Casa Branca pressiona emissoras de TV para que censurem mensagens de Bin Laden

Stewart M. Powell

Washington, EUA -- A conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, telefonou para os executivos das redes de televisão dos Estados Unidos e pediu que eles parem de transmitir na íntegra as mensagens gravadas por Osama bin Laden.

Rice, a principal assessora de segurança do presidente Bush, argumentou que o governo se preocupa com a possibilidade de que Bin Laden possa utilizar as suas mensagens exaltadas para passar instruções secretas e codificadas para agentes terroristas que já estariam nos Estados Unidos, a fim de que esses lançassem ataques em retaliação aos quatro dias de bombardeio norte-americano contra o Afeganistão.

O secretário de Estado, Colin Powell, também manifestou a mesma preocupação, afirmando à CNN que as declarações gravadas por Bin Laden poderiam conter "algum tipo de mensagem oculta".

Os executivos das redes de televisão concordaram em não difundir as mensagens ao vivo ou na íntegra.

A solicitação pouco comum do governo Bush foi feita três dias após milhões de norte-americanos - incluindo Bush - terem visto a assustadora mensagem pré-gravada por Bin Laden, difundida pela estação de TV por satélite Al Jazeera, com sede no Catar, apenas algumas horas após o início da ofensiva aérea norte americana contra o Afeganistão.

O secretário de Imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, fez a solicitação governamental aos executivos das redes de televisão logo após Bush ter incluído Bin Laden e 21 outros elementos suspeitos de terrorismo na "lista dos mais procurados", que oferece até US$ 7 milhões (R$ 13,4 milhões) a informantes que auxiliem na prisão ou julgamento dos suspeitos.

Fleischer negou que o governo Bush estaria utilizando as alegadas questões de segurança, cuja veracidade não pode ser verificada por partes independentes, para impedir que Bin Laden alarmasse os norte-americanos em um momento em que a Casa Branca tenta conseguir apoio para uma longa campanha que pode causar baixas norte-americanas nos Estados Unidos e no exterior.

"Na melhor das hipóteses, as mensagens de Osama bin Laden tratam-se de propaganda - estimulando indivíduos a matar norte-americanos", afirmou Fleischer. "E na pior das hipóteses ele poderia estar transmitindo ordens aos seus seguidores para que dessem início aos seus ataques".

Fleischer citou repetidamente a "suspeita" e a "possibilidade" de que Bin Laden pudesse estar passando informações a seus agentes quando as suas mensagens gravadas foram transmitidas na íntegra pelas redes de televisão norte-americanas. Fleischer admite que não há evidência direta de que Bin Laden tenha utilizado as mensagens pré-gravadas para instruir esses agentes em outras ocasiões.

Essa retórica da Casa Branca seria apenas "uma expressão de preocupação", segundo Fleischer. "Não há provas concretas".

Fleischer disse que Bin Laden poderia utilizar um meio de comunicação de guerra bastante incomum, já que os seus canais de comunicação com o mundo exterior estão "bastante limitados" após o início dos ataques norte-americanos.

"Uma forma de se comunicar com os seus seguidores fora do Afeganistão é através da mídia ocidental", afirmou Fleischer.

Os meios de comunicação dos terroristas se transformaram em um foco das investigações do FBI, após os ataques de 11 de setembro. Os investigadores descobriram que alguns dos 19 sequestradores que pilotaram as aeronaves comerciais para realizar os ataques suicidas contra o World Trade Center e o Pentágono tinham se comunicado por e-mail, utilizando, em determinadas ocasiões, computadores de bibliotecas públicas.

As comunicações fizeram com que os agentes do FBI manifestassem preocupação quanto à possibilidade de os terroristas possuírem acesso a softwares criptografados difíceis de serem decifrados, que estão disponíveis nas lojas para o público em geral.

Ao se referir ao pedido feito por Rice, no sentido de que as redes de televisão parem de transmitir as mensagens de Bin Laden na íntegra, Fleischer disse que as estações de TV têm a liberdade de utilizar trechos das mensagens do suspeito sem que isso seja motivo de preocupação para a Casa Branca.

Um porta-voz da CNN disse que a rede não vai transmitir mensagens ao vivo da organização Al Qaeda - a rede internacional de terrorismo ligada a Osama Bin Laden - e que vai editar as mensagens futuras, analisando-as caso a caso.

"A política da CNN é evitar a divulgação de qualquer material que acreditarmos ser capaz de facilitar diretamente a ação dos terroristas", disse Matthew Furman. "Antes de decidir o que colocar no ar, a CNN vai procurar ouvir as instruções das autoridades apropriadas".

Em uma declaração pública, a rede NBC News informou: "A NBC News e outras divisões de notícias concordaram em não transmitir nenhuma mensagem pré-gravada da Al Qaeda sem primeiro avaliá-las meticulosamente. Todos concordamos com o fato de que a nossa responsabilidade como jornalistas é em informar o público norte-americano, sem colocar em risco a vida da nossa população".

O presidente da CBS News, Andrew Heyward, fez a seguinte declaração pública: "A CBS News e as outras organizações de notícias reafirmam o seu compromisso para com o jornalismo responsável que informa o público sem colocar em risco a vida dos norte-americanos".

Outras redes divulgaram declarações similares.

Fleischer disse que as autoridades da Casa Branca não fizeram contatos com jornais e redes de televisão norte-americanas em outros países.

Durante a divulgação do videoteipe de Bin Laden, transmitido para todo o mundo, o fugitivo de 44 anos se gabou de que "os Estados Unidos estão cheios de medo" como resultado dos ataques de 11 de setembro, que deixaram mais de 5,6 mil pessoas mortas ou desaparecidas. As redes de TV norte-americanas conseguiram a mensagem gravada por Bin Laden com a rede de televisão Al Jazeera, do Catar.

"Os Estados Unidos nunca mais vão sonhar, nem tampouco aqueles que moram no país vão contar mais com segurança, a menos que nós tenhamos segurança em nossa terra e na Palestina", avisou Bin Laden.

A rede terrorista de Bin Laden, a Al Qaeda, divulgou uma outra declaração na última terça-feira, através do porta-voz da organização, Sleiman Abou-Gheith, que afirmou que "a batalha nunca vai deixar os Estados Unidos" até que os norte-americanos deixem o Afeganistão. "Os norte-americanos têm que saber que a tempestade de aviões não vai parar, com a vontade de Deus".

Bush tem utilizado repetidamente a televisão em rede nacional para defender uma campanha de duração indeterminada contra o terrorismo. Desde os ataques de 11 de setembro, o presidente falou por quatro vezes em rede nacional com horário pré-determinado, incluindo o seu discurso na noite após o ataque e aquele anunciando o início da retaliação. Nos últimos 15 dias, Bush deu declarações públicas por pelo menos 23 vezes. Várias dessas declarações foram transmitidas ao vivo pela rede nacionais de televisão.

Tradução: Danilo Fonseca

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