Forças americanas enfrentam contradições no Afeganistão

Dan Freedman

WASHINGTON - As forças americanas do sul da Ásia Central, procurando Osama bin Laden, terão que enfrentar o relevo político complexo da região, tão traiçoeiro quanto as montanhas que dominam o horizonte.

Vivendo em uma terra seca e árida, talvez muitos dos 25 milhões de
habitantes do Afeganistão encarem as forças americanas como libertadoras. Os americanos, entretanto, também descobrirão que os 45.000 combatentes fundamentalistas islâmicos do regime Taleban, que controla 90% do Afeganistão, financiados por bin Laden, são uma força guerrilheira experiente, fortalecida por voluntários de todo o mundo árabe.

Uma força afegã anterior, os Mujahedeen, enrolaram os soviéticos durante 10 anos antes de forçar a retirada das tropas russas em 1989 -uma lição que não passou desapercebida entre os planejadores militares americanos.

O governo militar do Paquistão está cooperando com o pedido americano de permissão de uso de seu território como região de preparo. O próprio
Paquistão, no entanto, é em grande parte responsável pela chegada Taleban ao poder, em 1996, de acordo com especialistas na área. Exilados afegãos e paquistaneses que treinaram em escolas religiosas no Paquistão são o maior componente da força Taleban.

Além disso, a cooperação do presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, com Washington levou militantes islâmicos paquistaneses a combaterem a polícia em revolta e conclamarem greve geral.

"Essencialmente, os EUA estão pedindo a dois parceiros que se livrem de um terceiro", disse Thomas Goutierre, diretor do Centro de Estudos Afegãos da Universidade de Nebraska, em Omaha. Ele estava se referindo à pressão americana sobre o Paquistão e o regime Taleban para que entreguem bin Laden, por seu provável envolvimento aos ataques terroristas do dia 11 de setembro nos EUA.

O clero Taleban recusou-se a cooperar. Para o Paquistão, "os riscos de
cooperação são enormes, mas existem riscos maiores se não o fizerem", disse Goutierre. "O Paquistão está compreendendo que terá que lidar com o Frankenstein que criou".

O relacionamento complicado do Paquistão com o Taleban -e bin Laden- remonta ao período entre a retirada soviética em 1989 e a tomada do poder Taleban em 1996. Com os Mujahedeen vitoriosos se provando incapazes de governar e o Afeganistão entrando em estado caótico, o Paquistão procurou um líder que estabilizasse o vizinho -alguém que o Paquistão pudesse controlar.

Encontrou este líder no mullah Mohammed Omar, líder religioso de cidade pequena, que conquistara sua fama por sua resposta estilo Clint Eastwood a um manda-chuva local que havia abduzido duas meninas de um caminhão e as violentado em 1994. Arregimentando um grupo de estudantes escolares religiosos, chamando-os de Taleban, Omar caçou o agressor e o pendurou em um tanque blindado.

Benazir Bhutto, primeiro ministro da época do Paquistão, e seus aliados em Washington "soltaram um suspiro de alívio e disseram, 'Aí está nossa
chance'", disse Robert Canfield, antropólogo da Universidade de Washington em Saint Louis, especialista em Afeganistão. "Eles adotaram seu sucesso".

Omar e seus seguidores Taleban -muitos dos quais haviam treinado em escolas no Paquistão- estabeleceram um estado teocrático, abolindo a televisão, proibindo as mulheres de freqüentarem escolas e perseguindo homens que não tivessem barbas longas o bastante. O Taleban também destruiu estátuas sagradas budistas, com base na proibição islâmica de imagens humanas.

A base de Omar era o grupo étnico pashtun, centrado no sul do Afeganistão, em torno da cidade de Qandahar. Nenhum dos grupos étnicos do Afeganistão constitui uma maioria, o que acarreta a natureza fragmentada de sua sociedade.

Aproximadamente 38% da população do país é pashtun. Segundo os
especialistas, a maior parte dos Talebans são pashtun, mas nem todo pashtun apoia o Taleban.

O Taleban abriu suas portas aos extremistas muçulmanos do mundo todo, inclusive a bin Laden, que em 1996 trouxe seu grupo al-Qaida, que significa 'a base', do Sudão para o Afeganistão. Acredita-se que mais de 50.000 radicais islâmicos do Iêmen, Arábia Saudita e outras parte do mundo árabe receberam treinamento militar no Afeganistão. Pelo menos 10.000 dos 45.000 soldados Talebans são parte das "brigadas árabes", atraídos das nações árabes fora do Afeganistão, disse Goutierre, que trabalhou como voluntário do Peace Corps no Afeganistão, em 1964.

A oposição ao Taleban veio da chamada Aliança Norte, uma aglomerado de 10 a 20.000 tadjiques (25% da população), hazaras (19%) e usbeques (6%) e outros, provenientes de minorias ainda mais reduzidas.

Concentrados no limite norte do Afeganistão, os membros da coalizão têm um ódio comum ao regime rígido islâmico que o Taleban impôs. No entanto, a aliança sofreu um golpe devastador no dia 8 de setembro, apenas 3 dias antes dos ataques terroristas nos Estados Unidos, quando assassinos disfarçados de repórteres mataram seu líder, Ahmed Shah Massood.

O Taleban, que já foi popular devido a sua militância de lei e ordem, não mais usufrui de apoio generalizado, segundo alguns analistas. "Essas pessoas (afegãos) só estão esperando por nós", disse Goutierre. "Estão cansadas de viver em um campo de concentração religioso".

Outros não têm tanta certeza. Tendo derrotado todos estrangeiros que
tentaram dominá-los -desde os persas no século 16 até os ingleses no século 19- "os afegãos desconfiam de poderes externos", disse Canfield. "Se você entra com um exército, provoca uma onda de ressentimento popular".

Tradução: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos