Após um mês de guerra, EUA enfrentam novo inimigo

Charles J. Lewis e Eric Rosenberg

WASHINGTON -- Depois de um mês na caçada do suspeito líder terrorista Osama Bin Laden e seus defensores do Taleban, as forças militares dos Estados Unidos enfrentam um inimigo emergente que pode ser mais letal que qualquer foguete-granada ou mina terrestre que encontrem no Afeganistão. Esse inimigo é o tempo.

Algumas das faces desse inimigo eram conhecidas antes do início dos ataques aéreos americanos em 7 de outubro. Nessa categoria está o forte inverno que descerá sobre o Afeganistão e a região ocidental do Himalaia nas próximas semanas. O Afeganistão derrotou dois dos mais poderosos impérios do mundo com a ajuda desse inverno rigoroso.

Em tempos modernos, o inverno foi um aliado dos combatentes afegãos que lutaram numa rebelião de dez anos na década de 80 contra os invasores soviéticos, estes também tarimbados em combater nessa estação. E no inverno de 1841, ao se retirar da capital afegã, Cabul, 16.500 soldados e civis britânicos foram mortos por combatentes afegãos. Somente um inglês sobreviveu para contar a história.

Mais importante ainda, o tempo é uma medida de paciência, e há evidências de que a paciência está ficando rala em setores chaves do esforço de guerra, depois de apenas quatro semanas.

O Paquistão e as outras repúblicas da Ásia Central predominantemente islâmicas são membros impacientes da aliança antiterrorismo do presidente Bush. Eles oferecem a contragosto seu apoio aos Estados Unidos, com uma cláusula-escapatória que diz: "Deixaremos vocês usarem nossas bases, desde que sua guerra termine logo".

O público americano também pode ficar impaciente, frustrado e cansado com qualquer operação militar que se prolongue muito, especialmente se as forças terrestres americanas ficarem mais envolvidas, o que agora parece inevitável, e as unidades sofrerem baixas. Pesquisas mostram um forte apoio ao presidente Bush nos Estados Unidos, com cerca de 90% dos americanos aprovando seus esforços para derrotar o terrorismo.

Mas na Grã-Bretanha, principal aliado americano na campanha antiterrorista, o apoio pode estar diminuindo. Uma nova pesquisa do jornal "The Guardian" mostrou que a aprovação do público britânico à guerra caiu 12 pontos nas últimas duas semanas, enquanto a maioria acredita que deve haver uma pausa nos bombardeios.

As lições da história militar recente são claras. Os americanos querem que suas guerras sejam claramente definidas em tempo e abrangência. O modelo de maior êxito foi a operação Tempestade no Deserto em 1991, que começou com o claro e simples objetivo de expulsar os iraquianos do Kuwait. A missão foi cumprida de modo preciso em apenas seis semanas. O presidente George Bush e o general do exército Norman Schwarzkopf tornaram-se heróis nacionais. Foi uma guerra feita para a televisão, com o Pentágono mostrando orgulhosamente vídeos de bombas inteligentes arrasando os alvos iraquianos. A paciência do público não foi posta à prova.

Em contraste, a frustração e a impaciência tomaram conta do público durante o envolvimento militar americano na Coréia e no Vietnã, depois que aumentou a sensação de que os objetivos dos Estados Unidos eram confusos e que a vitória, qualquer que fosse sua definição, não estava próxima, apesar dos enormes investimentos humanos e financeiros.

Preocupado com essas lições, o governo Clinton retirou as forças americanas da Somália em 1993, depois que 18 soldados do exército foram mortos na tentativa de capturar um chefe guerreiro local. Em 1999, a Casa Branca de Clinton proibiu o uso de tropas terrestres quando a Otan entrou em guerra para retirar as forças sérvias da antiga província iugoslava de Kosovo. Mais uma vez a paciência do público não foi testada.

Na semana passada, quando a operação Liberdade Duradoura passou pela marca dos 30 dias, surgiram perguntas se os Estados Unidos estavam enfrentando outro "atoleiro", expressão que se refere ao aparentemente interminável pântano da Guerra do Vietnã.

Jacob Heilbrunn, um editorialista do jornal "Los Angeles Times", disse que "os Estados Unidos não estão rumando para um atoleiro. Já estão nele. Os Estados Unidos não estão perdendo a primeira rodada contra os Taleban; já perderam".

O jornal "The New York Times" relatou que "a terrível palavra 'atoleiro' começou a pairar sobre as conversas entre autoridades e analistas de política exterior, tanto aqui quanto no estrangeiro", enquanto a capa da revista "U. News & World Report" declarava: "A pior semana da guerra".

Perguntado numa entrevista coletiva se os Estados Unidos estavam ficando presos num atoleiro, o secretário da defesa, Donald Rumsfeld, censurou a mídia por esperar resultados demais, depressa demais.

"Não. Desde o primeiro dia o presidente disse e eu disse várias vezes que este será um longo, longo esforço. ... Estamos fazendo isso numa época em que existe um ciclo constante de 24 horas da imprensa, que tem um apetite voraz por mudanças, por conflitos, por informações diferentes. Portanto, se ela não for alimentada a cada 5 minutos, é um atoleiro. Bem, não existe atoleiro nenhum."

Rumsfeld, que se revelou o mais hábil porta-voz do governo sobre as operações militares, conhece os perigos das expectativas de uma guerra rápida. Ele usa quase todas as coletivas para abafar essas expectativas manifestadas por alguns órgãos da mídia. Um de seus slogans favoritos é: "Isto é uma maratona, não uma corrida". Mesmo assim, depois de ter dito ao público para pensar que a guerra duraria anos, recentemente ele encurtou para meses.

Apesar dos esforços de Rumsfeld, algumas autoridades do Pentágono contribuíram para as expectativas de uma guerra curta. Por exemplo, o general dos fuzileiros navais Gregory Newbold, diretor de operações do Estado-Maior Conjunto, declarou em 16 de outubro, nove dias após o início dos bombardeios americanos, que "o poder de combate dos Taleban foi eviscerado".

Em uma guerra curta, esse tipo de declaração dá origem a uma rendição antecipada ou pelo menos a negociações de paz. Mas essa opinião se baseia numa visão de objetivos militares irrelevantes no Afeganistão, quais sejam, as medidas tradicionais de avaliação de danos causados por bombas -destruição de pontes, aeroportos, campos de petróleo, tanques e ferrovias.

Essas medidas simplesmente não se aplicam ao Afeganistão. Lá, 24,8 milhões de pessoas vivem em sua maioria em terrível pobreza, com uma das infra-estruturas menos desenvolvidas do mundo, a maior parte da qual já estava destruída depois da guerra com os soviéticos e a subseqüente guerra civil entre as tribos afegãs. Lá, a importância de bombardear o adversário para deixá-lo na Idade da Pedra é quase nula, porque a população já vive muito próxima da Idade da Pedra.

Amitai Etzioni, um ex-comando israelense, salientou as limitações do poder aéreo no Afeganistão. "O que poderíamos bombardear? Algumas pinguelas ou passagens para cabras?", ele disse. Rumsfeld, sempre ávido para abafar qualquer expectativa de guerra rápida, corrigiu Newbold vários dias depois.O general "gostaria de não ter dito aquilo", disse o secretário à imprensa. "Eu não teria dito aquilo."

Em 24 de outubro, 17º dia da campanha de bombardeio, outro membro do Pentágono escorregou numa casca de banana e usou a terminologia da guerra curta. O contra-almirante da marinha John Stufflebeem, vice-diretor de operações do Estado-Maior Conjunto, expressou frustração pelo fato de que, apesar de os Estados Unidos terem conquistado a supremacia aérea no Afeganistão e derrubado a maioria dos alvos militares, o Taleban ainda não se rendeu.

Os Taleban "estão demonstrando que são guerreiros valentes...", disse Stufflebeem. "Estou um pouco surpreso com a tenacidade com que eles se mantêm no poder."

No dia seguinte, Anatol Lieven, um estudioso da Ásia Central na Fundação Carnegie para a Paz Internacional, voltando do Paquistão para Washington, leu as declarações de Stufflebeem e expressou sua própria incredulidade. "Onde o Pentágono está obtendo suas análises?", exclamou, surpreso de que os planejadores militares americanos pensassem em termos de uma guerra rápida, aparentemente desconhecendo a história do Afeganistão de absorver pacientemente os golpes dos invasores, manter-se firmes e afinal predominar quando os invasores fogem frustrados.

Lieven salientou que os soviéticos bombardearam os afegãos com muito mais força e por mais tempo durante dez anos, mas acabaram recuando. As expectativas americanas devem se sintonizar com a realidade, ele disse.

Depois de um mês de bombardeio americano ao Afeganistão, em mais de 2 mil missões, dar um veredicto sobre o progresso da guerra até agora depende de como se define "progresso".

Sob uma perspectiva militar tradicional, a guerra está indo bem. A marinha e a força aérea americanas rapidamente estabeleceram a supremacia aérea, atacando com armas de precisão pontos de defesa antiaérea e instalações de comando e controle. Superioridade aérea significa que os pilotos aliados podem realizar operações de bombardeio a qualquer hora do dia com um temor mínimo de ser derrubados. Essa superioridade também permitiu que os aviões americanos, incluindo bombardeios B-52, dessem maior apoio às forças em terra da Aliança do Norte contra as posições Taleban.

O general do exército Tommy Franks, comandante militar encarregado da operação Liberdade Duradoura, disse: "Acho que estamos fazendo um grande progresso".

Sob a perspectiva do objetivo do presidente Bush, de levar Bin Laden e seus tenentes à justiça, a guerra não está indo muito bem. Alcançar esse objetivo faz as ações militares americanas na Ásia Central parecerem mais um caso policial do que uma ampla operação militar. Até agora o suspeito escapou à detenção.

"Eles têm quilômetros e quilômetros de túneis e cavernas onde podem se esconder, e isso torna a tarefa muito difícil", disse Rumsfeld. "Encontrar as pessoas mais importantes dessas organizações é como procurar uma agulha num palheiro."

Da perspectiva da Aliança do Norte, a guerra avança em sobressaltos frustrantes. Os ataques aéreos dos Estados Unidos aparentemente contribuíram para a vitória da aliança nesta sexta-feira, quando capturou a importante cidade de Mazar-e Sharif.

Mas a aliança está se queixando de que, apesar da maior coordenação com Washington, continua limitada porque o Pentágono não cumpriu as promessas de ajuda adicional. As forças rebeldes "ainda precisam do material, da logística e da munição que nos foram prometidas, mas não entregues", disse Haron Amin, um porta-voz da aliança.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Afeganistão

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