Bush assume individualmente a sua "cruzada contra o mal"

ROBERT E. THOMPSON

HEARST NEWSPAPERS



WASHINGTON - Em um país cuja população admira líderes fortes que tomam decisões ousadas, o presidente Bush decidiu astuciosamente personalizar o seu mandato, chegando ao ponto de procurar fazer de sua pessoa o símbolo vivo dos Estados Unidos em Guerra.

Dirigindo-se à nação e ao mundo no seu discurso do Estado da União na semana passada, Bush declarou: "Não vou ficar esperando pelos eventos enquanto os perigos se acumulam. Não vou ficar parado enquanto as ameaças ficam cada vez mais próximas. Os Estados Unidos da América não vão permitir que os regimes mais perigosos do mundo nos ameacem com as armas mais destruidoras do planeta".

Essas palavras de desafio e determinação, dirigidas a "um eixo do mal" - em uma referência ao Iraque, Irã e Coréia do Norte - lhe rendeu uma salva de palmas dos membros do congresso, que aplaudiram o presidente de pé. A palavra "eixo" lembra a Segunda Guerra Mundial, descrevendo a aliança entre os inimigos dos Estados Unidos: a Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão imperial.

Ao utilizar o pronome pessoal, "eu", para enfatizar a sua determinação em vencer a guerra contra o terrorismo, Bush não deixou dúvidas sobre quem está no comando.

A sua posição desafiadora e auto-confiante lembra aquela adotada por duas importantes personalidades de comando da Segunda Guerra Mundial: o general Douglas MacArthur e o general francês Charles de Gaulle.

Enquanto deixava as sitiadas Filipinas em 1942 para assumir o comando das forças do Exército na guerra contra os invasores japoneses, MacArthur disse a sua frase mais memorável: "Eu voltarei". Não foi "nós voltaremos" ou "os Estados Unidos voltarão". O pronome utilizado foi o "eu".

E ele realmente retornou em 1944, como comandante do exército que ajudou a expulsar os japoneses das Filipinas. Neste mesmo período, De Gaulle era o chefe das forças da França Livre que se opunham à ocupação nazista na França. Após a guerra, ele lutou pelas reformas no governo, se opôs ao comunismo e mais tarde foi presidente da república. Ele via a si próprio como a encarnação humana de uma França que recuperava a glória do passado.

Bush nunca comandou uma força militar. Mas ele deixou claro na noite da última terça-feira que está preparado para caçar terroristas no Iraque, no Irã, na Coréia do Norte, na Bósnia-Herzegovina e na Somália.

Prevendo uma longa campanha, o presidente disse, "A nossa guerra contra o terror já foi iniciada, mas ela apenas começou".

Bush disse ainda que um dos objetivos do seu governo é "evitar que regimes que apóiem o terrorismo ameacem os Estados Unidos ou os nossos amigos e aliados com armas de destruição em massa".

Dirigindo-se às três nações designadas por ele como membros do "eixo do mal", Bush declarou que a Coréia do Norte "está se armando com mísseis e armas de destruição em massa, enquanto mata os seus cidadãos de fome".


Quanto ao Irã, Bush disse que esse país "busca agressivamente conseguir tais armas e exporta o terror, enquanto uns poucos governantes não eleitos reprimem a esperança do povo iraniano por liberdade".

Já o Iraque, segundo Bush, cujo pai liderou a guerra de 1991 para repelir a invasão do Kweit por Saddam Hussein, "está tramando há mais de uma década maneiras de produzir antraz, gás nervoso e armas nucleares".

Assim como o pai, Bush possui uma visão de mundo que é bem mais ampla do que aquela dos isolacionistas que em determinada época controlavam o Partido Republicano.

"Os Estados Unidos não estão mais protegidos por extensos oceanos", disse ele. "Nós só estamos protegidos de ataques pela vigorosa ação no exterior e por uma crescente vigilância em nosso território".

Até o momento, Bush tem mostrado ser um presidente forte e cheio de recursos em tempos de guerra. Os ataques de 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono foram eventos horrendos. Mas eles foram também o fator de definição da presidência de Bush.

Tradução: Danilo Fonseca Política

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