Membros do Taleban e da Al Qaeda detidos considerarão Guantánamo ameaçadora

Eric Rosenberg

WASHINGTON - Quando os calejados membros do Taleban e da Al Qaeda prisioneiros das tropas americanas chegarem nas prisões de segurança máxima, atualmente em construção na Base Naval de Guantánamo em Cuba, eles estarão entrando em uma anomalia internacional: a única instalação militar americana localizada em um país comunista.

Tal distinção tinha uma maior ressonância durante a Guerra Fria. Todavia, o posto avançado -que data de 1898, quando foi tomado pelos fuzileiros navais americanos durante a Guerra Hispano-Americana- tem sido uma afronta perpétua para o ditador cubano Fidel Castro.

De certa forma, "Puerto Grande" como Cristóvão Colombo a chamou durante uma estadia de uma noite em 1494, é um local ideal para prisioneiros.

Primeiro há um ambiente ameaçador. Forças hostis, arame laminado e minas terrestres cercam a base em três de seus lados, com o Mar do Caribe no outro. O acesso é estritamente controlado e não há entrada para Cuba, exceto para um punhado de cubanos que trabalham na base.

Segundo, o pessoal da base já tem uma experiência extensiva em lidar com detentos. Em meados dos anos 1990, cerca de 50 mil "boat people" (balseiros) cubanos e haitianos ficaram abrigados lá, apesar de não terem sido tratados como prisioneiros, como ocorrerá no caso dos membros do Taleban e da Al Qaeda.

As tropas americanas no Afeganistão estão detendo mais de 270 prisioneiros, muitos dos quais serão enviados na próxima semana para a base de Cuba, disse o general do Exército, Tommy Franks, chefe do Comando Central dos Estados Unidos, que está comandando as operações militares no Afeganistão. Em um uso sem precedentes da base, Guantánamo servirá como detenção para prisioneiros que poderão enfrentar julgamento em um tribunal militar.

O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, caracterizou os detidos que serão enviados para Guantánamo como "na maioria dos casos muito sérios". Ele disse que os militares americanos estavam tomando precauções extraordinárias de segurança.

"Nós planejamos transportá-los e nós planejamos empregar a coerção necessária para que estes indivíduos não matem americanos no transporte ou em Guantánamo", disse ele.

Se Guantánamo fosse localizada em um país aliado, o Pentágono enviaria os prisioneiros de guerra apenas após buscar a aprovação da nação "anfitriã".

Mas este não é o caso de Cuba. Washington não reconhece o governo de Fidel Castro e mantém um embargo comercial de 40 anos ao país. "Nós não prevemos problemas com Castro neste sentido", destacou Rumsfeld ironicamente quanto a objeções que Castro possa ter.

Após se reunir com Castro por seis horas na quinta-feira, o senador Arlen Specter, republicano da Pensilvânia, disse que o líder "não faz objeções" ao uso da instalação para prisioneiros.

Castro tem demonstrado constantemente que se ressente da presença americana nos 116 quilômetros quadrados do canto sudeste de Cuba desde que chegou ao poder em 1959, e regularmente reclama contra os cerca de 3 mil militares americanos que servem lá.

Em 1962, Castro chamou a base de "uma adaga no coração da pátria cubana". Em 1964, três anos após a fracassada tentativa de invasão apoiada pelos Estados Unidos na Baía dos Porcos, Castro cortou os serviços de água, luz e telefone para a base. (A base agora utiliza um equipamento de dessalinização para obter água fresca e suprimentos são enviados regularmente por navios.) Em 2000, Castro disse que continuaria "lutando pela devolução do território ocupado ilegalmente em nosso país".

Tecnicamente falando, a propriedade não está ocupada ilegalmente. Os Estados Unidos arrendam a base de Cuba segundo os termos de um acordo de prazo ilimitado assinado em 1903. Em 1934, o presidente Franklin Roosevelt e o governo pré-revolucionário cubano formalizaram o arrendamento em um tratado. Washington envia cheques anuais de aluguel no valor de cerca de US$ 4 mil (R$ 9.320) para Havana que nunca são descontados. O arrendamento só pode ser anulado se os Estados Unidos abandonarem a base ou por um acordo mútuo entre Washington e Havana.

Em 10 de junho de 1898, os fuzileiros navais tomaram o território, a cerca de 1000 quilômetros da costa da Flórida, em uma batalha contra as forças espanholas, por causa de sua localização estratégica e porto natural. Eles foram os primeiros soldados americanos a desembarcar em Cuba na Guerra Hispano-Americana. No dia seguinte, soldados espanhóis mataram dois dos fuzileiros navais, as primeiras baixas americanas no conflito.

O presidente Theodore Roosevelt chamou a base de posição estratégica chave no Caribe por causa de sua proximidade do Canal do Panamá, uma visão que permanece até hoje. As principais missões da base incluem o reabastecimento de navios da Marinha e da Guarda Costeira, e o fornecimento de apoio logístico às embarcações de operações de combate ao narcotráfico.

Tradução: George El Khouri Andolfato Prisão

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