"Cérebro de Bush" defende sistema de dois partidos como chave para estabilidade nos EUA

  • Ron Edmonds/AP

    O ex-presidente dos Estados Unidos George Bush (à esq.) e seu principal estrategista político, Karl Rove, durante encontro nos jardins da Casa Branca, em Washington (EUA)

    O ex-presidente dos Estados Unidos George Bush (à esq.) e seu principal estrategista político, Karl Rove, durante encontro nos jardins da Casa Branca, em Washington (EUA)

Dezesseis anos após Karl Rove ter comandado a primeira vitória eleitoral de George W. Bush, se transformando em um dos estrategistas de campanha mais temidos (e odiados) do país, seu amado Partido Republicano está quase irreconhecível, tendo sido tomado por um astro de reality show que explora o racismo e sua base raivosamente anti-imigrantes.

Mas mesmo na era de Trump, onde a elite do Partido Republicano está sendo colocada de lado em sua própria organização, Rove não tem pressa em sair à procura de um terceiro partido.

Como explicou a Stephen Dubner, ele permanece firmemente crente na importância da lealdade partidária (apesar de não ser fã de Donald Trump) e um defensor da estrutura cada vez mais odiada de dois partidos do país e do sistema de Colégio Eleitoral. Se sua defesa deste último tem algo a ver com a vitória apertada de Bush no Colégio Eleitoral em 2000, caberá a você decidir.

Os trechos a seguir da conversa foram editados e resumidos.

P.: Você escreveu que Donald Trump é um "homem insignificante consumido pelo ressentimento e amargura". Você disse que ele está "denegrindo o partido que busca liderar". Por que a lealdade ao partido é algo bom? Para mim, representa o tipo de tribalismo que cria problemas políticos, não soluções.

R.: Você presume que o tribalismo político não exista fora de um sistema de dois partidos. Há um tribalismo ainda maior fora do sistema de dois partidos, e de uma natureza mais destrutiva. Imagine um sistema no qual todos possam se organizar em torno de personalidades, de questões individuais e ideologias altamente desenvolvidas e muito estreitas. Teríamos algo como a Itália, que teve mais de 60 governos desde a Segunda Guerra Mundial.

P.: Muitos americanos não gostam de política; parece que algo precisa mudar. Qual seria uma ideia, seja na política ou governança, que precisa ser estimulada, e por quê?

R.: A ideia de que deveríamos abolir o Colégio Eleitoral, isso precisa morrer. O Colégio Eleitoral nos leva ao sistema de dois partidos e isso promove a estabilidade, ao fornecer uma barreira contra as disputas entre múltiplos candidatos e o tipo de desastres que vemos nas democracias da Europa Ocidental.

Isso nos impede de termos segundos turnos como vimos recentemente na Áustria, na Itália e na França, que bagunçariam e enfraqueceriam ainda mais os dois partidos. Ele fornece ao vencedor um senso de mandato nacional que ajuda o novo presidente a governar.

P.: Em outras áreas você defenderia a descentralização, para coisas que deem aos consumidores mais opções. Por que mais opções é algo bom para os consumidores, porém ruim para os eleitores?

R.: Por que são duas coisas diferentes. Em uma, você está tentando ter algo que obtenha o apoio do país. Na outra, você está tentando satisfazer os desejos individuais dos consumidores. Você pode gostar de um espresso machiatto duplo com canela de Madagascar; eu gosto de uma xícara de café descafeinado...

P.: Como você sabe do que gosto?

R.: Eu li o arquivo a seu respeito. A Agência de Segurança Nacional, é incrível a quantidade de informação que coletaram a seu respeito.

P.: Com certeza. Agora, permita-me perguntar isto: o quanto de sua posição a respeito do Colégio Eleitoral é influenciada pelo fato de você ter sido o arquiteto das campanhas presidenciais de George W. Bush, incluindo a contestada eleição de 2000, após a qual muitas pessoas mudaram de ideia a respeito do Colégio Eleitoral. O quanto isso mudou a sua?

R.: Em nada. Mas ela criou a segunda coisa na minha lista de práticas que deveríamos abolir, que é as pesquisas de boca de urna, quando dados são coletados e disponibilizados para a mídia antes do encerramento da votação em todo o país.

Em 2000, surgiram pesquisas de boca de urna errôneas que sugeriam que Al Gore venceria a eleição e que venceria na Flórida por grande margem. E isso deu o tom de toda a cobertura. As emissoras passaram a declarar o resultado da Flórida relativamente cedo. De fato, elas passaram a colocar a Flórida na coluna de Gore enquanto a Flórida ainda estava votando, porque a Flórida é dividida em dois fusos horários e o Panhandle, que é altamente republicano e que fica no fuso horário Central, ainda estava votando quando declararam que Al Gore tinha vencido no Estado. (Essa declaração foi posteriormente retirada e Bush acabou vencendo na Flórida e a eleição.)

Agora, por que isso importa? Trace uma linha dividindo o país. Ao leste dessa linha estão os Estados onde a votação já tinha encerrado quando a mídia anunciou que a Al Gore venceu na Flórida. A oeste estão os Estados onde a votação prosseguia. O comparecimento de eleitores nos Estados ao leste da linha tem aumentado em comparação a 1996. Agora veja os Estados a oeste dessa linha: neles, o comparecimento em geral não aumentou (em comparação a 1996), mas tem caído.

Logo, eu diria que você pode realizar pesquisas de boca de urna, mas os resultados só podem ser agregados e divulgados após o encerramento da votação em todo o país. Use-os para explicar o que aconteceu na eleição, não para dar o tom da cobertura.

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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