Crise do Oriente Médio resgata prestígio de Bill Clinton

Robert E. Thompson



WASHINGTON - Bill Clinton está mais uma vez nos noticiários. Ele é citado porque, quando presidente, buscou desesperadamente alcançar a paz no Oriente Médio e foi atormentado por polêmicas e controvérsias em tal processo, assim como acontece neste momento com o seu sucessor.

De repente, os políticos, incluindo alguns republicanos, estão se lembrando que Clinton fez um esforço corajoso, embora, no final das contas, sem sucesso, em 2000, para elaborar um acordo de paz viável entre o então primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, e o líder palestino Iasser Arafat.

Ao contrário de George W. Bush, que demorou bastante antes de ordenar ao secretário de Estado Colin Powell que se dirigisse à região, após ter hesitado enquanto a Terra Santa ardia nas chamas da violência, Clinton mergulhou no conflito com determinação. Ele procurou acabar com a violência e com o derramamento de sangue de forma rápida. Ao final do processo, Clinton acabou fracassando em conseguir um acordo, supostamente devido à intransigência de Arafat. Mas ele merece um alto crédito por ter tentando.

Não obstante, o conflito continua transformando as vidas de muitos judeus e palestinos em um verdadeiro inferno sobre a terra.

Em 2000, Barak, um homem de paz, fez grandes concessões que dariam aos palestinos o controle sobre quase toda a Cisjordânia, que eles perderam para Israel na Guerra dos Seis Dias, de 1967. Se Arafat tivesse aceitado a proposta de Barak, milhares de israelenses teriam sido forçados a deixar as suas casas, construídas em uma terra que já pertenceu aos palestinos.

Bastaria essa concessão para fazer com que Barak pudesse perder o seu cargo como primeiro-ministro. O que acabou acontecendo foi que Ariel Sharon, um militarista ferrenho, derrotou Barak após a reunião com Clinton. Agora Sharon parece estar determinado em impor a sua vontade sobre os palestinos, destruindo as suas moradias, assassinando e ferindo a população dos territórios ocupados por Israel, e isolando completamente Arafat.

Ele ofereceu ao líder palestino "uma passagem só de ida", rumo ao exílio e ao esquecimento. Mas Arafat, que há muito fala sobre a possibilidade de se transformar em um mártir, rejeitou a oferta.

Que ninguém se engane. Arafat não é nenhum anjo. Ele é um mestre das manobras políticas. Mas Arafat é quem fala pelos palestinos, assim como Sharon pelos israelenses.

Como o ex-secretário de Estado, Henry Kissinger, disse em uma recente entrevista à CNN, Sharon não tem o direito de escolher o líder dos palestinos. Esse é um assunto que diz respeito exclusivamente aos palestinos.

Caso, no entanto, Arafat tivesse aceitado a oferta de Barak ao final do mandato de Clinton, a paz poderia estar prevalecendo hoje nesta terra conturbada. Haveria pouca inclinação por parte dos palestinos para se transformarem em homens-bomba, matando e mutilando civis israelenses inocentes.

Bush ficou observando os fatos de longe, na segurança da Casa Branca, enquanto a situação só fazia piorar, fazendo com que fosse difícil escapar da conclusão de que ele não quer tomar parte em uma intervenção diplomática pessoal que possa fracassar. Bush não quer tampouco seguir as pegadas de Clinton.

Uma das declarações mais ridículas já feitas por um secretário de Imprensa da Casa Branca foi a alegação de Ari Fleischer, segundo a qual a atual situação caótica no Oriente Médio poderia ser atribuída ao fato de Clinton ter tentado com muita intensidade chegar a um acordo para a região em 2000. Clinton rotulou o comentário de Fleischer de "risível", e com toda razão. Mais tarde, Fleischer retirou o que disse.

Ainda existe um grande fascínio rondando Clinton, o "bad boy" da Casa Branca. Ele é o objeto de um novo livro "The Natural", escrito por Joe Klein, que foi o autor anônimo de "Primary Colors", um romance baseado na campanha presidencial de 1992 de Bill Clinton.

O ex-presidente deu ainda uma entrevista recente ao repórter da revista Newsweek, Jonathan Alter, na qual cita com orgulho um recente relatório do Censo dos Estados Unidos. Os dados demonstram que, enquanto que o surto de prosperidade econômica do governo de Ronald Reagan, na década de 80, tirou 50 mil crianças da pobreza, os oito anos de prosperidade do governo Clinton fizeram o mesmo para 4,1 milhões de crianças.

Alter estima que a renda anual de Clinton com discursos nos Estados Unidos e no exterior fique entre US$ 10 e US$ 15 milhões (algo como R$ 22,5 milhões e R$ 34 milhões). Além disso, Alter afirma que o contrato de Clinton para que sejam publicadas as suas memórias tem o valor de US$ 12 milhões (cerca de R$ 27 milhões), o maior acordo do gênero da história.

Conforme diz Alter, "Ele é o único ex-presidente do século 20 a arrecadar cerca de US$ 40 milhões (cerca de R$ 90 milhões) durante os seus dois primeiros anos fora da Casa Branca".

Mas é óbvio que Clinton gostaria de estar de volta ao Salão Oval da Casa Branca para lidar com a crise que explodiu sobre os Estados Unidos no 11 de setembro.

Na entrevista, Alter sugeriu que, se Clinton fosse o presidente, ele poderia não ter unificado a nação de forma tão eficiente quanto o fez Bush. Clinton retrucou: "Não sei não. Creio que o país ficaria unificado. Acredito que a implicação da sua pergunta é que a extrema direita nunca teria tolerado nem a mim nem a nenhum outro democrata".

"Um amigo me ligou um dia desses e disse que, se tivéssemos um democrata na Casa Branca, a extrema direita instalaria um "comitê de vigilância de captura de Bin Laden", funcionando diariamente. Eles teriam passado meses contando os dias decorridos sem que o saudita fosse capturado".

"Não sei se isso seria verdade. Estou orgulhoso do meu partido por ele ter apoiado o presidente Bush na luta contra o terrorismo. E estou orgulhoso de que nós, os democratas, não tenhamos tentado aplicar nenhum golpe baixo para dividir politicamente o país".

Clinton, cuja presidência foi prejudicada pelo escândalo da estagiária Monica Lewinsky e por acusações de que teria alugado o quarto de Lincoln para grandes contribuintes da sua campanha, acrescentou que espera que a história seja benévola para com a sua administração. Segundo ele, daqui a 30 anos a população vai perceber que ele conseguiu grandes realizações, negociando com a Rússia, a China, a Otan, a Alca, e resolvendo o problema dos Bálcãs e questões domésticas, incluindo "a eliminação dos terríveis problemas fiscais que assolavam o país".

Para Joe Klein, Clinton "continua sendo o político mais notável da sua geração". Mas o escritor acrescenta que, "isso não diz muito", quando se fazem comparações entre Clinton e George W. Bush, Al Gore e Dan Quayle, Newt Gingrich e Dennis Hastert, e Trent Lott e Tom Daschle.



Tradução: Danilo Fonseca

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