No comando do "Daily Show", o comediante Trevor Noah tem muito a dizer

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O apresentador de "The Daily Show", Trevor Noah, cresceu pobre na África do Sul, filho de mãe negra e pai branco. A mistura significava que Noah era tecnicamente um "crime", como diz o título de seu novo livro de memórias, "Born a Crime" ["Crime de nascença", em tradução livre]. Sob o regime do apartheid, Trevor era essencialmente um filho ilegítimo, o que tornava muito problemático para seus pais serem vistos com o menino em público. Sua mãe, quando perguntada, dizia que era a babá dele.

A origem mestiça e profundamente religiosa de Noah na África do Sul (sua mãe o levava a três igrejas todos os domingos) lhe deu uma perspectiva única de forasteiro nos EUA: seus costumes, sua política caótica, sua obsessão por raça. E essa perspectiva foi valiosa para o trabalho de Noah em "The Daily Show" [O programa diário] --o muito influente programa de entrevistas no canal Comedy Central-- desde que ele substituiu o amado âncora Jon Stewart em 2015.

Stephen Dubner recentemente conversou com Noah sobre raça, religião, "The Daily Show" e, é claro, Donald Trump. Os trechos da conversa, a seguir, foram editados e resumidos.

Freakonomics: Você diz em suas memórias que, quando criança, você se tornou um camaleão linguístico (por falar zulu com algumas pessoas e tswana com outras, por exemplo) e que usou isso em sua vantagem. Escreveu que o modo de superar a distância entre pessoas diferentes era falar sua língua. Ser um camaleão é sempre uma boa coisa?

Trevor Noah: Acho que sim. Um camaleão pode mudar de cor, mas continua sendo um camaleão. Para mim, ser um camaleão é fazer duas coisas: misturar-se ao ambiente, para se proteger, mas também para não perturbar o ambiente e gerar pânico.

Freakonomics: E se alguém dissesse: "Bem, isso quer dizer que você não está sendo autêntico". Isso o preocupa?

Noah: Não me preocupa nem um pouco. O que você está dizendo é que ser autêntico é uma coisa [só]. Por que precisa ser assim?

Freakonomics: Você era muito religioso quando criança. Qual é sua situação religiosa hoje?

Noah: Sou espiritual. Acho que o que me atira constantemente contra a religião é a corrupção do homem.

Freakonomics: Você quer dizer a humanidade, ou a masculinidade?

Noah: Isso também, porque grande parte da religião é moldada em torno do patriarcado. São os homens usando essa coisa mítica para oprimir outras pessoas e mulheres. A maioria das religiões não é muito progressista em termos de direitos das mulheres.

Freakonomics: Se você pudesse criar sua própria religião, como a chamaria?

Noah: Igreja da Verdade. É assim que eu a chamaria.

Freakonomics: Você gosta de seu trabalho de âncora do "Daily Show"?

Noah: Adoro meu trabalho. É extremamente difícil.

Freakonomics: Disseram-me que você ficou um pouco surpreso ao ver como é exaustivo dirigir o programa editorialmente.

Noah: Eu digo a Jon Stewart o tempo todo: "Você é um gênio. Você é uma das pessoas mais trabalhadoras que já conheci, porque esta coisa é um monstro para se levar adiante". Uma coisa é fazer piadas todos os dias; outra é estar em um mundo onde você faz piadas, também tenta fazer pesquisa, tenta forjar um ponto de vista, tenta ser verdadeiro e ao mesmo tempo conectar-se ao público.

Freakonomics: Sua indicação como âncora foi surpreendente para quase todo mundo, inclusive você. Sabemos que a primeira opção de Jon Stewart era o correspondente do "Daily Show" John Oliver, mas não deu certo. Você se sentiu de alguma forma menos agradecido por não ter sido a primeira opção?

Noah: Por quê? A maioria das pessoas não é a primeira opção em nossas vidas. Pense nisso assim: se Will Smith não recusasse "Matrix", Keanu Reeves não o teria feito. Eu sempre penso que a vida é assim. Alguém recusa uma coisa e então você pode pegá-la e dizer: "Vou experimentar isso". Eu teria aprovado John Oliver [para "The Daily Show"]. Adoro John Oliver. Ele foi uma das pessoas que me inspirou. Antes dele, eu nunca tinha visto um não americano fazer algo parecido. E ele levou uns dez anos para ficar bom nisso. Então eu aspiro a ser tão bom quanto John Oliver.

Freakonomics: Quando assumiu o "Daily Show", você se apresentou como menos nervoso que Jon Stewart. Estou curioso para saber se a eleição de Trump mudou seu comando interno sobre como administrar sua raiva.

Noah: Não necessariamente. E vou lhe dizer por quê. É nisso que as pessoas erram. Elas tentam fazer uma coisa e/ou. Elas dizem: "Oh, você não é tão nervoso quanto Jon". Mas se escutar o que Jon dizia, era: "Estou cansado de me irritar; não posso mais fazer isto". E ele me disse: "O programa precisa de um apresentador que ainda tenha a capacidade de encontrar a comédia e usá-la como instrumento para cortar tudo o que é apresentado". Minha raiva acontece em surtos; eu não existo só como uma pessoa irritada. Talvez [isso seja] por causa do mundo em que cresci, onde a raiva e a estratégia tinham de ser equilibradas.

Freakonomics: O que você pensa de Trump?

Noah: Acho que Donald Trump está interpretando um personagem em um reality show, e ele não o leva tão a sério quanto todos os outros. É o que eu realmente penso.

Freakonomics: Portanto, o resultado será fraco? Ou portanto o resultado será: é difícil dizer porque não vimos antes?

Noah: É difícil dizer porque nunca o vimos. Eu nunca vi isso antes. Normalmente, o programa termina quando a pessoa ganha o prêmio. Agora, você sabe, é o início da viagem.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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