Buscas no Google revelam o lado perturbador da mentalidade dos americanos

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

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O Google oferece a imagem mais clara até hoje das ansiedades e desejos, ódios e amores humanos --pelo menos é o que diz o economista e cientista de dados Seth Stephens-Davidowitz. A pesquisa que ele fez sobre dados de busca no Google --descrita em seu novo livro, "Everybody Lies: Big Data, New Data and What the Internet Can Tell Us About Who We Really Are" [Todo mundo mente: grandes dados, novos dados e o que a internet pode nos dizer sobre quem realmente somos]-- sugere que, na privacidade de seus navegadores da internet, as pessoas têm muito maior probabilidade de expressar seus verdadeiros pensamentos e sentimentos ao Google do que o fariam nas enquetes tradicionalmente usadas pelos pesquisadores.

A psique profunda dos americanos, como revelada pelos hábitos de buscas nacionais, tem implicações profundamente perturbadoras para a situação política, as relações raciais e a tolerância religiosa. Por exemplo, a pesquisa de Stephens-Davidowitz e seu colega Evan Soltas mostrou que as buscas no Google por "matar muçulmanos" na verdade aumentaram durante o discurso em que o presidente Barack Obama pediu tolerância depois do ataque terrorista de 2015 em San Bernardino, na Califórnia.

Stephen Dubner recentemente se encontrou com Stephens-Davidowitz, que também é um editorialista colaborador de "The New York Times", para conversar sobre algumas de suas conclusões mais surpreendentes. Os trechos a seguir da conversa foram editados e resumidos.

O senhor escreve em seu livro que "o microscópio nos mostrou que há mais em uma gota de água de um lago do que pensamos ver. O telescópio nos mostrou que há mais no céu noturno do que pensamos ver. E novos dados digitais agora nos mostram que há mais na sociedade humana do que pensamos ver". Eu adoro essa ideia, mas não tenho certeza se acredito nela. As percepções da sociedade de que o senhor fala muitas vezes são apenas refinamentos do que já aprendemos ao longo de séculos de filosofia e psicologia. Diga-me por que o senhor está tão convencido de que esta revolução será tão grande quanto as outras.

Eu não acho que estamos apenas aprendendo coisas que já sabemos. Se você falar sobre o que deixa as pessoas ansiosas, é uma grande pergunta, certo? Eu fiz alguns estudos. [Perguntei:] "A ansiedade aumenta depois de ataques terroristas?" E você podia ver buscas no Google por ansiedade nos lugares depois de um ataque terrorista. Elas não parecem aumentar. E você poderia dizer algo como: "A ansiedade aumenta quando Donald Trump é eleito?" Todo mundo está dizendo que está ansioso. [Mas] não há aumento em [buscas por] ansiedade. Então isso modifica bastante nosso modo de pensar a sociedade.

Segundo sua pesquisa, na mesma noite em que Obama foi eleito em 2008, aproximadamente 1% das buscas que incluíam a palavra "Obama" também tinham a palavra "KKK" ou a palavra que começa com "N" (a real, e não o eufemismo). Em que lugar do país estavam acontecendo essas buscas racistas?

Se você me perguntasse onde há mais buscas racistas nos EUA, eu diria que é uma questão do sul --Mississippi, Louisiana, Alabama, Estados parecidos. E esses Estados estão definitivamente entre os mais elevados. Mas outras áreas estão bem perto do topo. O Estado nº 1 é a Virgínia Ocidental, e depois vem a Pensilvânia, particularmente a região oeste. [Também] o leste de Ohio, partes de Michigan são muito altas, e o interior de Nova York.

O senhor pode falar um pouco mais sobre como esse mapa racista se relaciona com as últimas várias eleições presidenciais?

Eu estava lendo um trabalho de economistas de Berkeley [que] estavam usando dados da Pesquisa Social Geral para medir o racismo. Eles perguntavam se o racismo foi um fator na votação total de Obama em 2008. Apesar de ter ganhado, ele perdeu votos por causa do racismo? Eles concluíram que as atitudes raciais não foram um grande fator.

O fato de que as conclusões deles se basearam em dados de pesquisa as torna suspeitas?

Sim, talvez. [Vale a pena perguntar se] as buscas no Google mostram algo diferente. Você não pode realmente comparar quantos votos Obama recebeu em lugares onde o racismo é alto e [lugares onde] o racismo é baixo, porque essas áreas poderiam ser contra qualquer candidato democrata. Mas você pode [comparar] como Obama se saiu em relação ao candidato democrata anterior, John Kerry, que era branco e tinha opiniões parecidas, e a outros candidatos democratas. E quando você faz isso você vê claramente uma forte relação [com] lugares que fazem muitas buscas racistas: Obama recebeu substancialmente menos votos que outros candidatos democratas brancos.

O que diz seu mapa do racismo sobre a eleição de Donald Trump?

Nate Cohn, um cara das estatísticas em "The New York Times", recebeu dados sobre o apoio a Trump na primária republicana, e ele me pediu os dados explícitos sobre racismo. E ele disse que [esses dados do Google] eram a maior previsão que ele pôde encontrar de apoio a Trump na primária, mais forte que educação ou idade.

Qual o seu nível de confiança nas evidências que sugerem que uma busca no Google é um substituto do comportamento real?

Houve muitos exemplos em que as pessoas relacionaram as buscas a comportamentos no mundo real. Você pode prever quantas pessoas irão votar com base em se elas buscam onde devem votar ou como votar antes da eleição. Estes se correlacionam, muito mais que as pesquisas, com quantas pessoas realmente vão votar. Essas buscas revoltantes sobre muçulmanos --eu mostrei com Evan Soltas, na época em Princeton, que estas se correlacionam com os crimes de ódio contra muçulmanos. Eu acho que o fato de eles se correlacionarem repetidamente, em geral de modo muito mais forte que outros conjuntos de dados, é prova de que até algumas das buscas mais estranhas contêm informações reais.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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