Ao concordar com censura, mídia norte-americana rompe com tradição democrática

Helen Thomas

WASHINGTON - Para a maioria das pessoas, um "pedido" às redes de televisão feito pela Casa Branca em um período de guerra tem o peso de uma ordem governamental.

Obviamente foi dessa forma que as principais redes encararam a questão ao se curvarem às pressões feitas pela conselheira de Segurança Nacional, Condoleeza Rice, para que as redes não transmitissem na íntegra as mensagens gravadas ou as transmissões ao vivo feitas por Bin Laden e seus principais aliados.

Rice alegou que Bin Laden poderia estar enviando mensagens cifradas para os seus seguidores, nas transmissões geradas pela Al Jezeera, a rede via satélite em língua árabe, cuja sede fica em Catar. As gravações dessas mensagens foram divulgadas pelas redes norte-americanas nesta semana.

O secretário de Imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, não apresentou nenhuma evidência de que houvesse mensagens subliminares dirigidas a potenciais terroristas. Caso tais mensagens estivessem presentes, eu esperaria que contássemos com especialistas para decifra-las.

Rice avisou os executivos das redes que as transmissões das mensagens de Bin Laden poderiam chegar às células terroristas nos Estados Unidos, bem como servir de propaganda para populações muçulmanas, incitando mais ódio e mais violência contra os norte-americanos.

Os diretores das redes concordaram entre si em impor uma auto-censura, principalmente por razões patrióticas. Segundo Fleischer, o rádio e a imprensa escrita também serão solicitadas a reduzir a cobertura sobre Bin Laden.

Creio que isso é algo de muito ruim. Não seria melhor conhecer o inimigo? Acredito que a aparição de Bin Laden na televisão nacional no domingo proporcionou aos norte-americanos um profundo entendimento sobre as perigosas ameaças feitas pelo saudita.

Sempre achei que quanto mais soubermos, melhor será a nossa situação. É essa a essência da democracia. É claro que não acho que a liberdade se estenda a informações de inteligência que poderiam colocar as vidas das nossas tropas em risco. Me lembro do slogan da Segunda Guerra Mundial, "A tagarelice afunda navios". Mas também me lembro que era importante saber quais eram os objetivos dos nossos adversários.

As transmissões radiofônicas de Adolf Hitler, feitas a partir de Berlim, na década de trinta, nos alertaram para o perigo potencial e certamente influíram na decisão do presidente Franklin D. Roosevelt em convocar os jovens para o serviço militar. O Congresso lhe concedeu tal poder, mas a medida foi aprovada na Câmara por apenas um voto, em 1940, um ano antes do bombardeio a Pearl Harbor.

Os correspondentes norte-americanos possuem um excelente histórico de responsabilidade e disciplina nas guerras do século vinte. Pouquíssimos repórteres violaram as regas básicas nas guerras do Vietnã e do Golfo. Essas regras incluíam a não divulgação dos locais de movimentação das tropas, não noticiar o número de baixas quando uma operação militar estava em andamento e não revelar nenhuma informação sigilosa. A pena para os infratores seria a suspensão das credenciais do correspondente e o seu envio para casa.

Ao cobrirem a Guerra do Vietnã, os correspondentes contavam com a permissão para entrar nos helicópteros e ir até o campo de batalha. Eles podiam também ficar para trás e ouvir as resenhas do governo, que, como descobrimos depois, muitas vezes escondia a verdade.

A administração Nixon começou a grampear os telefones dos repórteres depois que foi revelado pela imprensa que os Estados Unidos vinham bombardeando o Camboja havia cerca de um ano. E isso era algo que, no entender da Casa Branca, não podia ser conhecido pelo povo norte-americano. Mas os cambojanos o souberam, assim como os vietnamitas e outros povos asiáticos.

Não seria melhor se conhecêssemos os fatos sobre Bin Laden, sobre a sua rede terrorista e sobre os motivos que o orientam? Esta guerra está sendo conduzida tanto no front interno quanto no Afeganistão. É melhor estarmos conscientes e alertas.

A Casa Branca não abordou apenas a mídia, em sua tentativa de conter o fluxo de informações. O presidente Bush também disse ao Congresso que é "inaceitável" que os parlamentares vazem qualquer palavra relativa às informações classificadas de inteligência. Mas ele teve que recuar com relação às restrições rígidas que tentou impor sobre o acesso à informação por parte de membros importantes do Congresso, após esses terem protestado.

Bush ficou furioso com o fato de um dos legisladores presentes em uma reunião que tratava de assuntos de inteligência ter revelado à imprensa que a administração temia haver "uma possibilidade de 100%" de que aconteçam novos ataques terroristas. No entanto, o FBI divulgou agora um "alerta" sobre a possibilidade de novos ataques em um futuro próximo, nos Estados Unidos e no exterior.

Penso que os norte-americanos sempre deveriam receber esses alertas com antecedência, para se prepararem.

Existe uma outra preocupação quanto às comunicações. As redes de televisão e os jornais norte-americanos podem se curvar aos "pedidos" da Casa Branca, mas há todo um mundo lá fora que não vai jogar de acordo com as mesmas regras.

Seria muito triste se os norte-americanos tivessem que ouvir as notícias não manipuladas sobre a guerra através de outros países.

O vice-presidente Dick Cheney foi secretário de Defesa durante a Guerra do Golfo. Ele mais tarde se vangloriou do fato de o governo não ter precisado "filtrar" suas informações através da mídia, devido aos rígidos controles impostos pela administração de George Bush I. Mas a credibilidade do governo saiu prejudicada.

Uma das suas gritantes omissões, de acordo como os correspondentes presentes na zona de conflito, foi a sua recusa em revelar quantos soldados morreram devido ao "fogo amigo" - os ataques realizados pelos próprios companheiros de uniforme- durante aquela guerra.

O presidente tem apresentado essa guerra como uma luta pela liberdade. No passado, fomos capazes de manter as nossas liberdades básicas, mesmo em períodos de guerra. É claro que é preciso fazer concessões quando se trata de revelar informações militares ou de segurança nacional que poderiam ser úteis aos terroristas.

Mas a confiança é uma via de mão dupla e os membros do governo precisam confiar na capacidade da imprensa em julgar os fatos, por mais difícil que isso seja para eles. E os jornalistas têm que fazer jus a tal confiança.

Tradução: Danilo Fonseca

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