Bush coloca Síria na lista de alvos potenciais dos EUA

Dan Freedman



WASHINGTON - Em uma crescente guerra de palavras contra o terrorismo no Oriente Médio, o governo Bush acrescentou um novo país - a Síria - à sua lista, formada pelos dois usuais suspeitos na região, o Iraque e o Irã.

Na semana passada, na Casa Branca, o presidente Bush disse que "este é o momento para a Síria decidir de que lado está na guerra contra o terrorismo".

Antes da ameaça velada de Bush, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, já havia afirmado que a Síria, juntamente com o Irã e o Iraque, seriam os principais fomentadores dos atentados suicidas a bomba que, segundo ele, teriam feito com que Israel e os palestinos mergulhassem em uma verdadeira guerra.

"O povo da Síria precisa saber que o seu governo está facilitando o fluxo de armamentos e verbas para as atividades terroristas, do Irã para o Líbano, e, a partir daquele país, para Israel", disse Rumsfeld aos repórteres.

Anteriormente, Bush havia criticado a Síria por ter se recusado a participar de uma votação no Conselho de Segurança da ONU, em 30 de março, que pedia a Israel para se retirar de Ramallah, a cidade da Cisjordânia onde o líder palestino, Iasser Arafat, está confinado ao seu escritório, cercado por tropas de ocupação israelenses.

O representante temporário da Síria no conselho argumentou que a resolução da ONU não seria suficientemente antagônica a Israel.

Segundo os analistas, embora continue sendo um inimigo implacável de Israel, a ficha da Síria no que tange ao terrorismo é meio ambígua.

O Departamento de Estado designou o país como parte do grupo de nações que apóia o terrorismo. Os outros membros da lista do departamento são o Iraque, o Irã, o Sudão, Cuba, a Coréia do Norte e a Líbia.

Desde os ataques de 11 de setembro, Bush tem dado declarações ameaçadoras dirigidas contra o Iraque e o Irã. Ele denominou os dois países, juntamente com a Coréia do Norte, como "O Eixo do Mal", durante o seu discurso do estado da União.

Apesar disso, a Síria foi elogiada por Washington por ter fornecido informações de inteligência sobre as operações terroristas da Al Qaeda, de Osama Bin Laden. "Eles têm dito e feito certas coisas que sugerem que estão buscando uma melhor relação com os Estados Unidos", disse o secretário de Estado Colin Powell, em uma entrevista televisiva no segundo semestre do ano passado.

Mas com o aumento da violência em Israel e nos territórios ocupados, a Síria subiu para o topo da lista de inimigos públicos dos Estados Unidos.

A reação truculenta de Washington foi recebida como uma surpresa rude pela nação de 16,3 milhões de habitantes, liderada por Bashar al-Assad, de 36 anos.

Ele é filho de Hafez al-Assad, que por muito tempo foi o homem forte da Síria, até morrer há dois anos. O jovem Assad, que estudou oftalmologia em Londres e cultivou um gosto pela música do astro pop Phil Collins, deseja ter melhores relações com o Ocidente a fim de melhorar a estagnada economia Síria. Ele espera tirar a Síria do sistema centralizado, controlado pelo governo, adotado na década de 70.

Mas Assad também reconhece a necessidade política de a Síria se esforçar para recuperar as Colinas de Golã, que Damasco perdeu para Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

No decorrer das últimas duas décadas, a Síria auxiliou ativamente vários grupos terroristas islâmicos. Entre eles está o Hamas, também conhecido como Movimento de Resistência Islâmica, e a Jihad Islâmica Palestina. Ambos os grupos assumiram a responsabilidade por vários ataques suicidas a bomba.

Além disso, a Síria também apoiou o grupo muçulmano xiita, Hezbolá, ou Partido de Deus. O Hezbolá, uma organização armada e financiada pelo Irã, trocou tiros na semana passada com forças israelenses ao longo da fronteira entre Israel e o Líbano.

Segundo oficiais de inteligência dos Estados Unidos, desde a década de 80 Damasco tem sido o principal ponto de trânsito para as remessas iranianas de armas pequenas e foguetes Katyusha destinados às forças do Hezbolá no Vale Bekaa, no Líbano, próximo à fronteira norte de Israel.

A Síria ainda mantém 30 mil soldados no Líbano e controla o governo do país. A Síria interviu militarmente no Líbano na década de 70, durante a guerra civil no país, e novamente em 1982, após Israel ter invadido o sul do Líbano para desmantelar focos guerrilheiros palestinos.

Apesar dos seus laços com o Hezbolá, com o Partido da Jihad Islâmica e com o Hamas, a Síria é uma nação secular sunita, pouco tolerante para com o fundamentalismo islâmico.

Por exemplo, em 1982, o governo de Hafez al-Assad massacrou militantes rebeldes do grupo radical fundamentalista Irmandade Muçulmana, na cidade Síria de Hama. As forças sírias demoliram a cidade com ataques de artilharia e tratores, matando pelo menos 10 mil pessoas.

O incidente demonstra que, para os líderes sírios, a religião e a ideologia são secundárias com relação à auto-preservação.

"Os sírios estão dispostos a dormir com quem quer que sirva aos seus interesses nacionais", afirma Neil Livingstone, escritor e especialista em terrorismo. "Eles tentam mostrar que não tem nada contra os Estados Unidos, mas sim contra Israel". No entanto, o governo Bush discorda energicamente da distinção feita pela Síria entre o terrorismo muçulmano fundamentalista e anti-ocidental de Osama bin Laden, ao qual o governo sírio se opõe, e os grupos terroristas anti-Israel, como o Hamas, que a Síria apóia".

"A Síria criticou a Al Qaeda", disse Bush na semana passada. "Porém, esperamos que o país adote ações contra o Hamas e o Hezbollah".

Por debaixo dos panos, diz Livingstone, os Estados Unidos estariam pressionando a Síria a desempenhar um "papel construtivo" para limitar o terrorismo. O prêmio, acrescenta ele, é a chance de ser retirado da lista do Departamento de Estado, que impede o país de receber ajuda internacional e de estabelecer relações comerciais normais.

Mas alguns especialistas questionam a eficiência de se atacar publicamente a Síria.

Fawaz Gerges, professor de estudos sobre o Oriente Médio da Faculdade Sarah Lawrence, em Bronxville, Nova York, diz que Assad precisa do Ocidente para auxiliar na reforma da destroçada economia do seu país. Mas ele recearia que qualquer retração na sua posição anti-israelense neste período de muita tensão diminuiria o seu status como potência regional.


"A Síria é um Estado pequeno e falido, que não tem condições de representar uma ameaça para os Estados Unidos ou Israel", diz Gerges. "Portanto, por que não cooptar a Síria, ao invés de confronta-la?".



Tradução: Danilo Fonseca

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