Especialistas acreditam que reatores nucleares são vulneráveis a ataques

Eric Rosenberg
Hearst Newspapers
Em Washington

Mais de nove meses após os ataques terroristas contra o World Trade Center e o Pentágono terem gerado preocupações quanto à possibilidade de atentados contra usinas nucleares dos Estados Unidos, os 103 reatores atômicos do país continuam vulneráveis a atos de sabotagem, segundo parlamentares e especialistas na área nuclear.

O senador independente James Jeffords, de Vermont, chefe do comitê do Senado que avalia a vulnerabilidade dessas usinas, comentou que há "preocupações significantes quanto à capacidade de defende-las contra sabotagem interna".

Ex-funcionários de usinas nucleares "reclamaram do treinamento inadequado e da precariedade da pesquisa de idoneidade dos guardas de segurança e outros funcionários", disse Jeffords, no início deste mês.

O deputado Ed Markey, democrata de Massachusetts, que está liderando um movimento no Congresso para aumentar a segurança das usinas nucleares, reclamou de que não existe um plano padrão de segurança nessas instalações.

"Infelizmente alguns dos guardas que trabalham atualmente nos reatores nucleares civis recebem menos do que porteiros. Eles não possuem um nível uniforme de treinamento e tampouco são igualmente equipados", criticou Markey.

Chamando atenção para as diferenças no que tange à segurança em todo o país, Markey observou que as unidades da Guarda Nacional, em alguns estados, são mobilizadas para fazer a guarda de usinas nucleares. Em certos estados, as unidades da Guarda Nacional estão sempre com suas armas carregadas. Em outros, não.

"Em alguns estados, os soldados têm autorização de atirar para matar. Em outros não são autorizados a faze-lo", afirma Markey. "Não seria razoável que o povo norte-americano solicitasse que tivéssemos uma política uniforme em todo o país, que todos soubessem que estaria em vigor em todas as usinas nucleares?".

David Lochbaum, especialista em energia nuclear da União dos Cientistas Preocupados, um grupo que critica a indústria nuclear, afirma que a segurança nos complexos nucleares em geral aumentou após os ataques de 11 de setembro, necessitando, entretanto, de ser aprimorada.

"Acreditamos firmemente que as usinas nucleares dos Estados Unidos são vulneráveis a ataques e que as conseqüências de tais ataques seriam terríveis", disse ele.

A indústria nuclear e a Comissão Regulatória Nuclear (NRC), a agência federal encarregada de regulamentar o setor, argumenta que as usinas nucleares não são vulneráveis.

Segundo Stephen Floyd, um dos diretores do Instituto de Energia Nuclear (NEI), um grupo comercial que representa o setor, as equipes de segurança são treinadas para rechaçar intrusos e as instalações que abrigam os reatores são bem protegidas contra ataques por paredes de 1,2 metro de espessura, feitas de concreto e aço.

"Cada uma das usinas nucleares possui uma força de segurança bem armada e treinada para defender as instalações contra atacantes e atos de sabotagem, além de contar com uma barreira múltipla, elaborada para garantir que não haja o potencial para a liberação de radioatividade em caso de acidente ou ação de sabotadores", afirmou a NEI em uma declaração pública.

Richard Meserve, presidente da NRC, afirma que a segurança nas usinas nucleares é excelente. "Durante décadas, antes do 11 de setembro, as usinas nucleares estiveram entre os complexos mais bem defendidos e inexpugnáveis da infraestrutura nacional", disse ele a um comitê do Senado neste mês. "Após os ataques a segurança aumentou ainda mais".

Apesar dessa avaliação otimista por parte do governo e dos empresários do setor de produção de energia a partir de usinas nucleares, a ameaça de ataques terroristas levou a NRC a oferecer tabletes de iodeto de potássio aos estados, para a distribuição a moradores que vivem em um raio de 16 quilômetros de um reator nuclear. Em caso de um ataque terrorista, o iodeto de potássio ajudaria a prevenir o câncer da tireóide em pessoas expostas à radiação, ao diminuir a capacidade da glândula em absorver iodeto radioativo.

Quatorze dos 33 Estados que possuem usinas nucleares aceitaram prontamente a oferta. Autoridades do governo de Nova Jersey anunciaram na semana passada que fornecerão 700 mil tabletes de 130 miligramas aos moradores que vivem nas proximidades dos quatro reatores nucleares do estado. A população que reside próxima à usina nuclear de Indian Point, no estado de Nova York, fez filas para receber os tabletes distribuídos pelo governo, e as farmácias anunciaram que as vendas do produto bateram recordes.

Autoridades da Califórnia pediram ao governo federal quase 900 mil pílulas para proteger as pessoas que moram próximas a duas usinas nucleares. Além disso, o governo federal recentemente encomendou mais 350 mil tabletes como reserva.

As instalações nucleares são alvos convidativos para o terrorismo, porque um ataque que conseguisse romper o invólucro de cimento e aço que protege o reator nuclear poderia causar a morte de milhares de pessoas. Há também a preocupação com a possibilidade de o combustível nuclear ser utilizado para fazer a chamada "bomba suja", ou de ser processado para a confecção de uma arma atômica.

O presidente Bush afirmou no seu discurso do Estado da União, no início deste ano, que há evidências de um interesse significativo dos terroristas nas usinas nucleares dos Estados Unidos, e que as tropas norte-americanas que vasculharam cavernas no Afeganistão, em busca de integrantes da Al Qaeda, "encontraram diagramas de usinas nucleares dos Estados Unidos". E, para aumentar a inquietação, a NRC advertiu os operadores de usinas nucleares americanas, em janeiro, que um terrorista poderia estar planejando jogar uma aeronave contra um reator.

Em um estudo sobre potenciais alvos para terroristas, divulgado esta semana, especialistas em segurança da Brookings Institutions, uma organização não partidária, afirmaram estar preocupados com as lacunas de segurança nas usinas nucleares. Segundo o relatório, um dos fatos mais preocupantes são as pesquisas de credenciamento e idoneidade dos candidatos a funcionários, especialmente aqueles nascidos no exterior. O relatório afirma que tais pesquisas são realizadas com pouca freqüência.

"Os cidadãos norte-americanos são atualmente mais escrutinados do que os candidatos estrangeiros, devido à falta de informações ( por exemplo, história de crédito e ficha criminal) ou má-vontade de governos estrangeiros em fornecer tais informações", afirma o relatório, citando uma mensagem de Meserve, da NRC, divulgada em março deste ano.

Lochbaum e outros críticos também denunciam que os proprietários das usinas nucleares não monitoram regularmente os saldos bancários e as condições financeiras de funcionários que exercem funções importantes nos complexos, a fim de procurar sinais de recebimento de propinas. Já o FBI e a CIA monitoram as contas bancárias de alguns dos seus funcionários, a fim de se proteger contra operações de recrutamento feitas por oficiais de inteligência estrangeiros.

Floyd admite que o setor não realiza esse tipo de monitoramento, afirmando que "trata-se de uma questão de liberdades civis" e de uma invasão potencial da privacidade do trabalhador.


Tradução: Danilo Fonseca

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