Bush evita fazer comentários sobre corrupção empresarial

Marianne Means
Hearst Newspapers
Em Washington

O presidente Bush, defensor-em-chefe do puritanismo em todos os setores, desde o condicionamento físico até o serviço comunitário voluntário, está adotando uma atitude nitidamente omissa quando se trata da corrupção empresarial.

O presidente mal reconheceu o problema, demonstrando pouco interesse em combater seriamente as práticas empresariais podres e interesseiras que estão minando perigosamente a confiança de investidores e consumidores.

A Casa Branca, que não perdeu tempo em expressar a sua fúria quanto a outros assuntos menos críticos, tais como o vazamento de informações para a imprensa, que considera muito importantes, parece não se preocupar com a possibilidade de que esta questão se infiltre para o âmago da campanha presidencial de reeleição. O problema está afetando a economia, que não se recuperou da recessão de forma tão robusta quanto se esperava e está sofrendo inevitavelmente com a falta de confiança da população no universo das corporações.

As dívidas federais compõe o problema, crescendo tão rapidamente que o Congresso terá que aumentar o seu limite legal neste final de semana, a fim de possibilitar que o governo pague as suas contas.

Os escândalos são generalizados - contadores desonestos, executivos com salários escandalosamente altos, conflitos de interesses, tráfico de influência e inadequada fiscalização federal.

Quando a economia prospera, o presidente leva o crédito, independente das suas políticas terem algo a ver com o fenômeno. E quando a economia vai mal, o presidente é que arca com a culpa. Esse é o estilo norte-americano.

Não é de se surpreender que Bush esteja relutante em criticar o poderoso mundo dos negócios que lhe dá um generoso apoio político e financeiro. Mas interessa a ele manter a máquina econômica ativa, e isso pode exigir que se distancie um pouco dos egoístas titãs da indústria que têm depenado os acionistas e os funcionários.

Se Bush fizesse um discurso contundente denunciando a cultura empresarial corrupta, ele poderia suavizar a imagem que os republicanos possuem de serem os porta-vozes de Wall Street, que não conta com a confiança do público.

Até o momento, o presidente deu pouca atenção ao problema, como se ele não fosse importante. Ele disse recentemente que "há um pouco de desconfiança quanto às grandes empresas... o mundo dos negócios precisa promover uma limpeza no seu meio." Ele condenou ainda "umas poucas maças podres", embora tenha elogiado a integridade da maior parte dos líderes de corporações. Ele não ofereceu qualquer sugestão sobre a forma de se promover tal limpeza. Bush tampouco identificou especificamente as maçãs podres que precisam ser eliminadas.

No entanto, a Casa Branca pode estar ficando um pouco mais sensível, à medida que os escândalos se disseminam. Os assessores costumavam se gabar, comparando o estilo gerencial do seu chefe com o dos líderes das grandes corporações. Agora eles não fazem mais tal coisa. Dois importantes executivos foram indiciados no mês passado. A bolsa de valores atingiu o seu nível mais baixo em três anos. Centenas de empresas reavaliaram as suas previsões contábeis de forma mais pessimista, a fim de evitar denúncias de fraude nas suas contabilidades. A Comissão de Títulos e Ações (SEC) está investigando uma grande empresa telefônica regional - a Qwest Communications - acusada de ter ludibriado os acionistas. E até mesmo a impecável Martha Stewart está em apuros.

Ainda assim a Casa Branca engasga quando se trata de buscar a solução óbvia - regulamentação federal mais rígida e novas regras, que visem a garantir a honestidade, em uma cultura desonesta e movida pela ganância. Afinal, esse é um presidente que acredita profundamente que encorajar o mundo empresarial para que obtenha lucros é uma causa nobre, e, para atingir tal fim, vale tudo. Os interesses públicos estão em segundo plano, se é que chegam a ser levados em conta.

O presidente não apóia uma medida que está pendente no Congresso, que tornaria ilegais as brechas fiscais que permitem às companhias que se instalem nas Bermudas ou outros locais exóticos a fim de evitar os impostos do governo norte-americano. Ele recomendou apenas algumas mudanças cosméticas na regulamentação das leis contábeis do país, após o colapso da Enron, a gigante do setor energético, que ficou exposta como sendo uma empresa sem conteúdo e fraudulenta.

O Comitê de Bancos do Senado acaba de aprovar uma proposta bem mais ampla para regulamentar as indústrias, algo que Bush não apóia.

O seu governo é a favor da aplicação das pífias regulamentações implementadas pela SEC, já existentes, que se baseiam na auto-fiscalização voluntária, ao invés de pressionar para que entrem em vigor leis mais duras, que definam padrões legais claros e que possam ser colocadas em vigor. O seu chefe para a SEC, Harvey Pitt, é um ex-advogado da Arthur Andersen LLP, a firma de contabilidade da Enron, que foi condenada por ter obstruído o trabalho da justiça, ao triturar os arquivos contábeis da Enron.

No início deste mês, uma pesquisa de opinião feita pela "ABC News" e pela "Money Magazine" demonstrou que 61% dos entrevistados descreveram a economia da nação como sendo "nada boa" ou "ruim." Até o momento, as preocupações econômicas dos eleitores não atingiram seriamente a credibilidade do presidente Bush. Mas há sinais de alerta. Os seus índices favoráveis caíram oito pontos desde meados de março, de 77% para 69%.

De maneira otimista, a Casa Branca prevê que a economia está voltando ao normal de forma satisfatória, a despeito dos problemas éticos de Wall Street. Se o presidente abraçar tal idéia, ele não se sentirá motivado a aproveitar essa oportunidade para fortalecer o nosso sistema capitalista, tornando as empresas responsáveis por suas ações. Ele não liderará. Simplesmente ficará sentado, observando a situação.

O secretário do tesouro, Paul O'Neill, no entanto, está finalmente se movendo. Ele pediu a transparência honesta quanto aos custos das opções de mercado e um comedimento quanto ao tamanho dos salários dos executivos. Um executivo típico de alto escalão recebe mais de US$ 1 milhão anualmente (cerca de R$ 2,82 milhões), sem contar os benefícios. Já o trabalhador médio recebe US$ 15.553 por ano.

O'Neill disse que as pessoas deveriam se sentir "ultrajadas." "A quantidade de dinheiro que alguns desses indivíduos acumularam por meios condenáveis é simplesmente difícil de se acreditar, e precisamos de uma lei para reaver um pouco dessas quantias", afirma.

Se o presidente dos Estados Unidos também se sentisse ultrajado, talvez essa situação sofresse uma mudança.


Tradução: Danilo Fonseca

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