Serviço de inteligência dos EUA conta com sofisticado sistema de análise de pistas

Dan Freedman

Washington, EUA -- O sistema de análise de informações que resultou nos avisos do FBI sobre a iminência de um ataque terrorista na semana passada foi desenhado para produzir um retrato completo de uma ameaça específica.

Mas, freqüentemente, fornece pouco mais do que informações fragmentadas, que os analistas precisam analisar como se fossem mineradores procurando ouro.

A análise dos dados é "mais uma arte que uma ciência", disse uma autoridade que conhece o sistema e pediu para não ser identificada.

Sem a análise, no entanto, pedaços de informação não tratados seriam indecifráveis.

"Pode-se fazer juntar uma quantidade incrível de dados, mas se você não puder analisar o que está ali, o que não está e o que isso quer dizer, o processo tem pouco valor", disse Robert Heibel, ex-funcionário de combate ao terrorismo do FBI, que dirige um programa de treinamento em análise de inteligência em Mercyhurst College, em Erie, Pensilvânia.

Tal análise teve um importante papel no alerta divulgado na última segunda-feira (29) pelo advogado geral dos EUA, John Ashcroft, e o diretor do FBI, Robert Mueller. O alerta não forneceu detalhes sobre o tipo de ataque esperado ou onde ocorreria.

Dois dias depois, o FBI também advertiu a polícia sobre ameaças terroristas a pontes suspensas na Costa Oeste.

Todos os dias, os analistas do FBI, CIA, Agência de Segurança Nacional (NSA) analisam pilhas de relatórios que chegam de fontes humanas e eletrônicas. O material passa por amplos bancos de dados de inteligência, onde os analistas procuram por dados como nomes, números de telefone e de cartão de crédito relacionados.

Os resultados mais promissores passam pela chamada "matriz de ameaça" da CIA, que destila os dados em algo parecido com uma lista, contendo as 40 maiores ameaças das últimas 24 horas, disse a autoridade.

A lista então se torna o assunto de uma teleconferência segura, ou SVTC -onde analistas e funcionários do FBI, CIA, NSA, Conselho Nacional de Segurança, Agência de Inteligência de Defesa e Departamento de Estado estabelecem contato por vídeo.

Conhecidos nos círculos da inteligência como "sivets", os participantes analisam as ameaças e excluem as menos sérias ou menos imediatas, segundo a autoridade. As ameaças consideradas de fontes fidedignas e que pareçam estar falando de ação imediata recebem maior prioridade e as mais altas autoridades do governo são alertadas.

O aviso emitido na segunda-feira baseou-se em informação providenciada principalmente pelo FBI em seu sistema de rastreamento de inteligência, disse a autoridade. As informações vieram das próprias fontes do FBI e do Serviço de Inteligência de Segurança do Canadá.

As ameaças que levaram ao aviso de Ashcroft pareceram emanar diretamente de fontes ligadas à Al Qaeda, a rede terrorista de Osama bin Laden.

Essencialmente, o governo emprega três níveis de advertências: uma "avaliação" relata uma situação em deterioração em um país específico e é mais direcionada a embaixadas e forças militares americanas no exterior. Um "conselho" é um aviso mais geral de uma ameaça terrorista com pouca ou nenhuma urgência. Um "alerta", como os emitidos por Ashcroft e Mueller, primeiro no dia 11 e depois no dia 29 de outubro, é a advertência de mais alto nível e sugere que um ataque poderá ocorrem a qualquer momento.

Emitir o alerta de mais alto nível é uma atitude ousada no guerra psicológica entre terroristas e o governo.

Temendo uma reação popular negativa caso escondam o que sabem, as autoridades relutam em segurar qualquer informação de inteligência que possa ao menos sugerir a possibilidade de um ataque terrorista.

As autoridades lembram-se do ataque à bomba ao vôo 103 da Pan Am em Lockerbie, Escócia, em 1989. Os críticos desancaram o governo, depois que foi revelado que o Departamento de Estado havia circulado alertas entre as embaixadas na Europa sobre um possível ataque à bomba a um avião, mas não avisara ao público.

Antes do dia 11 de setembro, as autoridades achavam que a polícia seria capaz de impedir ataques e que os alertas ao público somente avisavam os terroristas que seu escudo de segurança havia sido rompido.

Com os ataques de 11 de setembro, esse raciocínio desapareceu.

Agora, a polícia vê o público como parte integral de sua equipe, ajudando a deter o terrorismo ou ao menos capturar os perpetradores depois. Mueller, disse sobre o alerta de 11 de outubro, quando nada aconteceu imediatamente: "É muito difícil saber, mas pode ter ajudado a evitar o ataque".

Harvey Kushner, autor de livros sobre terrorismo e professor de justiça criminal na Universidade de Long Island em Nova York, disse que os alertas são como "um chamado às armas na nova guerra... fazendo, da população, soldados nessa batalha".

As autoridades, no entanto, também sabem que o público ficará habituado a alertas de ameaças se forem emitidos freqüentemente, sem que nada aconteça.

"Teremos que nos habituar a esse ambiente", disse Heibel. "A única forma de combater a complacência será com resultados".

A autoridade do governo disse que os terroristas, algumas vezes, inventam falsas ameaças, para testar as defesas e o preparo do governo. "Estão sempre testando nossas defesas, avaliando nossas respostas", disse. "Perguntamo-nos quanto dessas ameaças são desinformação, inventadas para entupir o sistema e dividir nossos recursos".

Tradução: Deborah Weinberg

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