Plano dos EUA de auxílio a afegãos pode ajudar relações com muçulmanos

Stewart M. Powell

Washington, EUA -- O presidente George W. Bush lançou um programa de fornecimento emergencial de alimentos no valor de US$ 320 milhões (R$ 875,84 milhões) para a população faminta do Afeganistão. O objetivo da medida é conquistar o apoio das nações islâmicas para os ataques que os Estados Unidos devem desfechar contra o regime Taleban.

As forças armadas norte-americanas devem levar parte dos alimentos para determinadas áreas em nações próximas ao Afeganistão, naquilo que deve ser o primeiro teste de cooperação para a aliança contra o terrorismo, liderada pelos Estados Unidos.

Cerca de 15 mil refugiados afegãos migraram para o Paquistão desde que Bush ameaçou atacar militarmente a liderança Taleban, após os ataques terroristas do dia 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono. Outros 20 mil afegãos estão concentrados na fronteira afegã-paquistanesa.

Funcionários de agências de ajuda humanitária estimam que há 900 mil refugiados afegãos no Paquistão e que mais 1,5 milhão podem fugir para nações vizinhas nos próximos meses, devido à crescente onda de fome e à ameaça de ação militar norte-americana.

"Esta é a nossa forma de dizer que, embora os Estados Unidos se oponham de maneira firme e forte ao regime Taleban, somos amigos do povo afegão", disse Bush a uma platéia composta de funcionários do Departamento de Estado.

Segundo Bush, os norte-americanos são "um povo irado" após os ataques que se suspeita que teriam sido realizados por seguidores de Osama bin Laden. "Porém, em meio a nossa raiva, a grande bondade dos Estados Unidos tem que se sobressair e brilhar, e uma forma de fazer com que isso aconteça é ajudar as pobres almas do Afeganistão".

Segundo Paula Dobriansky, subsecretária de Estado para Assuntos Globais, os Estados Unidos só podem acabar com o terrorismo se aliarem ações militares com ajuda humanitária.

"Essas responsabilidades são inseparáveis", disse Dobriansky, em uma entrevista no Departamento do Estado. "Se não nos preocuparmos com a condição de vida de milhões de afegãos, as nossas chances de infligir um golpe fatal e decisivo sobre o terrorismo ficarão enfraquecidas".

A ajuda deverá incluir alimentos e remédios para combater a fome que assola a nação afegã, que tem o tamanho do Texas e uma população de 26,8 milhões de habitantes. A fome se tornou crítica no país após os 22 anos de guerra, aliados a uma longa seca e a um regime radical islâmico repressor que expulsou os funcionários das agências internacionais de ajuda humanitária. Segundo os especialistas, os afegãos são o povo que ingere a menor taxa de calorias na face da terra.

Uma quantidade inicial de alimentos e remédios no valor de US$ 25 milhões (R$ 68,42 milhões) será enviada ao Paquistão, Irã, Tadjiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão, a fim de fazer frente à esperada invasão de refugiados afegãos que deixarão o seu país. O Irã e o Paquistão já possuem 2,6 milhões de refugiados afegãos que deixaram as suas casas durante a guerra de dez anos entre a guerrilha afegã e a União Soviética.

Os restantes US$ 295 milhões (R$ 807,4 milhões) em auxílio serão enviados ao Afeganistão, se possível, através das Nações Unidas, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e de organizações não-governamentais. As entregas diretas também não estão descartadas.

A assistência será financiada com verbas do orçamento fiscal de 2002, que está em processo de aprovação pelo Congresso. Os Estados Unidos contribuíram com US$ 184 milhões (R$ 503,6 milhões) em ajuda humanitária ao Afeganistão no ano passado, sendo responsáveis por 80% dos alimentos fornecidos ao país. Segundo a Casa Branca, essa ajuda foi parte de um total no valor de mais de US$ 1 bilhão (R$ 2,73 bilhões) fornecidos ao Afeganistão desde a invasão soviética, em 1979.

Andrew Natsios, diretor da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), afirma que as agências de ajuda humanitária precisam que dobrar a quantidade de alimentos enviados mensalmente ao Afeganistão - algo entre 20 mil e 30 mil toneladas - a fim de evitar uma onda maciça de fome. Uma tropa de quatro mil burros já está levando suprimentos do Tadjiquistão até o Afeganistão, segundo o Departamento de Estado.

Natsios afirma que o governo Bush pode lançar suprimentos de pára-quedas nas áreas mais remotas do Afeganistão. "Temos pensado em todas as opções", afirma Natsios. "Qualquer opção para aumentar a remessa para 50 mil toneladas por mês está sendo avaliada e uma delas é o lançamento dos suprimentos por meio de aeronaves. Mas até o momento, nenhuma decisão foi tomada".

O secretário de Imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que a assistência foi elaborada para aliviar "uma grave crise humanitária que está tomando forma no Afeganistão, como resultado das ações tomadas pelo Taleban", e para demonstrar aos afegãos e a outras nações que "a nossa nação possui um bom coração".

Fleischer se recusou a comentar a possibilidade de se transportar os suprimentos de avião até o Afeganistão, alegando que haveria problemas quanto à segurança.

O secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, poderá vir a enfatizar o papel desempenhado pelas forças armadas norte-americanas na operação de ajuda humanitária, durante a sua vistia a ex-república soviética do Uzbequistão, após fazer escalas na Arábia Saudita, em Omã e no Egito. As autoridades do Uzbequistão concordaram em "apoiar os Estados Unidos e a abrir o espaço aéreo para que a força aérea norte-americana realize operações militares".

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, abriu caminho para a cooperação das ex-repúblicas soviéticas na Ásia Central, logo após os ataques terroristas aos Estados Unidos, solicitando que as nações próximas ao Afeganistão fornecessem assistência para todas as operações aéreas dos Estados Unidos.

Tradução: Danilo Fonseca

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