Ashcroft diz que terrorista do sapato-bomba foi treinado pela Al Qaeda

Stewart M. Powell

WASHINGTON - O terrorista do sapato-bomba, Richard Reid, foi indiciado na quarta-feira por tentativa de ataque suicida a um avião de passageiros com 197 pessoas, que cruzava o Atlântico no período natalino, o tornando a primeira pessoa acusada de um ataque posterior aos de 11 de setembro.

O secretário de Justiça, John Ashcroft, disse que o indiciamento criminal por nove contravenções decidido por um júri federal em Boston "nos alerta para a ameaça clara, inconfundível, de que a Al Qaeda pode atacar os Estados Unidos novamente".

Reid, 28 anos, foi dominado pela tripulação e alguns dos 183 passageiros a bordo do vôo da American Airlines, que ia de Paris para Miami em 22 de dezembro, após um militante muçulmano nascido em Londres ter tentado ativar um explosivo escondido na sola do seu tênis. O avião fez um pouso não programado em Boston, onde Reid foi preso.

Reid tentou embarcar no mesmo vôo no dia anterior, 21 de dezembro -o 13º aniversário do atentado terrorista ao vôo 103 da Pan Am sobre a Escócia em 1988, que matou 270 pessoas no avião e no solo. Mas a segurança do aeroporto francês o deteve e interrogou Reid tão extensivamente que ele perdeu o vôo, tomando o mesmo no dia seguinte.

Ashcroft disse que Reid pode receber cinco penas de prisão perpétua caso seja considerado culpado das acusações, que incluem a tentativa de uso de arma de destruição em massa; tentativa de homicídio de cidadãos americanos no exterior; tentativa de assassinato de passageiros aéreos; e colocação de um explosivo a bordo de uma aeronave.

Reid permanece preso sem direito a fiança em Plymouth, Massachusetts. Reid freqüentava a mesma mesquita no sul de Londres que Zacarias Moussaoui, cidadão francês nascido em Marrocos que foi indiciado por conspiração e terrorismo na Corte Distrital Federal em Alexandria, Virgínia, por envolvimento nos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center a ao Pentágono.

Ashcroft disse que o suposto esforço de Reid para ativar um explosivo no avião em pleno ar ressalta o quanto os americanos "devem se manter vigilantes", porque "nós devemos presumir" que os terroristas treinados pela Al Qaeda podem atacar os Estados Unidos a qualquer momento. Ashcroft saudou a vigilância dos cidadãos, dizendo que o indiciamento de Reid acentuou valor dos três alertas nacionais contra o terrorismo emitidos pelo governo desde 11 de setembro -incluindo um em 3 de dezembro- 19 dias antes da suposta tentativa de destruir o vôo transatlântico.

Ashcroft apresentou as linhas gerais do caso contra Reid em uma coletiva de imprensa no Departamento de Justiça, logo após ter prometido combater os esforços dos advogados de defesa para persuadir a Corte Distrital Federal em Alexandria, Virgínia, a excluir uma confissão feita em campo de batalha por John Walker, o taleban americano capturado.

A confissão é um dos elementos chaves do caso do Departamento de Justiça contra o californiano de 20 anos, que poderá receber uma pena de prisão perpétua caso seja julgado e condenado em todos os quatro indiciamentos apresentados por Ashcroft na terça-feira.

Walker, que se converteu ao Islã aos 16 anos e foi para o Iêmen e para o Paquistão, viajou para o Afeganistão em junho passado para sete semanas de treinamento em um campo de terroristas da Al Qaeda antes de seguir para as linhas de frente.

Ele foi colocado sob custódia dos Estados Unidos em 1º de dezembro, após a repressão por parte da Aliança do Norte de uma rebelião na prisão, promovida por soldados capturados da Al Qaeda e do Taleban no norte do Afeganistão.

Walker abriu mão da lei Miranda para um advogado "por volta de 9 ou 10 de dezembro" e forneceu extensas informações para as autoridades americanas, segundo um declaração juramentada apresentada pela agente especial do FBI, Anne E. Asbury, em apoio a quatro das acusações apresentadas contra Walker na terça-feira.

Walker estava no Campo Rhino dos marines perto de Kandahar no momento em que abriu mão dos seus direitos da lei Miranda , de onde foi transferido posteriormente para o USS Peleliu e para o USS Bataan no Mar da Arábia. Ashcroft disse que Walker poderá ser enviado para os Estados Unidos a qualquer momento.

"Nós obviamente estamos satisfeitos em ter a confissão dele", disse Ashcroft para o programa "Today" da rede de televisão NBC. "John Walker Lindh optou por cooperar com as autoridades ao fazer declarações após ter sido claramente informado sobre seus direitos".

Ashcroft defendeu a decisão do governo Bush de negar a Walker o acesso direto ao advogado James Brosnahan, que foi contratado no início de dezembro pelos pais dele, que moram na área da Baía de São Francisco. Suspeitos adultos "têm o direito de decidir se querem ou não um advogado e suas famílias não têm o direito de escolherem advogados para eles", disse Ashcroft no programa "Early Show" da rede de televisão CBS.

O advogado George C. Harris, um sócio de Brosnahan em São Francisco, disse que a suposta confissão de Walker surgiu durante "45 dias de interrogatório sob custódia dos Estados Unidos, enquanto Walker era "representado por um advogado contratado pelos pais dele".

Harris acrescentou em uma declaração: "Apesar das repetidas tentativas de família dele e do advogado dele de vê-lo, John não recebeu autorização para ter acesso ao advogado".

Scott Silliman, um oficial legal de carreira aposentado da Força Aérea que leciona da escola de Direito da Universidade Duke, disse que a equipe de defesa de Walker "fará uma festa com sua alegação de negação de aconselhamento".

Os advogados de Walker argumentarão que o jovem "não podia distinguir" entre ser obrigado a responder as perguntas apresentadas por oficiais militares americanos durante os interrogatórios da inteligência em 1º de dezembro e 9 de dezembro, e posteriormente "ter o direito de se recusar a responder e ter um advogado presente no interrogatório do FBI", disse Silliman.

As declarações de Walker ao FBI "devem ser mostradas como tendo sido voluntárias e feitas conscientemente para poderem ser admissíveis como evidência", disse Silliman. "Esta será uma batalha difícil para o governo".

Eugene R. Fidell, um advogado que atua como presidente do Instituto Nacional de Justiça Militar em Washington, D.C., disse que a confissão de Walker será o ponto crucial de seu julgamento.

"Sua confissão terá grande peso pelo simples fato de que outras testemunhas estão mortas, ou escondidas nas montanhas do Afeganistão ou sob custódia americana e não dispostas a cooperar conosco", disse Fidell. "Isto torna ainda mais importante para o governo a apresentação de uma evidência que tenha saído da boca do próprio Walker".

Roy Black, um advogado de defendeu com sucesso William Kennedy Smith de uma acusação de estupro na Flórida, disse que "se a confissão for aceita (com evidência), então é claro que Walker terá dificuldades. Eu acho que ele terá que pleitear ofensas menores".

Tradução: George El Khouri Andolfato Terror

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