Cientistas temem que ignorância de Bush prejudique os avanços da medicina

Marianne Means



WASHINGTON - Quando se trata de ciências médicas, o presidente Bush nada ouve, nada vê e nada sabe.

Esta semana ele mergulhou de cabeça em uma cruzada contra a clonagem humana para fins de pesquisas, que muitos cientistas - incluindo 40 ganhadores do Prêmio Nobel - acreditam que possa levar à cura de doenças graves e dolorosas e à recuperação de lesões na medula espinhal. Para justificar a sua crueldade ideológica, o presidente se armou de um absolutismo moral exagerado, igualando pequenos amontoados de células embrionárias a seres humanos de carne e osso que respiram a plenos pulmões.

Segundo ele, permitir a realização de pesquisas onde células fetais são destruídas seria algo de antiético, já que "nenhuma vida humana deve ser explorada ou extinta para o benefício de outra". Ele descreveu o processo com termos hiperbólicos e dramáticos, referido-se a "um passo significativo rumo a uma sociedade na qual os seres humanos serão criados para doar órgãos e as crianças serão geneticamente programadas segundo especificações utilitaristas". Ah, por favor! Que viagem! Mas Bush é um político, e não o nosso conselheiro médico ou teológico. Ele deveria deixar a ciência a cargo dos profissionais.

A decisão que o Senado deve tomar em breve sobre a criminalização da clonagem humana para qualquer fim, será uma decisão tanto política quanto médica. Ela se tornou prejudicada pela introdução de uma teoria ideológica sem fundamento, sustentada por algumas religiões, mas rejeitadas por outras, segundo a qual a vida começa com a concepção, no instante em que o ovo é fertilizado. Aqueles que acreditam em tal teoria vêem um embrião em qualquer estágio de desenvolvimento como sendo o equivalente moral e legal de um ser humano, e, conseqüentemente, a sua destruição, como assassinato.

Mas, muitos outros, inclusive eu, acham que a idéia de que uma esfera microscópica de células seja uma pessoa é irrealista e não pragmática. O presidente diz que deseja preservar a dignidade humana. Mas todos nós queremos o mesmo. Porém, não há nada de dignificante quanto à prevenção do avanço em um campo de pesquisa com um raro potencial para salvar vidas. Um fracasso na investigação da possibilidade de aliviar o sofrimento de milhões é que seria um verdadeiro crime contra a humanidade.

A clonagem envolve a colocação de material genético de um doador em um ovo do qual o núcleo foi removido para criar uma cópia genética do doador. Não se conhece nenhum político que seja a favor da clonagem para a criação de uma criança. Mas a proibição absoluta exigida por Bush também colocaria na ilegalidade a clonagem para pesquisa ou tratamento médico, assim como a importação de terapias de células-tronco que poderiam um dia levar à cura do mal de Parkinson, Alzheimer e outra doenças devastadoras. Caso essa versão moderada seja aprovada, Bush deu sinais de que irá veta-la.

O senador Bill Frist, republicano do Tennessee, o único senador médico, apóia a proibição defendida por Bush. Frist afirma, no entanto, que abriria uma exceção para a importação de terapias estrangeiras. Até o momento, o Senado parece estar igualmente dividido quanto à questão, com 20 membros ainda indecisos, sem saber se devem se inclinar para o grupo que advoga a ajuda aos doentes ou para aquele que é contra o aborto. O líder da maioria no Senado, Tom Daschle, que é a favor da clonagem para pesquisa, prometeu submeter o assunto a discussão antes do recesso do Memorial Day, no final de maio. Isso dá a ambos os lados bastante tempo para fazer lobbies para as suas causas.

E tempo é do que se precisa. Muita gente está confusa quanto ao que se encontra em jogo. Há alegações confusas e contra-alegações sobre o significado da clonagem humana para pesquisa e sobre a possibilidade de que outros métodos laboratoriais também viessem a funcionar.Bush afirma que os benefícios são "altamente especulativos". Mas, a menos que se permita que as pesquisas sigam em frente, tal especulação pode não vir a ser resolvida nunca.

A polêmica sobre a clonagem está adquirindo uma urgência súbita porque a ciência está correndo bem à frente dos políticos. Uma gata recentemente deu a luz a um gatinho clonado na Universidade do Texas. Outras espécies de animais também já foram clonadas. Ao examinar os óvulos de uma mulher cuja família possuía um raro gene portador de uma forma devastadora de mal de Alzheimer prematuro, um médico recentemente assegurou o nascimento de uma menina isenta do gene letal.

Mesmo que sejam banidas nos Estados Unidos, as experiências médicas continuarão no exterior - assim como deve ser. Alguns cientistas norte-americanos já estão partindo para laboratórios no estrangeiro, onde se sentem livres para continuar com suas pesquisas. Arlen Specter, republicano da Pensilvânia, que se opõe à proibição total, alerta para a tolice cometida por governantes ignorantes em séculos passados, que tentaram algemar a ciência. Ele mencionou Galileu, o astrônomo italiano que foi encarcerado pelas autoridades locais por ter aceitado a visão, à época herege, de que a Terra giraria em torno do Sol.

Bush gosta de se apresentar ao público como sendo um "conservador compassivo". É triste que, quando se trate de clonagem, ele tenha se esquecido da parte sobre compaixão.



Tradução: Danilo Fonseca

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