Empresária canadense investe no "negócio do tabu"

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A empresária serial Miki Agrawal, nascida no Canadá, tem uma maneira interessante de descrever seus vários empreendimentos interconectados: "o negócio do tabu". Tradução: Agrawal abraça as coisas (supostamente) nojentas que todo mundo despreza.

A empresa mais conhecida de Agrawal, Thinx --que ela fundou em 2014 com sua irmã gêmea e uma amiga--, produz roupa íntima "à prova de regras", ou "calcinhas para regras", especificamente desenhadas para mulheres que estão menstruando. (Talvez você tenha visto o anúncio polêmico da marca pregado no metrô de Nova York recentemente - https://qz.com/549273/nyc-subway-ads-about-womens-periods-are-scandalizing-commuters/.)

A Thinx é lucrativa, afirma Agrawal, e se expande rapidamente. Enquanto isso, sua marca Icon faz roupa íntima "à prova de xixi" para mulheres que têm incontinência urinária, e sua linha Tushy vende bidês acessíveis que se adaptam a qualquer vaso sanitário padrão nos EUA.

Stephen Dubner encontrou-se recentemente com Agrawal --que em suas muitas vidas passadas foi jogadora de futebol profissional, analista de investimentos no Deutsche Bank e produtora de pizza sem glúten-- para falar sobre seus esforços para promover produtos não convencionais, seu relacionamento com o feminismo e por que os americanos têm tanta aversão aos bidês. (Sugestão: tem a ver com os bordéis franceses.) Os seguintes trechos da conversa foram editados e resumidos.

Freakonomics: Quando você teve a ideia das calcinhas para menstruação, há pouco mais de dez anos, ninguém mais oferecia a mesma coisa? Você foi a primeira?

Miki Agrawal: Havia algumas lojas que tentaram, mas pareciam fraldas de plástico e ninguém queria usá-las --por isso, para todos os fins, não existia nenhuma. A roupa íntima só era feita mais transparente, mais tênue e menos útil para as mulheres.

Queríamos criar um produto que fizesse a mulher se sentir como se estivesse vestindo uma linda calcinha comum. A camada interna absorve a umidade, e a usuária se sente seca. [A calcinha] absorve pelo menos a quantidade de sangue de dois tampões, por isso você não precisa trocá-la na metade do dia.

Passamos três anos e meio desenvolvendo e patenteando a tecnologia para garantir que fosse exatamente o que queríamos. E [então] estava na hora de sair e arrumar dinheiro. Esse foi um dos maiores desafios da minha vida, porque a maioria dos investidores que eu encontrava eram homens.

Freakonomics: Então você saiu e foi encontrar investidores de risco. Como era a sua proposta? Demorou um pouco para ter sucesso, ou não?

Agrawal: Oh, meu Deus, demorou mais de um ano. No começo você encontra tanta gente, e eles dizem: "Deixe-me mostrar isso para minha mulher", e eu pensava "Oh, meu Deus, odeio você". O que você vai dizer a sua mulher? E então eles voltavam: "Não, obrigado". Eu pensava: "Você não sabe como uma mulher se sente quando está menstruada. É assustador". Eles não se importavam com isso. Afinal, eu descobri o modo de falar sobre isso com homens, que era realmente sobre a indústria. Há uma enorme oportunidade de irromper e criar um espaço de bilhões de dólares.

Não levantamos dinheiro no início, por isso tivemos de lançar uma campanha no Kickstarter e levantamos US$ 65 mil (cerca de R$ 202 mil). Depois fizemos uma campanha na Indiegogo, mais US$ 20 mil. Ganhamos um concurso, prêmio de US$ 25 mil, então fizemos um site de pré-lançamento e levantamos mais US$ 20 mil. Ao todo conseguimos US$ 130 mil (R$ 404 mil) e usamos esse dinheiro para produzir nossas primeiras 3 mil unidades na China.

Freakonomics: Fale-nos sobre seu negócio de bidês. Por que você acha que os americanos são tão contra o bidê?

Agrawal: Porque os ingleses odeiam os franceses e os franceses inventaram o bidê --esse é o número 1. Falo sério. O nº 2 é porque durante a Segunda Guerra Mundial os soldados americanos iam aos bordéis franceses e viam bidês lá. E criaram essa coisa de que os bidês são sujos. Mas são na verdade mil vezes mais limpos do que usar papel. Se um passarinho fizer cocô no seu rosto, você limparia com papel ou lavaria?

Freakonomics: Alguns artigos que li sobre você de feministas com F maiúsculo parecem sugerir que você não está do lado delas do jeito que elas gostariam. Não entendo o que elas acham que você está fazendo errado. O sucesso comercial e o feminismo são de algum modo incompatíveis?

Agrawal: Para mim é um feminismo falso. É como as pessoas que usam o blusão feminista, cheias de orgulho, [mas] na verdade não são feministas. Apenas querem fazer parte de um clube, como você quer usar uma cruz no pescoço e fazer parte da igreja. Sabe o que estou dizendo? E no minuto em que alguém não adota o mesmo Deus que você [e reza] exatamente da mesma maneira que você eles o estarão julgando.

Eu tenho tolerância zero para isso. Eu retrucarei com total integridade com o que eu acredito que seja verdadeiro e real. Penso no feminismo por meio da inovação e penso nisso oferecendo produtos e inventando coisas que deem apoio às mulheres e as façam sentir-se menos envergonhadas.

Freakonomics: Qual é seu conselho às futuras empresárias?

Agrawal: Eu sempre lhes digo que devem se perguntar três coisas. Pergunta nº 1: "O que é uma m... no meu mundo?" Pergunta nº 2: "É uma m... para muita gente?" Se for só para você, talvez você seja apenas uma diva. Mas se incomodar muita gente então é uma oportunidade. E pergunta nº 3, que eu acho a mais importante: "Posso me apaixonar por essa questão, causa ou comunidade durante um tempo realmente longo?" Porque leva dez anos para fazer sucesso da noite para o dia.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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