Johnson e Vietnã oferecem uma lição para Bush: seja sincero

Robert E. Thompson

WASHINGTON - Até o momento George W. Bush não tem demonstrado sinais de estar sofrendo quando envia jovens americanos para lutar nas montanhas e planícies desoladas do Afeganistão.

Mas ele pode demonstrar tal angústia para aqueles que estão mais próximos dele -seu pai e sua esposa, assim como seus principais assistentes no governo.

Há, é claro, mudanças visíveis em Bush, que em breve completará um ano na presidência. Seu cabelo está mais grisalho, as linhas no seu rosto estão mais acentuadas e, segundo seus colegas, ele está menos propenso a brincar do que anteriormente. Mas tais mudanças se manifestam em quase todos os que carregam o fardo da presidência.

Bush também parece fazer quase que diariamente um discurso no qual promete a vitória sobre os terroristas responsáveis pela tragédia de 11 de setembro.

Outro presidente, um texano como Bush e que esteve envolvido em outra guerra longe das costas americanas 35 anos atrás, também se entregou a tais bravatas públicas. "Preguem as peles de guaxinim na parede", ele aconselhou aos soldados quando fez uma visita de surpresa ao Vietnã em 1966.

Seu nome era Lyndon Johnson. Ele tinha 1,90 metro de altura, pesava mais de 100 quilos quando se tornou presidente em 1963, conquistava as pessoas e externamente transmitia grande autoconfiança.

Mas interiormente ele se torturava quando era forçado a aumentar o envio de soldados ao Vietnã. Ele acordava todo dia às 2 ou 3 horas da madrugada e caminhava até a Sala da Situação na Casa Branca para saber quantos jovens americanos tinham sido mortos ou feridos.

Johnson procurava os ex-presidentes Dwight Eisenhower e Harry Truman e seus ex-colegas no Capitólio em busca de conselhos. Os ex-presidentes apoiavam suas ações no Vietnã.

Mas muitos dos legisladores que serviram sob sua liderança no Senado por sete anos o aconselharam a sair do Vietnã - o que ele achava que não podia fazer.

De suas gravações na Casa Branca de 1964 e 1965, editadas e interpretadas pelo historiador Michael Beschloss em seu novo livro, "Reaching for Glory" (Em Busca da Glória), nós temos um bom entendimento do tormento que Johnson sofreu ao não encontrar uma saída para o Vietnã que não fosse a rendição.

Em fevereiro de 1965, quando tinha cumprido apenas um mês de seu mandato como presidente eleito, Johnson confessou ao seu secretário de Defesa, Robert McNamara: "Eu não acho que nada será tão ruim quanto perder, e não vejo uma forma de vencer".

É verdade que Johnson herdou o Vietnã de John F. Kennedy quando este foi assassinado em 22 de novembro de 1963. Kennedy, profundamente preocupado com a deterioração política e militar no pequeno país do Sudeste Asiático, enviou 16 mil consultores militares para auxiliarem os oficiais locais na luta contra a ocupação comunista do Norte.

Alguns dos assistentes de Kennedy dizem que ele teria efetuado a retirada do Vietnã após vencer a reeleição em 1964. Mas ninguém pode saber ao certo porque Kennedy também estava assegurando a outros que os Estados Unidos lutariam no Vietnã até a vitória.

Johnson foi um dos homens mais complexos que já serviram como presidente -e era muito orgulhoso. Apesar de desejar ser um comandante-em-chefe forte como seu mentor, Franklin D. Roosevelt, ele era perseguido pela insegurança quando lidava com a política externa e a intervenção militar americana no exterior.

Os jornalistas que realizavam a cobertura da Casa Branca e regularmente viam Johnson privativamente lembram que ele perguntava freqüentemente: "O que devemos fazer no Vietnã?" A pergunta soava como uma questão retórica que não exigia uma resposta dos repórteres, que não eram informados sobre tudo o que se passava no Vietnã.

Mas agora sabemos que ele fazia a pergunta para vários indivíduos de ocupações e orientações diversas, presumivelmente na esperança de que alguém pudesse fornecer a fórmula mágica para o desembaraço da tropas americanas.

Por um lado, ele não queria ser o primeiro presidente americano a perder uma guerra. Por outro, ele mantinha a esperança de que o aumento do número de tropas levaria à vitória sobre os vietcongues. Johnson também sabia que os dois países comunistas mais poderosos do mundo, a União Soviética e a China, estavam enviando dinheiro e armas para o Vietnã - e ele não queria fazer nada que provocasse uma guerra contra eles.

Mas ele aumentou seus problemas ao se recusar a dizer ao povo americano o motivo de ter de aumentar constantemente o número de tropas enviadas ao Vietnã e a razão de ser tão importante, no contexto da Guerra Fria, impedir que os comunistas tomassem outro país.

Johnson serviu no Senado durante a campanha do senador Joseph McCarthy nos anos 1950. Ele lembrava vividamente como McCarthy e seus colegas caçadores de comunistas acusaram os democratas de perderem a China para as legiões de Mao Tsé-tung e de serem condescendentes com o comunismo.

Ele não queria ver isso se repetir.

Enquanto isso, as manifestações contra a guerra passaram a mobilizar um campus universitário atrás do outro até chegarem às ruas das cidades.

Finalmente, em março de 1968, Johnson confessou que não podia unir os Estados Unidos e portanto estava se retirando da disputa para sua reeleição. Ele também suspendeu o bombardeio ao Vietnã em um esforço bem-sucedido para estimular o avanço das negociações de paz.

Bush tem uma vantagem que Johnson não teve. O ataque de 11 de setembro aos Estados Unidos convenceu a grande maioria da população que os Estados Unidos tinham de lutar. Nenhum incidente dramático conquistou o apoio da população à Guerra do Vietnã.

Mas Bush pode aprender uma lição fundamental com a perda da confiança de Johnson: a melhor maneira de manter o apoio da população é ser franco com ela enquanto continuar a guerra contra o terrorismo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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