Eu calculo que talvez 50% de todos os celulares, inadvertidamente ou não, são deixados ligados em vez de ficarem na proverbial posição "off". Acho que se fosse realmente uma causa de desastres já saberíamos disso.

Qual seria a melhor maneira de realizar a segurança antes dos voos sem gastar bilhões de horas/pessoa?

A coisa mais importante que poderíamos fazer é parar de olhar para cada passageiro como um potencial terrorista. É uma abordagem insustentável em um país onde 900 milhões de pessoas voam todos os anos. Precisamos descobrir algo melhor. Estou falando de um sistema que pegue um grande número de dados e construa um perfil dessa maneira. Mas eu gostaria que [a Administração de Segurança nos Transportes dos EUA] deixasse de lado sua preocupação com pequenos objetos pontudos e se você tem 86 g ou 103 g de pasta de dente. Essa obsessão por minúcias atrasa todo o sistema. É um desperdício de recursos, de tempo e de dinheiro.

Também acho que as pessoas precisam lembrar que mesmo com toda a atual ênfase em terrorismo e segurança antes costumávamos ver muito mais atentados a bomba e sequestros em aeroportos do que vemos hoje. Volte aos anos 1960 e até os 80. Tivemos bombas, ataques a aeroportos, Lockerbie, Air India, UTA, os atentados na TWA e sequestros. Isso não acontece mais. Hoje estamos muito mais seguros, e se isso acontece apesar de ou por causa do modo como realizamos a segurança é algo que podemos discutir.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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