Caso da bomba no sapato intriga investigadores

Dan Freedman

WASHINGTON -- A suposta tentativa de Richard Reid derrubar um avião da American Airlines no mês passado deixou intrigados os especialistas em bombas e as autoridades: ele era um terrorista sofisticado, um amador desastrado ou algo entre os dois? Reid está preso em Plymouth, Massachusetts, acusado de interferir com uma tripulação de avião.

Em 22 de dezembro, os comissários e os passageiros a bordo do vôo 63 da American Airlines de Paris para Miami imobilizaram o britânico de 1,90 metro depois que ele tentou acender um pavio ligado a explosivos na sola de seus tênis de sola oca. Depois do incidente o piloto pousou o avião em segurança em Boston, com Reid sedado por um médico e vigiado por outros passageiros.

O FBI está investigando as possíveis conexões de Reid com grupos terroristas.

Cientistas do FBI determinaram que a bomba no sapato era composta de triperóxido de triacetona (TATP) e tetranitrato de pentaerythritol (PETN), substâncias freqüentemente utilizadas por grupos terroristas. O PETN é um ingrediente ativo do Semtex, o explosivo plástico produzido na Tchecoslováquia que terroristas líbios usaram para explodir o vôo 103 da Pan Am sobre Lockerbie, Escócia, em 1988. O TATP foi detectado na explosão a bomba em 1994 dentro de um vôo da Philippine Airlines de Manila para Tóquio.

A presença desses explosivos misturados mostra um certo nível de sofisticação e experiência, dizem autoridades e especialistas. Reid, que não tinha um endereço regular nem emprego fixo, parecia incapaz de montar esse dispositivo sozinho e provavelmente fazia parte de algum tipo de grupo terrorista, eles acrescentaram.

Mas outros especialistas e autoridades indicam que a bomba no sapato de Reid não possuía um dispositivo elétrico sofisticado para detonar, levantando a questão de por que ele usaria um fósforo em vez de um detonador movido a bateria ligado a um relógio -o método preferido dos terroristas experientes.

Os que examinam o sistema de simples ignição especulam que embora Reid possa ter recebido ajuda, esta não teria vindo dos escalões superiores de grupos terroristas experientes.

"Parece que [Reid] não tinha o mesmo grau de apoio financeiro e de experiência que os que fizeram isso com sucesso", disse Pat Shea, chefe de operações da Ancore Inc. de Santa Clara, Califórnia, que fabrica equipamentos detectores de bombas principalmente para órgãos do governo. "Está claro que os terroristas de 11 de setembro levaram anos se preparando e tiveram apoio monetário suficiente. Não parece que esse sujeito tivesse o mesmo grau de apoio logístico." O dispositivo no sapato de Reid contrasta marcadamente com as bombas usadas em atentados anteriores contra aviões.

Das quatro maiores explosões de bombas em vôos nos últimos 20 anos, todas envolviam detonadores movidos a bateria e acionados por relógios. São eles:

Um vôo ao redor do mundo da Pan Am em 1982. Um terrorista pró-Palestina colocou a bomba no avião depois de embarcar em Hong Kong, regulando-a para explodir depois que ele deixasse o avião, em Tóquio. A explosão matou um jovem japonês, mas o avião conseguiu pousar em segurança em Honolulu.

Vôo 840 da TWA de Roma para Atenas em 1976. Depois da explosão de uma bomba, o avião pousou em segurança, mas quatro americanos morreram ao ser sugados através de um buraco na fuselagem. O FBI deteve terroristas pró-Palestina que levaram para o avião uma bomba de meio quilo com detonador e relógio.

Vôo 103 da Pan Am, que explodiu em 1988 sobre Lockerbie, Escócia, matando 270 pessoas. Os investigadores encontraram vestígios do explosivo Semtex dentro de um rádio-cassete que estava em uma mala. Um relógio feito na Suíça detonou o explosivo.

Vôo 434 da Philippine Airlines, de Manila para Tóquio. Uma bomba escondida embaixo de um assento explodiu, matando um passageiro. Ramzi Ahmed Yousef, condenado por planejar o atentado ao World Trade Center em 1993, colocou a bomba sob a cadeira antes de deixar o avião numa escala.

Mas outros dizem que a falta de um detonador elétrico pode representar apenas um recurso para escapar à segurança reforçada nos aeroportos, que poderia detectar as baterias e um relógio.

Quando os passageiros e a tripulação saltaram sobre Reid, ele estaria tentando usar um fósforo para acender um cordão do sapato que tinha sido transformado em pavio e ia até os explosivos na sola.

Esses pavio "passaria por uma verificação de segurança porque não tem partes metálicas", disse Christopher Ronay, ex-chefe da unidade de explosivos do FBI e hoje presidente do Instituto de Fabricantes de Explosivos, em Washington. "A sofisticação pode ter sido sacrificada por motivos de segurança." O TATP é altamente instável e poderia ser detonado simplesmente por Reid bater o pé, dizem especialistas. O PETN é menos volátil, mas capaz de causar danos muito mais sérios que o TATP.

O dispositivo de Reid aparentemente teria permitido que o TATP agisse como um acelerador para o PETN, maximizando o potencial destrutivo da bomba, dizem especialistas.

Esse dispositivo "me parece muito sofisticado", disse Neil Livingstone, autor e consultor de empresas sobre terrorismo. "É difícil pessoas comuns encontrarem explosivos plásticos. Esse fato por si só sugere que Reid teve acesso a pessoas bastante sofisticadas."

Filho de mãe britânica e pai jamaicano, Reid se converteu ao islamismo na prisão. Ele se tornou cada vez mais entusiasmado pela militância islâmica e a guerra santa "jihad" numa mesquita de Londres que freqüentou, disse o diretor da mesquita.

Também freqüentava esse templo Zacarias Moussaoui, que hoje enfrenta acusações federais de conspiração com os seqüestradores nos atentados de 11 de setembro ao World Trade Center e ao Pentágono. Os jornais britânicos relataram que a inteligência britânica interceptou ligações telefônicas entre Moussaoui e Reid em 2000.

Reid viajou por Israel, Egito, Holanda e Bélgica antes de embarcar em Paris no vôo para Miami, segundo reportagens. Ele poderia ser um soldado de uma célula de nível inferior da al-Qaeda, a rede de Osama Bin Laden. Este tem dado autonomia a essas células para planejar ataques terroristas, segundo fontes da inteligência dos Estados Unidos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Terror

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