Al Qaeda se prepara para sobreviver à perda de Bin Laden

DAN FREEDMAN

WASHINGTON - A captura ou a morte de Osama bin Laden causaria danos à organização terrorista internacional Al Qaeda, sem no entanto destruí-la, segundo especialistas em terrorismo do governo e independentes.

À medida que as forças militares dos Estados Unidos e os combatentes anti-Taleban apertam o cerco em torno de Bin Laden no Afeganistão, os "sleepers" (agentes operacionais que ficam em estado de latência, esperando instruções para entrar em ação) da Al Qaeda em dezenas de países por todo o mundo podem estar no momento mergulhando ainda mais profundamente nos subterrâneos da clandestinidade.

Segundo fontes da comunidade de inteligência, Bin Laden já instruiu as suas células disseminadas pelo mundo a conduzir livremente operações terroristas sem a sua aprovação direta. Isso significa que esses agentes operacionais poderão atacar, ainda que a alta cúpula da Al Qaeda tenha sido desmantelada.

"A Al Qaeda nunca foi uma organização estruturada como uma pirâmide", afirma Harvey Kushner, especialista em terrorismo da Universidade de Long Island, em Nova York. "Sei que os norte-americanos gostam de pensar que, caso você corte a cabeça da organização, ela automaticamente se desintegra. Mas isso simplesmente não corresponde à realidade".

Desde a sua criação, em meados dos anos oitenta, por Osama Bin Laden, a Al Qaeda - "A Base", em árabe - tem operado como uma federação não centralizada de células terroristas, cujos ramos se estendem a cerca de 60 nações.

Os seus membros se inspiraram na visão de Bin Laden, baseada em um islamismo expurgado de influências ocidentais. E, contando com uma conta bancária de US$ 30 milhões (R$ 75 milhões) - uma herança da empresa de construção civil da sua família saudita - Bin Laden tinha os recursos necessários para transformar a sua mensagem em ação.

As células levantaram fundos adicionais através de negócios legítimos e do tráfico de drogas, recrutaram voluntários para treinamento em campos no Afeganistão e enviaram guerreiros mujahedins para lutar ao lado de muçulmanos na Tchetchênia, na Bósnia, na Caxemira e em outras zonas de conflito.

E essas células também planejaram ataques terroristas. Os ataques de 11 de setembro em Nova York e Washington são um exemplo da estrutura descentralizada da Al Qaeda. O seqüestro de quatro aviões Boeing foi planejado e executado por células da Al Qaeda com base na Europa, e especialmente em Hamburgo, na Alemanha, segundo as autoridades policiais.

Os especialistas afirmam que é difícil de avaliar a capacidade da Al Qaeda em sobreviver às prisões realizadas pela polícia após o dia 11 de setembro, na Espanha, na França, na Bélgica, na Alemanha e em outros países da Europa, bem como à detenção de mais de 600 suspeitos por autoridades norte-americanas e ao congelamento do patrimônio financeiro da organização.

E é ainda muito cedo para dizer com que eficácia rede de Bin Laden é capaz de operar sem a proteção do governo Taleban no Afeganistão, que lhe ofereceu abrigo em 1996, após a sua expulsão do Sudão.

"Caso Bin Laden - ou algum dos seus principais assessores - conseguir escapulir do cerco, a maioria das nações provavelmente teria muita relutância em recebe-lo, já que viram as conseqüências que a concessão de tal abrigo teve para o Afeganistão", disse uma alta autoridade do Departamento de Estado, que pediu para não ser identificada.

O Sudão, a Somália e o Iêmen são as nações mencionadas com mais freqüência como possíveis locais de exílio para Bin Laden ou seus assessores. Esses países também são considerados como possíveis alvos futuros para a campanha dos Estados Unidos contra o terrorismo.

No início do ano, o Departamento de Estado afirmou que o Sudão é uma entre sete nações que patrocinariam a atividade terrorista internacional. Mas, desde 11 de setembro, o Sudão tem cooperado com as autoridades dos Estados Unidos, prendendo suspeitos de serem terroristas com conexões internacionais e fornecendo relatórios de inteligência sobre as atividades desses indivíduos.

O Iêmen também tem cooperado com os Estados Unidos na questão do terrorismo. O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, esteve em Washington na semana passada para manter encontros com o presidente Bush, o secretário de Estado Colin Powell e outros, sobre a possibilidade de o país receber um pacote de ajuda financeira no valor de US$ 400 milhões (R$ 1 bilhão). Embora as autoridades norte-americanas tenham acusado o Iêmen de dificultar a investigação sobre o ataque de 12 de outubro de 2000 contra o destróier USS Cole, na cidade portuária de Aden, o país recentemente permitiu que agentes do FBI interrogassem os suspeitos e testemunhas pessoalmente. Acredita-se que os dois suicidas que atacaram o Cole seriam membros da Al Qaeda.

A Somália poderia oferecer atrativos para Bin Laden e seus assessores precisamente porque o país é controlado por chefes guerreiros locais, sem praticamente nenhuma subordinação a um governo central. Vários dos combatentes que enfrentaram as forças dos Estados Unidos em 1993, em Mogadishu, a devastada capital da Somália, receberam treinamento nos campos da Al Qaeda no Afeganistão.

Na semana passada foram divulgadas informações conflitantes, segundo as quais forças etíopes teriam atravessado a fronteira com a Somália, possivelmente em perseguição aos membros de um grupo fundamentalista muçulmano, o al-Itihaad al-Islamiya. Em setembro o governo Bush se mobilizou para congelar os bens do grupo, devido aos seus supostos laços com a Al Qaeda.

A Al Qaeda também possui ligações com grupos terroristas na Indonésia e nas Filipinas. O grupo Abu Sayyaf, que está movendo uma guerra de guerrilha contra o exército filipino na ilha de Basan, teria ligações com Bin Laden, segundo informações de oficiais de inteligência dos Estados Unidos.

A Al Qaeda também teria fornecido dinheiro, homens e armas para o Laskar Jihad e para a Frente de Defensores Islâmicos, na Indonésia. Ambos estão tentando empurrar a Indonésia para um regime fundamentalista islâmico. Mesmo assim, com a sua rede sob pressão em todo o mundo, pode não haver mais refúgios disponíveis para Bin Laden e seus auxiliares.

"Se fosse Bin Laden, eu me refugiaria em uma ilha deserta desconhecida por todos no planeta Terra", afirma David Shinn, um ex-funcionário do Departamento de Estado que foi embaixador dos Estados Unidos na Etiópia.

A exata configuração futura da Al Qaeda pode depender de quem - se é que haverá alguém - entre as suas principais lideranças sobreviver à guerra no Afeganistão. A morte ou a captura de Bin Laden deixaria o militante egípcio Ayman Al-Zawahiri na direção da organização.

O grupo terrorista de Zawahiri, a Jihad Islâmica Egípcia, implicado no assassinato de Anuar Sadat, em 1981, poderia ressurgir como uma ameaça ao governo pró-ocidental do Egito, segundo a autoridade do Departamento de Estado. Em 1998, Zawahiri fundiu em grande parte o seu grupo à organização de Bin Laden. A seguir ele se tornou o principal chefe tático e organizador da Al Qaeda.

Uma questão ainda mais difícil de ser avaliada diz respeito à possibilidade de que o fim de Bin Laden e de seus auxiliares possa terminar por avivar as chamas do fundamentalismo islâmico.

"Podemos acabar criando mártires que os sucessores de Bin Laden utilizariam para inspirar novas gerações de adeptos", afirma James Ray, professor de ciência política e especialista em terrorismo da Universidade Vanderbilt.

Os fundamentalistas religiosos são aqueles que muitas vezes passam à juventude do mundo muçulmano uma mensagem segundo a qual o Ocidente é o culpado por todas as suas mazelas. O Paquistão, por exemplo, está coalhado de escola religiosas - as madrassas - que alimentam os garotos com uma dieta substancial composta de ideologia anti-ocidental, enquanto eles aprendem a ler e a escrever a partir do Alcorão.

Os críticos acusam os governos da região de não se interessarem por reprimir as instituições fundamentalistas porque tais grupos desviariam a atenção do público da corrupção e da repressão praticadas por esses governos, bem como das suas políticas econômicas fracassadas.

"O terrorismo é o instrumento do fraco ultrajado", afirma Joseph Montville, ex-funcionário do Departamento de Estado e especialista em psicologia política do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, uma instituição com sede em Washington. "Enquanto as circunstâncias políticas gerarem uma sensação de ódio, o terrorismo continuará se constituindo em uma alternativa coerente para certas pessoas".

Tradução: Danilo Fonseca

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