Ameaças de guerra entre Índia e Paquistão visam conquistar apoio dos EUA

Stewart M. Powell

Washington, EUA -- A Índia e o Paquistão vêm aumentando os preparativos de guerra para pressionar os EUA a tomar partido em sua disputa sangrenta pela província de Caxemira. Essa é a opinião de dois especialistas ouvidos pelo Hearst.

Stephen Cohen, especialista em segurança do sul da Ásia do Instituto Brookings, e Joseph Fromm, analista de estratégias afiliado ao Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres, ofereceram suas análises e advertiram que o malabarismo político pelos rivais nucleares poderia iniciar uma guerra a qualquer hora.

O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, deverá proferir discurso há muito esperado no sábado, no qual descreverá os próximos passos do país no combate ao terrorismo. Terroristas com base no Paquistão atacaram alvos na Índia para forçar o país a entregar o controle do território da Caxemira.

Às vésperas do discurso de Musharraf, foi travada uma guerra verbal no sul da Ásia, onde dezenas de milhares de tropas alinharam-se pela fronteira de 1800 km entre os dois países.

O chefe do exército, general Sunderajan Padmanabhan, vangloriou-se que sua nação de 1 bilhão de pessoas, predominantemente hinduísta, estava "totalmente preparada" para a guerra, acrescentando: "A situação entre a Índia e o Paquistão na fronteira pode ser chamada de séria".

Padmanabhan finalizou: "Se entrarmos em guerra, ótimo".

O general paquistanês Rashid Quereshi condenou a escalada militar indiana das duas últimas semanas, dizendo que estava "causando atrito entre os dois países".

O coronel aposentado do exército Terence Taylor, diretor assistente do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, disse que as tensões estavam tão fortes entre a Índia e o Paquistão que "bastaria outro ataque terrorista de grandes proporções -não planejado ou promovido pelos paquistaneses, mas por atores independentes- para provocar os indianos"

Cohen disse que a Índia e o Paquistão estavam usando manipulações militares para atrair os EUA para sua eterna disputa. A mobilização militar indiana e a possibilidade de tropas indianas executando caças a terroristas com base no Paquistão forçaram o governo Bush a pressionar o regime paquistanês a agir contra os terroristas, disse Cohen, ex-funcionário do Departamento de Estado no governo Reagan.

Os preparativos de guerra no Paquistão, que reclamou duas das quatro bases aéreas que estavam sendo utilizadas pelas forças americanas para operações no Afeganistão, forçaram o governo Bush a pressionar a Índia a recuar do confronto.

"Índia e Paquistão exploraram as preocupações americanas com o terrorismo, fazendo com que Washington se tornasse um joguete em sua rivalidade", disse Cohen em uma coluna de opinião, publicada na sexta-feira, no "Los Angeles Times". "Os EUA tiveram que deixar claro para ambos os países que isso precisava parar".

Cohen acrescentou em entrevista telefônica: "Temos que decidir se devemos estar no sul da Ásia. Se decidirmos ficar como parte da equação, precisamos de envolvimento diplomático de longo prazo para estabelecer um processo de paz".

Fromm, que serviu com o Exército Britânico Indiano na Segunda Guerra Mundial, disse que tanto a Índia quanto o Paquistão tentaram assustar o governo Bush, para que saísse em sua defesa na disputa pela Caxemira. Ambas as nações reclamam o Estado desde 1947, quando príncipe hindu da Caxemira decidiu afiliar seu principado, predominantemente muçulmano, com a Índia predominantemente hindu, depois que o Reino Unido admitiu a independência da Índia e do Paquistão.

"Os indianos estão jogando um jogo de pôquer muito arriscado com sua movimentação militar", disse Fromm. "Os indianos estão comparando seus esforços contra os terroristas muçulmanos na disputa pela Caxemira com a campanha americana contra a Al Qaeda". Fromm acrescentou que tanto a Índia quanto o Paquistão estão manobrando para conseguir apoio dos EUA "para forçar algum compromisso ou concessões na verdadeira questão que lhes concerne "o futuro da Caxemira".

O secretário de defesa Donald Rumsfeld disse na sexta-feira que autoridades americanas e paquistanesas terão acesso conjunto às duas bases aéreas que estão sendo usadas atualmente por forças paquistanesas como parte de sua mobilização contra a Índia.

"Discutimos essas coisas e damos um jeito", disse Rumsfeld.

O chefe da defesa acrescentou que os EUA também vêm conversando com as autoridades no Paquistão sobre o acesso dos EUA ao espaço aéreo do Paquistão, no evento de uma guerra contra a Índia.

O secretário de estado Colin Powell sairá em missão na terça-feira, para reduzir o impasse Índia-Paquistão, com visitas às duas capitais, a caminho de uma conferência em Tóquio para mapear a ajuda internacional para reconstrução do Afeganistão.

O presidente Bush expressou preocupação com a escalada das tensões, na medida em que poderia complicar a campanha americana contra o terrorismo no Afeganistão, que depende extensivamente do acesso americano a bases militares no Paquistão. O secretário de imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que Bush espera que ambas as nações se concentrem na guerra contra o terrorismo. "Índia e Paquistão têm um inimigo comum, que é o terrorismo "e não um ao outro", disse Fleischer.

Índia mobilizou boa parte de suas forças armadas, de 1,3 milhão de homens, e fez ameaças de exercícios militares próximos à fronteira com o Paquistão, em resposta a um ataque suicida de 13 de dezembro ao Parlamento Indiano em Nova Déli, que matou 14 pessoas "inclusive os cinco militantes ditos muçulmanos paquistaneses que executaram o ataque.

O governo da Índia acusou a agência de inteligência paquistanesa de patrocinar o ataque mortífero como parte de esforços dos militantes muçulmanos do Paquistão para expulsar a Índia da Caxemira. A Índia comparou sua campanha com o ataque americano contra os terroristas muçulmanos estrangeiros no Afeganistão.

O governo do Paquistão negou cumplicidade no ataque suicida a Nova Deli no mês passado. O Paquistão também tomou uma série de medidas, inclusive a prisão de cerca de 300 militantes muçulmanos, como parte de uma batida contra os radicais que vêm travando uma guerra terrorista contra alvos indianos, para forçar a Índia a desistir do controle da Caxemira.

Tradução: Deborah Weinberg

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