Fundamentalismo islâmico cresce nas prisões dos EUA

Dan Freedman
Hearst Newspapers


O suspeito de terrorismo, Richard Reid, acusado de ser um "homem do sapato-bomba", e Jose Padilla, que teria planejado detonar uma bomba radiológica nos Estados Unidos, têm algo em comum: ambos se converteram ao islamismo quando estavam na prisão ou logo após terem saído da carceragem.

Tal similaridade poderia ser mera coincidência - ou então uma evidência de que os sistemas penitenciários aqui e no exterior estão inadvertidamente fomentando um ambiente propício para a formação de terroristas fundamentalistas islâmicos.

Em sua maioria, especialistas e administradores veteranos de penitenciárias vêem a influência do islamismo no mundo atrás das grades como uma força positiva.

"Reconhecemos a fé islâmica como sendo uma das grandes religiões do mundo, e não associamos a conversão ao islamismo com qualquer tipo de influência radical ou negativa", afirma Richard Stalder, administrador do sistema penitenciário do Estado da Louisiana, que possui 36 mil detentos. Assim como a maioria dos Estados, a Louisiana contrata clérigos muçulmanos para atender às necessidades espirituais dos prisioneiros.

A fé islâmica "trabalha em benefício dos administradores das penitenciárias porque ela ensina valores e promove a estabilidade e a produtividade", afirma Stalder.

Mas, ao mesmo tempo, especialistas reconhecem que o confinamento nas prisões representa um solo fértil para potenciais recrutamentos, aos olhos da Al Qaeda e de outros grupos extremistas.

Reid, preso em dezembro por ter tentado detonar explosivos que trazia nos sapatos, durante um vôo transatlântico a bordo de um jato de passageiros, se converteu ao islamismo nos anos noventa, enquanto cumpria sentença em uma prisão britânica por ter praticado assaltos na rua. Reid está preso, aguardando julgamento em Boston, por tentar explodir o avião.

Após os ataques terroristas de 11 de setembro, as autoridades penitenciárias britânicas proibiram a atuação de dois dos 130 imãs (título dos clérigos muçulmanos) do país, já que, segundo essas autoridades, os clérigos faziam sermões anti-americanos.

Padilla está em uma prisão da Marinha, em Charleston, na Carolina do Sul, suspeito de ter planejado explodir uma "bomba suja" radiológica. Ele não foi condenado de crime algum.

Nascido em uma família porto-riquenha pobre, Padilla se converteu ao islamismo logo após ter cumprido um breve período de prisão na Flórida, em 1992, por ter disparado uma arma contra um motorista durante uma discussão de trânsito.

Alguns críticos pintam um quadro mais sinistro do islamismo nas prisões.

"Indivíduos alienados e destituídos são alvos prioritários para os muçulmanos radicais que pregam uma religião de violência, e defendem a luta contra a opressão através da Jihad", escreveu Charles Colson, missionário cristão que trabalha em penitenciárias e ex-assessor da Casa Branca no governo Nixon. Colson foi preso na década de setenta devido ao escândalo de Watergate. "A influência do islamismo atrás das grades não é acidental".

Redes extremistas como a Al Qaeda "descobrem que existem grupos de indivíduos convertidos nas prisões que podem se tornar parte das organizações", afirma Charles Bahn, professor de psicologia da Faculdade de Justiça Penal John Jay, em Nova York, e que realizou vários estudos com prisioneiros.

Reid, que possui passaporte britânico, e Padilla, que tem passaporte estadunidense, foram "capazes de ter acesso a certos locais e a fazer determinadas coisas sem problemas", devido às suas nacionalidades.

Lawrence Mamiya, professor de religião da Faculdade Vassar, em Poughkeepsie, Nova York, que estudou o islamismo nas prisões de Nova York, argumenta que, embora Reid e Padilla possam ter se convertido ao islamismo quando estavam na prisão, ou logo após terem sido soltos, eles não adotaram a modalidade radical da religião até bem depois de terem saído da penitenciária. "Tratou-se de um desvio", afirma Mamiya.

Mas Bahn retruca, dizendo que as sementes plantadas na prisão podem germinar após os prisioneiros terem sido libertados. Movidos pela culpa ou por uma sensação de vergonha, clérigos moderados às vezes terminam direcionando ex-presidiários para os núcleos mais militantes da religião, afirma Bahn.

Um outro fato quanto ao qual Bahn, Mamyia e outros indivíduos que estudaram a conversão ao islamismo na prisão concordam é que a grande maioria dos presidiários convertidos - a maior parte afro-americanos - inicialmente adota a religião muçulmana motivada pela sobrevivência, e não pelo extremismo político.

Em um mundo disciplinado a força, onde os prisioneiros costumam perder a sua identidade individual, o islamismo se torna "um estilo de vida que transforma aquilo sobre o que eles pensam, o que leram, e como vêem os crimes que cometeram", afirma Robert Dannin, autor de um novo livro sobre muçulmanos negros na prisão, "Black Pilgrimage to Islam" ("Peregrinação Negra ao Islamismo"). O islamismo se baseia na disciplina e na ordem, enfatizando as práticas sanitárias e a limpeza, acrescenta Dannin. Ele vê com bons olhos o aprendizado, algo que muitos dos novos praticantes podem nunca ter experimentado.

O islamismo fornece ainda uma rede de proteção contra as agressões tão comuns nas prisões, afirma Dannin, que é antropólogo.

No entanto, afirma, o islamismo dá aos prisioneiros afro-americanos um prisma através do qual eles podem se ver como indivíduos oprimidos que necessitam de um despertar espiritual e político.

"Muitos acabam vendo a si mesmos como prisioneiros políticos", diz Dannin.

As raízes islâmicas no sistema penitenciário dos Estados Unidos remontam aos anos quarenta e cinqüenta, uma época em que o mais famoso muçulmano negro da nação, Malcom X, foi convertido na prisão, enquanto cumpria pena por roubo em uma cadeia de Massachusetts.

Malcom X se tornou o principal seguidor de Elijah Muhammad, fundador da organização Nação do Islã. Nos anos sessenta e setenta, a organização se transformou na mais forte representação islâmica dentro do sistema penitenciário dos Estados Unidos.

O poder da Nação do Islã se tornou mais difuso nos últimos anos. Vários seguidores do islamismo dentro das prisões saíram da órbita de influência da Nação do Islã, e passaram a não se distinguir dos muçulmanos de nações do Oriente Médio, como a Síria, o Egito e o Iraque.

Dos 1,8 milhão de prisioneiros nos Estados Unidos, cerca de 873 mil - quase a metade - são afro-americanos, e 292 mil são hispânicos, segundo dados do Departamento de Justiça.

O governo federal não possui registros sobre a religião dos presidiários. Cerca de 20% dos presos são muçulmanos, segundo estudo da Associação Nacional de Clérigos Muçulmanos.

Os prisioneiros que se convertem a religiões - incluindo o islamismo - têm menos probabilidade de cometer novos crimes e de retornar a prisão, afirma Stalder, que, como secretário do Departamento de Segurança Pública e de Correções da Louisiana é um dos funcionários de maior escalão do setor de segurança pública do Estado.

Um estudo com 14 mil presos libertados em 2000 na Louisiana demonstrou que 33% retornaram a prisão, após violações dos termos da liberdade condicional ou por terem cometido novos crimes. Entre os que participaram de grupos religiosos na prisão, o índice de retorno à cadeia foi de 21,7%, segundo Stalder.

"Essas reduções são significativas", afirma Stalder. "Eu sugeriria que a capacidade de se reajustar à sociedade reflete, em muitos casos, os valores ensinados nos programas religiosos de nossas prisões".

Tradução: Danilo Fonseca

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