Líder afegão se encontrará com Bush para pedir continuidade da intervenção americana

Dan Freedman

WASHINGTON - Tendo obtido dos Estados Unidos a promessa de uma ajuda de US$ 297 milhões (R$ 716 milhões), o líder interino do Afeganistão, Hamid Karzai, chega nesta segunda-feira (28) a Casa Branca buscando a continuação da presença militar norte-americana na sua nação devastada pela guerra - um pedido que o presidente Bush não parece estar ansioso a atender.

Durante a sua visita de dois dias, Karzai vai se reunir com Bush, o vice-presidente Cheney, o secretário de Estado Colin Powell, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld e líderes da Câmara e do Senado. Ele deve dar uma palestra no National Press Club, em Washington, na terça-feira.

Karzai, de 44 anos, é um visitante freqüente dos Estados Unidos, possuindo muitas conexões familiares no país. Os seus quatro irmãos e uma irmã moram nos Estados Unidos. Dois dos seus irmãos são donos de uma rede de cinco restaurantes, localizados em São Francisco, Boston e Baltimore.

Karzai poderá ser um convidado de honra na galeria do Congresso, na terça-feira à noite, quando Bush fará o seu discurso anual ao Legislativo norte-americano.

Karzai fala bem o inglês coloquial, e a sua indumentária característica, na qual sobressaem o chapan e o qaraqul (um xale e um chapéu de pele de carneiro, respectivamente) afegãos fazem com que ele se destaque em meio a uma multidão ocidental.

Mas para além do terreno das gentilezas diplomáticas, um debate sério está sendo travado sobre o papel dos Estados Unidos no novo Afeganistão.

Temeroso do potencial para lutas étnicas que poderiam dividir o país, Karzai procura obter de Washington o compromisso de que as forças dos Estados Unidos vão participar de alguma maneira na tarefa de manutenção da paz.

"Ele viu o que aconteceu após a saída dos soviéticos, em 1989, e tem todos os motivos para temer que algo de semelhante volte a ocorrer", diz o deputado Maurice Hinchey, democrata de Nova York, membro da delegação congressual que se encontrou com Karzai em Cabul no início deste mês.

Hinchey se refere à guerra civil que eclodiu entre facções étnicas e religiosas após os guerrilheiros mujahedins, apoiados pela CIA, terem expulsado as unidades militares russas do país, após dez anos de intervenção. Os Estados Unidos e outras nações ocidentais perderam o interesse pelo Afeganistão após a retirada dos soviéticos, abrindo espaço para que o Taleban chegasse ao poder em 1996.

"Se elementos menos estáveis das facções tribais tiverem permissão para lutar entre si, a preocupação de Karzai é que o Afeganistão possa retornar ao estado de caos", afirma Hinchey. "E isso deve ser uma preocupação de todos nós."

A administração Bush não disse qual será o papel (se é que haverá algum) das forças armadas dos Estados Unidos no Afeganistão, assim que os elementos remanescentes do Taleban e da rede Al Qaeda, de Osama Bin Laden, forem neutralizadas.

Durante a eleição de 2000, Bush combateu com vigor aquilo que os republicanos chamavam de política de "construção de nações" de Clinton - a promoção da estabilidade por meio do envio de tropas norte-americanas a regiões problemáticas, como o Haiti e a Bósnia.

Um papel no processo de manutenção de paz "ainda está sendo discutido" na administração, segundo um funcionário do governo dos Estados Unidos que está envolvido com o planejamento da visita de Karzai. O funcionário pediu para não ser identificado.

"É bastante previsível que Karzai e Bush venham a falar sobre a continuidade da presença militar dos Estados Unidos na região", disse o funcionário.

Atualmente há cerca de 4 mil soldados membros da força de paz, liderados pelo Reino Unido, no Afeganistão. Eles vão ficar no país, a princípio, até abril. Nenhum dos soldados dos Estados Unidos no Afeganistão participa dessa força.

Karzai e outros líderes afegãos expressaram temores de que, sem o envolvimento dos Estados Unidos, a força de paz possa não ser capaz de evitar a erupção de uma nova onda de violência étnica, especialmente entre a etnia dominante pashtun - sobre a qual o Taleban fundamentou o seu poder - e a bem armada Aliança do Norte, dominada pelos tajiques.

Os pashtuns perfazem cerca de 40% da população afegã, e os tajiques são o segundo maior grupo étnico do país, compondo cerca de 25% da população, segundo a CIA. Embora Karzai seja pashtun, os tajiques da Aliança do Norte controlam todos os principais ministérios que administram as funções vitais do país - o sistema bancário, a segurança nacional e as relações exteriores.

S. Frederick Starr, diretor do Departamento da Ásia Central e do Cáucaso da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, afirma que, sem uma força de paz adequada, os pashtuns cedo ou tarde poderão se revoltar ou ser "marginalizados" pela Aliança do Norte, dominada pelos tajiques.

"É um momento muito difícil", afirma Starr. "O perigo é que eles acordem e descubram que foram colocados em segundo plano. E aí não serão só os pashtuns a se rebelar, mas também os paquistaneses."

O Paquistão, que apoiou o Taleban até os ataques de 11 de setembro, é um inimigo antigo da Aliança do Norte, dominada pelos tajiques.

Karzai acredita que a presença norte-americana é necessária para ajudar a dissuadir os elementos fomentadores de conflito e a unificar a nação, segundo Thomas Gouttierre, diretor do Centro de Estudos do Afeganistão da Universidade de Nebraska, que conhece Karzai desde a década de 80.

"Creio que ele acredita que, caso os Estados Unidos não sejam parceiros do Afeganistão, a unificação do país não poderá ser alcançada",diz Gouttierre.

No início deste mês Karzai conseguiu a promessa de mais de 60 países e organizações internacionais, tais como o Banco Mundial, no sentido de obter US$ 4,5 bilhões (R$ 10,9 bilhões) em ajuda para a reconstrução do Afeganistão. Os Estados Unidos prometeram contribuir este ano com US$ 297 milhões (R$ 716 milhões). Um estudo conduzido pela Organização das Nações Unidas e pelo Banco Mundial afirma que serão necessários uma quantia de US$ 15 bilhões (R$ 36,16 bilhões) e um período de dez anos para reconstruir o Afeganistão.

De acordo com o deputado Jim Kolbe, republicano do Arizona, que é o chefe da delegação da Câmara, composta de seis membros, incluindo Hinchey, as prioridade de Karzai são:

- Garantir a estabilidade política.

- Criar uma força policial, a fim de prevenir a criminalidade, especialmente ao longo das estradas que ligam as principais cidades afegãs.

- Reconstruir as rodovias castigadas pela guerra, que, segundo Kolbe, possuem "buracos capazes de engolir um automóvel".

- Instalar uma infra-estrutura para a educação. Isso inclui a reabertura de escolas e a garantia de que meninas e mulheres, que não puderam receber educação durante o regime Taleban, possam freqüentar a escola.

"O presidente deve assegurar a Karzai que nós vamos nos envolver nesse processo", diz Kolbe. "Mas isso não significa necessariamente que precisaremos ter uma presença militar no país". Kolbe prevê que, com o paradeiro de Osama Bin Laden ainda desconhecido e as forças da Al Qaeda ainda na clandestinidade, "Vamos estar envolvidos militarmente no Afeganistão durante um bom tempo".

A missão de Karzai a Washington pode ser um pouco desgastada pela sua posição de líder temporário do poder no Afeganistão. Segundo um acordo entre as lideranças afegãs, obtido em dezembro, em Bonn, Karzai controlará o governo até que o rei Zahir Shah organize uma loya jirga, uma assembléia nacional, a fim de formar um novo governo e criar uma constituição.

"No momento é ele que representa o governo", diz Kolbe, chefe do subcomitê de apropriações da Câmara, o órgão encarregado de fiscalizar a ajuda externa. "Ele é muito carismático, mas creio que não vai desempenhar um papel na segunda 'fase de transição' do governo afegão", afirma.

Mas nem todos concordam com esse ponto de vista.

"Se os afegãos acabarem achando que Karzai tenha obtido sucesso em representar os seus interesses, haverá um clamor para que ele permaneça no cargo", diz Gouttierre. "É do interesse dos afegãos e dos Estados Unidos que Hamid Karzai tenha sucesso, já que não conhecemos muita gente que possua uma capacidade tão universal para a liderança."

Tradução: Danilo Fonseca

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