Agências americanas de inteligência buscam filiais terroristas em todo o mundo

ERIC ROSENBERG
HEARST NEWSPAPER

WASHINGTON - A destruição da infra-estrutura e das instalações de treinamento da rede terrorista Al Qaeda no Afeganistão forçou a organização liderada por Osama bin Laden a modificar as suas táticas e a procurar formatar filiais terroristas menos organizadas por todo o mundo, segundo especialistas norte-americanos em terrorismo.

"Acreditamos que a liderança ficará mais descentralizada", disse um especialista militar, falando sob a condição de que o seu nome não fosse divulgado. "Trata-se de algo semelhante a uma espécie de 'sistema de franchise' terrorista'"

O especialista faz uma distinção entre, por um lado, a atuação das filiais terroristas e, por outro lado, os ataques metodicamente planejados do dia 11 de setembro, os atentados de 1998 a duas embaixadas dos Estados Unidos na África Oriental e o ataque ao destróier USS Cole, em um porto do Iêmen.

"Esses atos exigiram anos de planejamento, enquanto que algumas das operações realizadas pelas filiais do terror parecem ser obra de uma espécie de reação reflexa, segundo a qual os terroristas se apressam para fazer um ataque imediato a qualquer alvo", disse o especialista. "Este tipo de operação não é tão eficiente, competente ou grande quanto as outras".

Os especialistas em contra-terrorismo dos Estados Unidos suspeitam que a recente descoberta de duas tentativas de ataque, que foram abortadas, se enquadravam no novo sistema de "filiais" da Al Qaeda. Um deles envolvia o "homem do sapato-bomba", Richard Reid, que tentou explodir uma aeronave comercial norte-americana sobre o Oceano Atlântico, sendo, porém, dominado pelos passageiros e pela tripulação do avião. Reid, que é cidadão britânico, teria contatos com a Al Qaeda.

O outro caso diz respeito a uma série de ataques não consumados contra navios e soldados norte-americanos em Singapura. Os planos - que teriam sido obra de terroristas ligados à Al Qaeda - foram descobertos quando as forças norte-americanas encontraram material incriminador no Afeganistão.

Sem o planejamento centralizado e a administração de Bin Laden e dos seus assessores, a próxima onda de planos terroristas da Al Qaeda provavelmente se caracterizará por "agentes operacionais e elementos infiltrados no campo de ação que tomarão as suas próprias decisões a respeito de como querem atuar, e como desejam financiar as suas operações", disse o especialista em terrorismo.

As autoridades norte-americanas estão particularmente preocupadas com as intenções de dois agentes operacionais de filiais da Al Qaeda - Abdullah Ahmed Abdullah e Abdul Rahman - que são acusados de ter planejado os ataques às duas embaixadas norte-americanas, em Dar es Salaam, na Tanzânia, e em Nairóbi, no Quênia, que deixaram um saldo de 223 mortos.
Os dois homens estão foragidos e fazem parte da lista dos homens mais procurados pelo FBI. O governo dos Estados Unidos está oferecendo recompensas de até US$ 25 milhões pelos dois homens.

Segundo o FBI, o verdadeiro nome de Rahman seria Muhsin Musa Matwalli Atwah, e ele teria nascido no Egito, em 1964.

A agência afirma que Abdullah, um egípcio nascido em 1963, teria deixado Nairóbi após os ataques contra as embaixadas. Devido aos ataques ele foi indiciado em um tribunal federal do distrito de Nova York.

"Trata-se de dois indivíduos que possuem muita experiência sobre como planejar um ataque duplo bem orquestrado no mesmo dia", afirmou o especialista. "Não sabemos onde eles estão. Esses especialistas em ataques contra alvos norte-americanos estão soltos e esse fato representa, obviamente, um perigo muito grande".

Um outro fator que estimula o desenvolvimento do sistema de "franquias" terroristas é a incerteza quanto ao destino de Bin Laden. Os oficiais de inteligência dos Estados Unidos dizem não saber se o saudita está vivo ou se morreu durante as missões norte-americanas de bombardeio no Afeganistão. Caso ele esteja morto, os oficiais de inteligência dizem que não existe um herdeiro aparente para Bin Laden que seja capaz de exercitar um nível similar de gerenciamento da rede terrorista".

"Se Bin Laden for morto ou capturado, não há um sucessor à vista que seja capaz de unir tantas nacionalidades, interesses e grupos divergentes, a fim de criar o tipo de coesão conseguido pelo saudita", disse o vice-almirante Thomas Wilson, chefe da Agência de Inteligência de Defesa. "Com a sua remoção, a rede provavelmente vai se fragmentar em várias unidades comandadas por assessores que seguirão agendas diferentes entre si".

Um dos maiores objetivos dos esforços da inteligência norte-americana é tentar identificar onde deverão surgir filiais da Al Qaeda. As áreas que vêm sendo mantidas sob vigilância cerrada pelas agências de inteligência incluem a Tchetchênia, o Líbano, a Somália, o Sudão, o Iêmen, as Filipina e as regiões sob controle palestino.

Tradução: Danilo Fonseca

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