Presidentes dos EUA têm problemas no Oriente Médio há cinco décadas

Robert E. Thompson
Da Hearst Newspapers
Em Washington

Muito antes de George W. Bush iniciar relutantemente uma missão de paz com israelenses e palestinos, os seus predecessores na Casa Branca tiveram problemas com o explosivo conflito no Oriente Médio.

Em 1948, Harry Truman se tornou o primeiro presidente norte-americano a desempenhar um papel significante na disputa. Em 14 de maio, o dia em que os judeus proclamaram a criação do Estado de Israel, Truman concedeu o reconhecimento diplomático norte-americano à nova democracia judaica. O seu procedimento foi de encontro ao conselho do Departamento de Estado e gerou a ira dos árabes.

Ao reconhecer Israel, Truman - pela primeira e única vez em sua vida - passou por cima do homem que ele chamara de "o maior norte-americano vivo": George C. Marshall, que, à época, era o secretário de Estado.

Considerando que o mandato britânico da Liga das Nações sobre a Palestina estava expirando, a questão crítica era saber se a área deveria ser partilhada em um estado judeu e outro árabe, independentes, ou se tanto judeus quanto árabes deveriam ser governados por uma comissão da Organização das Nações Unidas (ONU).

Marshall e seus assessores eram a favor da comissão da ONU, por duvidarem de que uma nação judaica seria capaz de sobreviver, rodeada por Estados árabes, sem a proteção da ONU. Clark Clifford, conselheiro e assessor da Casa Branca de Truman para estratégias políticas relativas às eleições presidenciais de 1948, recomendou que os Estados Unidos reconhecessem imediatamente Israel como nação independente.

Considerando que Truman estava dividido quanto à questão, e que a confusão era reinante no governo norte-americano e na ONU, o presidente estava sofrendo uma enorme pressão de ambos os lados. Em uma mensagem enviada a Edward Jacobson, um velho amigo que já fora seu sócio em um armazém de Kansas City, no Missouri, Truman rejeitou o pedido de Jacobson no sentido de que se encontrasse com o principal defensor da criação de um Estado judeu, Chaim Weizmann (que se tornaria o primeiro presidente de Israel). Truman afirmou: "Os judeus são tão emotivos e os árabes tão difíceis para conversar que é quase impossível realizar qualquer coisa nessa área. E, é claro, os britânicos têm dado muito poucas mostras de cooperação".

Mas Jacobson não desistiu. Finalmente, ao final de uma reunião na Casa Branca com seu amigo, Truman cedeu: "Você venceu...Eu vou vê-lo".

Weizmann se reuniu secretamente com Truman na Casa Branca em 18 de março de 1948, e os dois homens desenvolveram uma "relação de entendimento", segundo as memórias tanto de Truman quanto da mulher de Weizmann.

Mas, no dia seguinte, o delegado dos Estados Unidos para a ONU, Warren Austin, propôs que o Conselho de Segurança convocasse uma reunião especial da Assembléia Geral a fim de avaliar uma comissão da ONU para a Palestina. Judeus de todas as partes ficaram enfurecidos com a ação, acusando Truman de ter cedido a pressões árabes.

Segundo o biógrafo de Truman, Robert J. Donovan, Jacobson disse que "quase imediatamente começaram a chegar telegramas e telefonemas de todo os Estados Unidos, acusando o meu amigo, Harry Truman, de ter se mostrado um terrível traidor. Segundo as mensagens, ele traíra o povo judeu e violara a sua promessa... Não havia uma única pessoa em Kansas City ou em qualquer outro lugar, durante aqueles dias terríveis, que expressasse confiança na palavra do presidente dos Estados Unidos".

Durante várias semanas, a polícia dos Estados Unidos esteve imersa em um limbo. Até a presente data não se sabe ao certo se Truman sabia antecipadamente sobre aquilo que Austin iria propor.

Mas a questão chegou perto de um clímax em 12 de maio, em uma reunião na Casa Branca, em que Marshall anunciou a sua oposição à sugestão de Clifford de que Truman concedesse reconhecimento diplomático a Israel. Marshal qualificou a idéia de "fuga temporária" para ganhar uns poucos votos judeus, o que ele achava que não iria ser uma manobra de sucesso.

Mais tarde, Marshall escreveu: "Eu disse claramente que, se o presidente fosse seguir o conselho do senhor Clifford e se eu fosse votar nas eleições, votaria contra o presidente".

A avaliação de Donovan foi de que "Harry Truman nunca teve de engolir um medicamento mais amargo do que esse". Mas, apesar das críticas de Marshall, os dois homens permaneceram amigos. Após se aposentar, em 1949, Marshall retornou ao governo para atuar como secretário de Defesa durante a primeira etapa da Guerra da Coréia, de 1950 a 51.

O sucessor de Truman, o general Dwight D. Eisenhower, teve de decidir em 1956 por se aliar ou não à coalizão militar britânica, francesa e israelense para colocar um fim à nacionalização do Canal de Suez pelo homem forte do Egito, Gamal Abdel Nasser. Eisenhower acabou dizendo não e apoiou a intervenção da ONU. Foi imposto um cessar-fogo sob a supervisão da ONU, e tropas de paz das Nações Unidas patrulharam a fronteira entre o Egito e Israel de 1957 a 67.

Lyndon Johnson, imerso no problema da Guerra do Vietnã, resistiu aos pedidos para que atuasse militarmente a favor dos israelenses na Guerra dos Seis Dias, de 1967, vencida por Israel.

Em setembro de 1978, Jimmy Carter convidou o presidente egípcio, Anuar Sadat, e o premiê israelense, Menachen Begin, para 13 dias de intensas negociações em Camp David. O resultado foi um tratado de paz que colocou um fim a 31 anos de guerras entre Egito e Israel.

Para Ronald Reagan, o Líbano, vizinho de Israel, representou graves problemas. Em abril de 1983, uma explosão na embaixada dos Estados Unidos em Beirute matou 16 norte-americanos e dezenas de cidadãos de outras nacionalidades. Um massacre mais terrível ocorreu em outubro daquele ano, quando terroristas lançaram caminhões carregados de explosivos contra quartéis de fuzileiros navais em Beirute, matando 241 soldados americanos e 58 franceses.

Durante a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991, sob o olhar presidencial de George Bush pai, o Iraque disparou mísseis Scud contra Israel. Bush tentou participar de uma negociação entre árabes e israelenses, naquele ano, em Madri, mas a iniciativa fracassou.

Bill Clinton, em uma conferência na sua casa de campo presidencial, em Camp David, Maryland, próximo ao fim do seu segundo mandato, esperava concluir um acordo de paz para o Oriente Médio entre o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, e o líder palestino, Iasser Arafat. Mas, mesmo após Barak ter feito concessões substanciais no sentido de se trocar terra por paz, Arafat recusou os termos do acordo. Clinton disse mais tarde que o maior obstáculo foi a diferença dos líderes quanto a Jerusalém, mas ambas as parte tinham posições irreconciliáveis quanto à reivindicação palestina de um direito de retorno dos cidadãos que no passado foram expulsos pelos judeus de terras que hoje pertencem a Israel.

Assim, o conflito segue o seu curso, ficando mais sangrento a cada confronto militar.

Tradução: Danilo Fonseca

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