Nenhum segredo para Saddam Hussein

Marianne Means
Hearst Newspaper
Em Washington

Para um homem obcecado em manter segredos, os alertas do presidente Bush de que de uma forma ou de outra ele irá se livrar de Saddam Hussein são um postura estranha.

Os membros do governo recentemente deixaram um pouco de lado o rufar de tambores orquestrado pela Casa Branca de que um ataque militar contra o Iraque é inevitável. O ponto é que o Estado-Maior das Forças Armadas não está tão confiante na rapidez ou facilidade do sucesso de uma invasão, que poderia envolver pelo menos 200 mil soldados em combates perigosos na lotada Bagdá, quanto estão os conselheiros civis linhas-duras do presidente.

Bush disse durante sua visita à Alemanha na semana passada que "eu não tenho nenhum plano de guerra na minha mesa, e esta é a verdade". O general Tommy Franks do Exército, chefe do Comando Central dos Estados Unidos, o centro nervoso das forças armadas americanas que estão atuando na Ásia Central e no Oriente Médio, reforçou tal comentário acrescentando: "Meu chefe ainda não me pediu para elaborar um plano para fazer isto (invadir o Iraque)".

Há um pouco de sapateado semântico ocorrendo aqui, já que os militares consideram um "plano" como uma descrição detalhada das táticas e estratégias envolvidas na realização de uma operação armada. Até o momento, aparentemente, o debate interno do governo tem lidado mais com os aspectos conceituais do que com os pontos específicos.

O ódio do presidente a Hussein é inabalável e compreensível. Em 1993, o líder iraquiano tentou sem sucesso assassinar seu pai, o presidente George H. W. Bush, em retaliação à derrota humilhante do Iraque na Guerra do Golfo Pérsico de 1991. O atual presidente não menciona seu ressentimento pessoal, e nem precisa. Os esforços bem conhecidos do Iraque de desenvolver armas biológicas, químicas e nucleares de destruição em massa são mais do que suficientes para colocar o país na lista de Bush como sendo parte de um "eixo do mal".

Mas apesar de todos os seus feitos terríveis, Hussein não esteve envolvido diretamente nos ataques terroristas de 11 de setembro. O elo mais próximo entre ele e os terroristas é a informação em relatórios da inteligência de um encontro entre agentes iraquianos e Mohamed Atta, o suposto piloto do primeiro avião que atingiu o World Trade Center. Não há evidência de que Hussein esteve envolvido no envio daquelas cartas contendo antraz dentro dos Estados Unidos, apesar de especialistas acreditarem que seus laboratórios estejam fazendo experiências para o uso de antraz.

Sem evidência de envolvimento direto no terrorismo global, nossos aliados na Europa e no Oriente Médio não querem ter nada a ver com um ataque militar contra Bagdá. Quando o vice-presidente Dick Cheney viajou recentemente pela Europa para convencer os países a apoiarem a invasão, seus líderes disseram repetidas vezes para esquecê-la. A coalizão antiterrorismo não se sustentaria, disseram os aliados, diante de uma guerra em grande escala contra o Iraque.

Se decidir pela ação militar, o presidente também enfrentará o trabalho de vendê-la aos eleitores americanos. Até aqui, ele não tem se mostrado terrivelmente articulado. Quando um repórter em Berlim lhe pediu para que explicasse suas metas em relação ao Iraque, ele disse que Saddam Hussein é "um ditador que asfixia seu próprio povo". (Hussein tem combatido de forma intermitente os nacionalistas curdos e certa vez atacou os rebeldes com gás venenoso.)

Se decidíssemos invadir cada ditador que abusou de seu próprio povo, nós estaríamos em guerra permanente com grande parte do mundo.

Apesar da popularidade pessoal de Bush e do amplo apoio público à guerra contra o terrorismo, uma recente pesquisa USA Today/CNN/Gallup mostrou que o país está dividido quanto a validade de uma invasão ao Iraque. Entre os pesquisados, 46% disseram ser a favor do envio de tropas americanas e 50% disseram ser contra.

Na tentativa de familiarizar os americanos com a possibilidade de um ataque ao Iraque, o governo Bush tem sido tão aberto em relação ao assunto que as autoridades já fizeram de tudo, faltando apenas telefonar para Saddam Hussein para perguntar que dia seria mais conveniente para a chegada de nossas tropas. As autoridades perderam qualquer elemento surpresa, por menor que fosse, que poderia existir. Será difícil pegar Saddam Hussein de guarda baixa.

Esta é uma batalha de inteligência tanto quanto de armamentos. Obviamente nosso poder militar é superior ao do Iraque. Mas o Iraque é muito mais sofisticado e melhor armado do que o Afeganistão, e Saddam Hussein é mais experiente do que Osama Bin Laden. As ameaças de Bush podem ser em parte um blefe para impressionar os republicanos conservadores linhas-duras e intimidar o líder iraquiano. Mas a sede de vingança é tão profunda tanto em Bush quanto em Saddam Hussein que algum tipo de confronto militar parece provável.

Se falar abertamente sobre a invasão visava assustar Saddam Hussein para que se comportasse, isto ainda não produzir resultados visíveis. Depois da Guerra do Golfo, o Iraque deveria abandonar seus programas de desenvolvimento de armas e permitir que inspetores das Nações Unidas investigassem os locais suspeitos. Mas o Iraque tem resistido em permitir livre acesso à ONU, e especialistas disseram que o país renunciou sua promessa de se endireitar. Mas basicamente prevalece um impasse diplomático.

O pai do presidente decidiu não marchar sobre Bagdá após a vitória americana que expulsou Saddam Hussein do Kuwait. Poucas vidas americanas foram perdidas na guerra breve, e Bush pai optou por poupar ambos os lados da miséria do prolongamento da guerra. Seu filho está impaciente para terminar o trabalho de remover Saddam. Mas ele deveria lembrar da cautela e bom senso de seu pai e escutar o Estado-Maior das Forças Armadas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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