Novas pesquisas com a maconha começarão em março

DAVID EGGERT

HEARST NEWSPAPERS


WASHINGTON - No próximo mês, pesquisadores vão dar início ao primeiro estudo desde a década de 80 sobre os alegados benefícios médicos da maconha, em uma indicação de que a longa polêmica sobre os méritos da droga poderá ser encerrada nos hospitais e nos laboratórios, em vez de nos tribunais e no Congresso.

Cientistas do Centro de Pesquisas Médicas sobre a Cannabis, da Universidade da Califórnia, realizarão testes para determinar se fumar maconha pode ajudar os pacientes infectados com o HIV e aqueles que sofrem de esclerose múltipla, aliviando a dor ou amenizando a náusea.

O centro está financiando os experimentos como parte de um programa de três anos, no valor de US$ 9 milhões (R$ 21,84 milhões), instituído pela Assembléia Legislativa da Califórnia. Os pesquisadores trabalham nos campus da Universidade da Califórinia, em San Diego, e em São Francisco.

O governo federal - que aprovou os testes clínicos - está fornecendo os cigarros de maconha. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas controla a única fonte legal de maconha nos Estados Unidos, uma plantação cultivada na Universidade do Mississipi, em Oxford, Missouri.

De acordo com alguns defensores da maconha, o estudo a ser realizado na Califórnia reflete uma nova consciência nos círculos federais quanto ao fato de as pesquisas serem capazes de fornecer respostas sobre a questão, em um momento em que oito Estados legalizaram o uso médico da droga, embora a lei federal continue a determinar que portar ou comprar maconha seja um crime.

Uma pesquisa feita em março de 2001 pelo Pew Research Center demonstrou que 73% dos norte-americanos acreditam que os médicos deveriam poder prescrever a maconha aos seus pacientes.

A liberalização das leis sobre a maconha em alguns Estados e as pesquisas feitas na Inglaterra e no Canadá foram fatores que pressionaram agências como a Administração de Alimentos e Remédios (FDA) e a Agência de Aplicação das Leis Anti-Drogas (DEA) a aprovarem mais pesquisas, de acordo com Keith Stroup, diretor-executivo da Organização Nacional pela Reforma das Leis sobre a Maconha (NORML).

"Eles estão encurralados", diz Stroup. "Toda vez que tentam um outro método, que termina fracassando, o governo federal passa uma imagem de tolice para o público".

Durante anos, alguns pesquisadores e defensores da maconha acusaram o governo federal de se recusar a financiar estudos sobre a maconha por razões puramente políticas, sem nenhum critério científico.

As autoridades federais discordam e argumentam que a sua aprovação dos estudos a serem realizados na Califórnia foi consistente com as políticas adotadas no passado.

"Saber se a maconha possui alguma utilidade médica legítima é algo que deve ser determinado pela ciência e pela medicina", disse em novembro do ano passado Asa Hutchinson, administrador do DEA, observando que estudos feitos no passado não revelaram nenhum benefício de ordem médica advindo do consumo da maconha.

Mas os pesquisadores afirmam que a aprovação por parte do governo federal dos novos testes consiste em um rompimento significativo com a postura adotada no passado, já que os reguladores vinham rejeitando todas as propostas para pesquisa desde meados dos anos 80.

No final da década de 70 e início da de 80, departamentos estaduais de saúde realizaram estudos para determinar o efeito da maconha como droga contra a náusea em mais de mil pacientes. Mas todos esses programas foram encerrados em meados dos anos 80, quando o mantra da administração Reagan - "Diga não às Drogas" - dominou a política norte-americana de narcóticos.

O médico Donald Abrams, um pesquisador da Aids na Universidade da Califórnia em São Francisco, que vai realizar estudos sobre os efeitos da maconha em pacientes infectados com o HIV, disse que, nos últimos 15 anos, o governo federal estava interessado somente em pesquisar os efeitos danosos da maconha.

As pesquisas feitas pela universidade serão as primeiras a estudar especificamente se há benefícios médicos decorrentes do uso da maconha, diz Abrams.

"Atualmente, existe alguém pagando o custo desses estudos", afirma Abrams. "Se não fosse pelo Estado da Califórnia, não estou certo de que teríamos feito algum progresso nessa área".

O Centro para Pesquisas Medicinais com a Canabis, na Universidade da Califórnia em San Diego, foi criado pelo Estado como parte de um esforço para estabelecer diretrizes sobre o assunto, após a lei de 1996, votada pelos eleitores, que permitiu o uso médico da maconha. Essa lei isenta os pacientes da Califórnia de se sujeitarem às leis estaduais que regulamentam a possessão e o cultivo da maconha.

Os primeiros três estudos vão determinar se, quando fumada, a maconha é capaz de tratar os espasmos musculares, perda de função e dores relacionadas à doença nos pacientes que sofrem de esclerose múltipla, além de aliviar a neuropatia, uma severa dor nervosa comum nos pacientes infectados pelo HIV. Um outro estudo correlato vai procurar determinar os efeitos do uso repetido da maconha sobre a capacidade de os indivíduos dirigirem veículos.

Sete outras propostas do centro da Califórnia estão esperando a aprovação federal.

Os resultados dos novos estudos só serão conhecidos daqui a pelo menos dois anos.

Durante anos, os defensores da maconha se desentenderam com o governo federal a respeito da droga - um narcótico do Grupo 1, classificado na mesma categoria da cocaína e da heroína.

O ponto de vista do governo ganhou força no ano passado, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que o cultivo e a venda da maconha para fins médicos não estariam protegidos de processos criminais, segundo as leis federais anti-drogas. Embora a corte não tenha anulado diretamente as leis estaduais quanto ao uso médico da maconha, a determinação foi uma grande derrota para o movimento de defesa da utilização da substância para fins medicinais.

No segundo semestre do ano passado, a DEA realizou operações repressivas em clubes de cannabis na Califórnia, que forneciam maconha para pessoas enfermas e doentes terminais. Mas, ao mesmo tempo, a agência deu carta branca para a realização da nova pesquisa.

Hutchinson, o chefe do DEA, defende os estudos com base no fato de que a divergência entre a lei federal e as leis de vários Estados torna importante a realização das pesquisas.

Esses Estados são Alasca, Arizona, Califórnia, Colorado, Maine, Nevada, Oregon e Washington. Nesses Estados, um paciente que conte com a autorização de um médico pode usar a maconha, estando protegido contra processos estaduais penais. No entanto, segundo a lei federal, é ilegal que os médicos prescrevam a droga.

Os defensores da maconha medicinal querem que mais estados tomem essa iniciativa, esperando assim pressionar o Congresso para que altere a lei federal.

Há também um interesse renovado por mais pesquisas dentro dos círculos científicos.

Um relatório de 1999, feito pelo Instituto de Medicina, que faz parte da Academia Nacional de Ciências, solicitou que fossem feitos testes clínicos com a maconha para fins medicinais, e declarou que o THC - o componente ativo da maconha - seria útil para tratar a dor, a náusea e casos sérios de perda de peso.

No entanto, o estudo faz um alerta sobre os perigos associados ao ato de fumar, afirmando ter descoberto que a fumaça da maconha é ainda mais tóxica que a do tabaco. Os pesquisadores sugeriram que sejam desenvolvidos dispositivos como sprays e inaladores, capazes de fazer com que o usuário contasse como os benefícios da maconha, sem ter que enfrentar os problemas apresentados pela fumaça.

Os cientistas cujas propostas de pesquisa foram recusadas nos últimos 15 anos reclamam de que a FDA e a DEA concordaram com as novas pesquisas devido ao relatório do Instituto de Medicina.

"O que ocorre é que eles simplesmente não querem dar a impressão de que são realmente estúpidos", critica Denis Petro, neurologista de Arlington, Virginia.

Petro pesquisou os efeitos da maconha em pacientes de esclerose múltipla no final da década de 70 e início da de 80. Ele descobriu que o THC era eficaz no tratamento dos espasmos musculares associados a doenças crônicas.

Mas, ao pedir permissão para prosseguir com os estudos, Petro diz que foi proibido de continuar.

'Os políticos são totalmente contrários ao uso medicinal da maconha", afirma.

As autoridades federais e os grupos contrários à maconha dizem que outras drogas são tão efetivas quanto a maconha sem serem tão prejudiciais. Eles apontam para a versão sintética do THC, denominada Marinol, que foi elaborada na década de 80.

Teoricamente, uma pílula de Marinol e um baseado teriam o mesmo efeito, mas há quem alegue que as outras substâncias químicas presentes na maconha poderiam ser essenciais para os seus alegados efeitos benéficos.

Robert Maginnis, vice-presidente do conservador Conselho de Pesquisas para a Família, diz que tem "sérias reservas" quanto à maconha, citando os efeitos maléficos do ato de fumar.

Embora reconhecendo os problemas com o Marinol, Maginnis diz que uma companhia britânica está desenvolvendo alternativas mais seguras para o Marinol e a maconha, na forma de inaladores e sprays.

"Neste país nós não fumamos remédios", diz ele. "Isso é uma incongruência. Não se está levando em conta os melhores interesses das pessoas doentes. É algo como fornecer a uma pessoa sedenta a água de uma lagoa, ao invés de água mineral".



Tradução: Danilo Fonseca

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