Autoridades e indústria se preparam contra possibilidade de ataques químicos

Dan Freedman

WASHINGTON -- Enquanto o país continua apavorado com a ameaça do antraz, o governo e líderes da indústria estão examinando outro tipo de possível ameaça terrorista: um ataque com armas químicas. Osama bin Laden, acusado de ser o cérebro dos atentados de 11 de setembro, estaria encorajando sua rede al-Qaeda a desenvolver essas armas, que ferem e matam ao causar feridas na pele, bloquear o fluxo de oxigênio ou atacar o sistema nervoso central.

Ahmed Ressam, um membro argelino da al-Qaeda acusado de planejar um atentado a bomba contra o Aeroporto Internacional de Los Angeles durante as comemorações do milênio em 2000, declarou no início deste ano que em 1998 ele testemunhou uma sessão de treinamento no Afeganistão em que associados de Bin Laden mataram um cão preso numa gaiola com um composto de cianureto.


Autoridades européias também acreditam que uma explosão que derrubou uma fábrica de produtos petroquímicos em Toulouse em 21 de setembro pode ter sido um ato terrorista. A explosão matou 29 pessoas.

Embora o governo americano não tenha emitido um alerta especial sobre ataques químicos, o exército enviou grupos de 100 a 200 soldados para reforçar a segurança de seus oito depósitos de armas químicas. Essas instalações se localizam em Aberdeen, Maryland; Pueblo, Colorado; Umatilla, Oregon; Newport, Indiana; Pine Bluff, Arkansas; Tooele, Utah; Richmond, Kentucky; e Anniston, Alabama. O exército também instalou barreiras de concreto no acesso a essas instalações.

Esses locais abrigam os restos do arsenal do Pentágono de gás mostarda tóxico, assim como VX e sarin, líquidos que atacam o sistema nervoso central e podem causar a morte quase instantaneamente. A maioria dessas armas data das décadas de 50 e 60. De acordo com um tratado internacional de 1997, o exército está procedendo à destruição desse arsenal de 33 mil toneladas.

As visitas públicas a esses depósitos -silos de concreto reforçados com aço- foram canceladas e o Departamento Nacional de Aviação proibiu os vôos no espaço aéreo ao redor deles.

Desde 11 de setembro a indústria química dos Estados Unidos, com vendas anuais de US$ 462 bilhões (cerca de R$ 1,2 trilhão), tomou medidas para controlar o acesso às fábricas químicas, aumentou o pessoal de segurança e realizou verificações dos antecedentes dos funcionários, segundo Susan Roth, porta-voz do Conselho Americano de Química. Já antes dos atentados o setor estava tomando medidas para verificar a identidade de seus clientes.

"É preciso conhecer os clientes, conhecer suas empresas, conhecer seus antecedentes", disse Beth Kelliher, uma especialista do conselho que monitora as iniciativas da indústria para o controle de substâncias perigosas, sob o tratado de 1997. "É preciso ter certeza absoluta do uso pretendido do produto, e garantias de que a empresa é legítima."

Ainda assim, autoridades e especialistas em guerra química temem que os terroristas provoquem o caos através de sabotagem contra depósitos do exército, usinas químicas ou trens carregados de produtos químicos. Autoridades e especialistas também temem que os terroristas consigam fabricar suas próprias armas em laboratórios clandestinos.
Esses cenários são "o que pensamos quando tentamos imaginar o que faríamos se fôssemos (Bin Laden)", disse um oficial da inteligência americano que pediu para não ser identificado.

"O país deve se preparar para todo tipo de ameaça química, desde sabotagem industrial a ataques em grande escala com agentes de guerra química", disse Jonathan Tucker, um especialista em guerra química e biológica do escritório de Washington do Instituto Monterey de Estudos Internacionais.
Em termos de evitar o ataque químico, "estamos na melhor forma possível", disse Michael Powers, um associado de pesquisa no Instituto de Controle de Armas Químicas e Biológicas, em Washington. "Mas eu não colocaria isso na categoria de impossibilidades."

Um relatório de 1999 do Departamento Geral de Contabilidade, o órgão de vigilância do Congresso, salientou que "geralmente, produtos químicos industriais tóxicos" como fosgênio, cloro e cianureto de hidrogênio "podem ser comprados no mercado ou roubados, evitando a necessidade de fabricá-los". O fosgênio e o cloro, que causam asfixia, foram usados na Primeira Guerra Mundial. O fosgênio é usado na fabricação de plásticos e o cloro é empregado na limpeza e desinfecção de piscinas. Os nazistas usaram o cianureto de hidrogênio, que bloqueia a circulação do oxigênio, nos campos de extermínio como Auschwitz. Ele também tem uma ampla variedade de aplicações industriais.

Um aviso assustador do que poderia acontecer num caso de sabotagem química ocorreu em 1984, quando 2.500 pessoas morreram de exposição ao isocianato de metila numa fábrica da Union Carbide em Bhopal, Índia. Um funcionário desavisado teria permitido que o produto químico, usado na produção de pesticidas, escapasse de um tanque. Ele atingiu uma área de mais de 25 quilômetros quadrados.

Agentes nervosos com VX, sarin, tabun e soman são de fabricação mais difícil por grupos terroristas. Um relatório do ano passado do Centro Henry L. Stimson um grupo de pesquisas de Washington, disse que um laboratório para produzir armas que atacam os nervos custaria cerca de US$ 20 milhões (R$ 54 milhões).
Produzir quantidades significativas exigiria um grande equipamento de segurança e monitores de gases para evitar danos aos trabalhadores, disse o relatório. Um químico orgânico experiente ou alguém com formação avançada no assunto teria de supervisioná-lo, ainda segundo o relatório.

Um ataque em larga escala com um agente nervoso poderia ser devastador. Uma explosão ao ar livre de 1 tonelada de sarin tem potencial para matar 10 mil pessoas, segundo estimativa do Pentágono. Mas especialistas indicam que o único ataque conhecido de gás sarin não produziu um número maciço de mortes. A seita japonesa Aum Shinrikyo espalhou sarin em cinco vagões lotados do metrô de Tóquio em 1995. Membros da seita gastaram US$ 10 milhões para construir uma fábrica de sarin, mas o produto final, com apenas 25% de pureza, tinha forma líquida, e não a forma mais letal, em aerossol.

Os seguidores da Aum Shinrikyo colocaram sarin em 11 sacos plásticos, os deixaram no piso dos vagões de metrô e os furaram com guarda-chuvas. Doze pessoas morreram e quase mil ficaram feridas, mas especialistas dizem que a seita não atingiu seu objetivo de causar um número elevado de mortes para provocar o pânico no Japão.

"É importante levar em conta o número de mortes relativamente baixo", disse Leslie-Anne Levy, uma associada de pesquisas no Centro Henry L. Stimson. "Ninguém vai dizer 'isso nunca vai acontecer'. Mas na medida em que temos exemplos de grupos que tentaram esse tipo de ataque, é ilustrativo examinar onde ocorreram e seu fracasso."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Terror

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