Ex-especialistas do FBI temem que americanos sejam recrutados pela Al Qaeda

Stewart M. Powell
Hearst Newspapers
Em Washington

Ex-especialistas em contra-terrorismo do FBI dizem que a prisão do suspeito de ser agente da Al Qaeda, José Padilla, de Nova York, levanta a possibilidade de que a rede de Osama bin Laden tenha recrutado outros cidadãos norte-americanos para ajudar na realização de ataques terroristas.

Padilla, de 31 anos, foi preso porque estaria ligado aos estágios iniciais de um plano que, segundo as alegações das autoridades, teria como objetivo explodir uma bomba radioativa nos Estados Unidos. Ele não foi acusado formalmente de nenhum crime, mas está detido por prazo indefinido, sob custódia militar, em uma prisão da marinha norte-americana em Charleston, no estado da Carolina do Sul.

"Se alguém examinar os antecedentes de Padilla - porto-riquenho, membro de gangue, ex-presidiário e convertido ao islamismo - o que vai descobrir é que o rapaz é um instrumento potencial para a Al Qaeda", afirma Robert Heibel, ex-vice-diretor de contra-terrorismo do FBI e atual diretor do programa de pesquisa e inteligência da Faculdade Mercyhurst, em Erie, Pensilvânia.

"A grande pergunta é a seguinte: Será que a Al Qaeda é capaz de recrutar agentes em meio aos grupos islâmicos e de convertidos ao islamismo estabelecidos nos Estados Unidos? O caso de Padilla sugere que a resposta a esta pergunta é afirmativa".

William Dyson, o supervisor aposentado do esquadrão de contra-terrorismo do FBI em Chicago afirma que os convertidos ao islamismo, como Padilla, representam um "risco terrível" na guerra contra o terrorismo porque eles podem viajar livremente dentro dos Estados Unidos sem levantar suspeitas e podem usar os seus passaportes estadunidenses para entrar e sair do país sempre que quiserem.

"Pessoas como Padilla representam problemas reais para nós", afirma Dyson, um veterano especialista em contra-terrorismo que escreveu o livro "Terrorism: An Investigator's Handbook" ( algo como "Terrorismo: Um Manual do Investigador"). "Eles não possuem o perfil que temos utilizado para procurar possíveis terroristas. A sua capacidade para viajar com um passaporte dos Estados Unidos vale o seu peso em ouro, porque fornece à organização acesso total ao território do país".

O procurador geral da Justiça, John Ashcroft, ressaltou o alegado valor que Padilla representa para a Al Qaeda quando disse, na semana passada, que "a direção da Al Qaeda sabe que um cidadão dos Estados Unidos que possua um passaporte válido (Padilla) seria capaz de viajar livremente pelos Estados Unidos sem chamar atenção".

O vice-secretário de Defesa, Paul Wolfowitz, disse que Padilla "pesquisou armas nucleares e recebeu treinamento sobre como fazer artefatos explosivos enquanto esteve no Paquistão, tendo sido instruído a voltar aos Estados Unidos e a conduzir operações de reconhecimento para a Al Qaeda".

As autoridades disseram que Padilla, ex-membro de uma gangue de ruas de Chicago, se converteu do catolicismo ao islamismo em meados dos anos 90, após ter tido uma série de problemas com a lei, incluindo um período na prisão devido a um delito cometido em Illinois, quando adolescente, e por um episódio de agressão em uma estrada na Flórida, em 1991, no qual chegou a disparar uma arma.

Padilla freqüentou uma mesquita na Flórida durante dois anos, antes de visitar o Paquistão e o Afeganistão em 1998 - em uma época em que o regime muçulmano radical do Taleban ainda estava no poder em Cabul.

Padilla chegou em Chicago em 8 de maio, trazendo mais de US$ 10 mil (cerca de R$ 27 mil) naquilo que, segundo as autoridades federais, seria o início de uma viagem de reconhecimento para assinalar possíveis alvos para a explosão da chamada "bomba suja", que dispersaria material radioativo por meio de um artefato explosivo. Além disso, ele estaria cogitando ataques a bomba contra postos de gasolina e hotéis.

Padilla, que também é conhecido por Abudullah al-Muhajir, seu nome muçulmano, foi capturado cerca de seis semanas após autoridades estadunidenses começarem a questionar Abu Zubaydah, militante da Al Qaeda, o terceiro na hierarquia da rede de Bin Laden, e chefe de recrutamento da organização.

Mas Padilla também chamou atenção das autoridades dos Estados Unidos antes de eles terem extraído informações de Zubaydah, por ter notificado a perda do seu passaporte norte-americano quando estava em Karachi, no Paquistão, em fevereiro, tendo solicitado um novo passaporte em março. Autoridades do departamento de Estado dizem ter fornecido um novo passaporte a Padilla - e avisaram ao FBI e à CIA sobre o pedido e a localização do rapaz.

Para obter um passaporte, Padilla teve que jurar que não fazia parte ou servia nas forças armadas de um Estado estrangeiro,que não havia renunciado à sua cidadania ou cometido qualquer ato de traição contra os Estados Unidos ou tentado destruir ou derrubar pela força o governo norte-americano".


Tradução: Danilo Fonseca

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