Entrevista: O que pensa o bilionário Charles Koch, ícone da direita norte-americana?

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

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    Charles Koch, da Koch Industries

    Charles Koch, da Koch Industries

Entre muitos democratas e progressistas nos Estados Unidos, o nome Charles Koch (rima com Coke) é um palavrão. Isso porque, além de dirigir a Koch Industries, a segunda maior empresa privada nos Estados Unidos, o bilionário de 81 anos comanda, juntamente com seu irmão David, uma temível máquina de arrecadação de fundos políticos visando destruir o status quo liberal.

Os irmãos defendem uma visão de mundo libertária linha dura (pró-livre mercado, antirregulamentação) e canalizaram centenas de milhões de dólares para republicanos e diversas causas de direita ao longo dos anos (apesar de não terem apoiado a campanha presidencial de Donald Trump).

Jane Mayer, a redatora da revista "New Yorker" cujo recente livro best-seller, "Dark Money" ("dinheiro sombrio", em tradução livre, não lançado no Brasil), narra as arrecadações de fundos obscuras dos Kochs, culpa os irmãos por alimentarem "a ascensão da direita radical" nos Estados Unidos. Enquanto isso, Harry Reid, o ex-líder da maioria democrata no Senado, acusa os Kochs de "tentarem comprar a América". 

Em outras palavras, Charles Koch é uma figura muito controversa. Esse é exatamente o motivo para acharmos que valia a pena nos sentarmos com ele para uma rara entrevista. Como você verá, os pontos de vista de Koch em algumas questões não são tão fora da visão predominante quanto se poderia imaginar, apesar de que perdoaríamos os liberais por manterem distância.

Os trechos a seguir da conversa de Stephen Dubner com Koch foram editados e condensados. 

P.: Eu gostaria de ouvir seus pontos de vista sobre uma série de questões. Vamos começar pela imigração. 

R.: Meus pontos de vista sobre imigração são os mesmos que sobre quaisquer importações de bens e serviços. Eu permitiria a entrada de qualquer um que torne o país melhor e de ninguém que o torne pior. E o mesmo vale para as pessoas que estão aqui ilegalmente. Se você está aqui, empregado de forma remunerada e adicionando valor à sociedade, então deveria poder ficar. Se não está contribuindo e criando problemas, então deveria ser mandado embora do país. 

P.: A guerra contra as drogas? 

R.: Como alguém que não me recordo disse, "Nós travamos a guerra contra as drogas e perdemos". As pessoas dizem: "Deus, veja essas pessoas tomando drogas, é terrível. Temos que impedi-las". Bem, parte do problema é que tentamos impedi-las. É como a Lei Seca. Eles tentaram isso. E isso colocou gangues e criminosos no controle do álcool e provocou uma onda de crimes. O mesmo vale agora. Não sou a favor de pessoas usarem drogas. Por outro lado, essa criminalização extrema não funcionou. Ela arruinou muitas vidas ao transformar pessoas que não cometeram mal nenhum em criminosos vitalícios. 

P.: Mudança climática, causas e consequências. 

R.: Há causas naturais e há causas devido ao aumento dos gases do efeito estufa, sendo o CO2 o maior. E, diferente das projeções, até o momento não provocou catástrofes. Obviamente, se a temperatura continuar subindo em algum momento será prejudicial. Então a pergunta é: o que fazer a respeito? Para mim, a resposta é inovação. Essas políticas que o governo americano e outros propuseram são apenas simbólicas. Elas basicamente não fizeram nenhuma diferença. Nos opomos a todas elas porque no final acabam promovendo o clientelismo. Elas acabam ajudando certas pessoas ricas em detrimento dos menos afortunados. 

P.: Então o que o senhor proporia, caso pudesse estabelecer uma política ambiental? 

R.: Precisamos liberar a inovação, o empreendedorismo e a produtividade. Temos visto muito progresso na energia solar. Agora, creio que o que a atrapalha são os subsídios. Ocorreram avanços imensos na eficiência em energia e na substituição do carvão por gás natural devido às inovações. Se você olhar para todo o progresso na redução dos gases do efeito estufa, verá que se deve à inovação, não à regulamentação. 

P.: A visão geral a seu respeito e a tudo o que os irmãos Koch defendem é que é apenas um esforço para proteger e expandir seus interesses de negócios. Apresente seu melhor argumento de que não se trata disso. 

R.: Nós nos opomos a todas as tarifas de importação. Nós nos opusemos à taxa de ajuste de fronteira no mais recente projeto de lei tributária no Congresso, que nos renderia um bilhão de dólares por ano. Há cerca de um trilhão e meio de isenções especiais no código tributário e nós nos beneficiamos tremendamente com eles. Nós nos livraríamos de todas elas. 

P.: Não é um tanto arrogante presumir que o senhor sabe o que é melhor para a sociedade? Convença-me de que pudesse reformar as coisas como acha apropriado, elas realmente funcionariam. 

R.: O que funcionou ao longo da história? O que, começando nos séculos 17 e 18, causou uma melhora do padrão de vida? O que, desde 1990, fez com que o número de pessoas na pobreza extrema caísse de 2 bilhões para menos de 800 milhões?

Quando se analisa a história, a resposta é liberação. É aplicando os princípios na Declaração da Independência. Todos nascem iguais com certos direitos inalienáveis. E governos são instituídos para proteger esses direitos. Se você olhar para nossa história como país, nós nos tornamos o país mais bem-sucedido no mundo porque seguimos esses princípios até certo ponto. Onde nós os violamos, então ocorreram todas as nossas tragédias, seja a escravidão, seja o extermínio de nativo-americanos, seja a negação dos direitos das mulheres. 

Nós sabemos por meio da psicologia que as pessoas não ficam felizes quando você apenas lhes dá coisas. Os seres humanos florescem quando as pessoas desenvolvem plenamente suas habilidades e as utilizam para fazer o bem. Há esses princípios que provaram ser verdadeiros ao longo de toda a história.

Vocês têm o mesmo objetivo e o debatem e aprendem um com o outro, é assim que inovação ocorre. Isso contribui para não se deixar levar pela arrogância. "Eu tenho todas as respostas. Tenho sabedoria eterna e sei o caminho exato o tempo todo." Não. Estou aqui experimentando, avançando de forma desajeitada, buscando por tentativa e erro encontrar um caminho melhor.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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