Ataques de 11/09 provocaram mudanças chaves na política militar

Eric Rosenberg
Hearst Newspapers
Em Washington (EUA)

Em 11 de setembro de 2001, a estratégia militar americana estava centrada na preparação de grandes batalhas de tanques na região do Golfo Pérsico e na Península Coreana, para defender os aliados americanos dos antigos adversários em Bagdá e Pyongyang.

Mas quando os ataques terroristas mostraram que o território americano -e não uma terra distante- estava ameaçada por um inimigo que carecia de tanques e artilharia, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, reconheceu que o establishment da defesa americana estava olhando na direção errada.

Os Estados Unidos se acostumaram com ameaças militares previsíveis como a União Soviética, o Iraque ou a Coréia do Norte. Mas os ataques de 11 de setembro contrariaram tal expectativa. "Os desafios do século 21 são muito menos previsíveis", disse Rumsfeld. "Quem imaginaria, há apenas alguns meses, que terroristas seqüestrariam aviões de passageiros, os transformariam em mísseis, e os usariam para atacar o Pentágono e as torres do World Trade Center?"

Os ataques inspiraram a nova política do presidente Bush de ataques preventivos, na qual as forças americanas atacarão qualquer nação que seja considerada uma futura ameaça, antes que a ameaça se torne realidade. Os ataques também forçaram grandes mudanças em como o Pentágono se prepara para a batalha.

Foi descartada a antiga estratégia -chamada teoria da guerra de dois grandes teatros de operação- que exigia a manutenção de uma força militar capaz de conduzir duas grandes guerras ao mesmo tempo, com os freqüentemente citados exemplos do Golfo Pérsico e da Coréia.

Em seu lugar entrou a doutrina da prevenção, delineada por Bush em um discurso de formatura em 1º de junho em West Point, onde ele argumentou que o país precisa "estar preparado para uma ação preventiva quando necessário para defender nossa liberdade".

O vice-presidente Cheney reforçou tal abordagem em agosto, afirmando que "ameaças graves estão se acumulando contra nós, e a inação apenas as deixarão mais perto de nós".

"Nós não esperaremos até ser tarde demais", ele acrescentou.

Mas atacar preventivamente um inimigo -sem uma provocação clara- poderá ter ramificações perigosas, segundo Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado. Ele alertou que Bush corre o risco de minar unilateralmente a lei internacional. "A reação mais interessante e potencialmente fatídica poderá ser a da Índia, que poderia ficar tentada a aplicar o novo princípio da prevenção em relação ao Paquistão", escreveu Kissinger em uma recente coluna de opinião. "Não é do interesse nacional americano estabelecer a prevenção como princípio universal para todos os países", ele acrescentou. G. John Ikenberry, um especialista em política externa da Universidade de Georgetown, chamou a estratégia de prevenção de um exemplo de "neo-imperialismo" americano, que poderia arruinar a estatura americana no mundo.

"A nascente grande estratégia neo-imperial da América ameaça rasgar o tecido da comunidade internacional e parcerias políticas precisamente em uma época em que esta comunidade e estas parcerias são urgentemente necessárias", escreveu Ikenberry na atual edição da revista Foreign Affairs.

"É uma abordagem cheia de riscos e com grande probabilidade de fracassar. Ela não é apenas politicamente insustentável, mas diplomaticamente danosa. E se a história serve como guia, ela provocará antagonismos e resistências que deixarão a América em um mundo mais hostil e dividido", ele escreveu. Outras mudanças pós-11 de setembro que Rumsfeld e seus assessores adotaram são:

- Transformação das forças armadas: os ataques terroristas forneceram o apoio para Rumsfeld implementar um plano de grande alcance para tomar mais eficiente a desajeitada burocracia militar e remodelar as forças para serem mais ágeis e para que possam ser mais facilmente distribuídas ao redor do globo.

Na prática, a transformação significa uma maior dependência na tecnologia da informação, em aeronaves não tripuladas, forças capazes de se deslocar mais rapidamente, e menos dependência em equipamento pesado como tanques.

As operações militares americanas no Afeganistão exemplificam o que Rumsfeld e seus principais comandantes têm em mente quando falam em transformação. Naquele conflito que teve início em 7 de outubro, bombardeiros B-52 de 50 anos lançaram armas táticas de precisão, Forças Especiais americanas montadas a cavalo pediam ataques aéreos e ajudavam os rebeldes afegãos a ganhar rapidamente a vantagem no campo de batalha, enquanto aviões não tripulados Predator forneciam vigilância e lançavam mísseis contra posições inimigas.

-Cancelamento do Crusader: como parte da transformação, Rumsfeld tomou uma das decisões mais controversas de seu mandato e cancelou os canhões gigantes Crusader. Rumsfeld disse que o canhão -que pesava mais de 80 toneladas- era simplesmente pesado demais para o Exército arrastá-lo pelo mundo atrás de terroristas.

- Defesa interna: o Pentágono criou um comando militar para defesa contra ataques terroristas. Antes dos ataques, a defesa dos Estados Unidos era dividida entre comandos militares separados, com ninguém encarregado pelo que a maioria dos planejadores militares consideravam uma baixa prioridade e um trabalho principalmente para a Guarda Nacional e para as agências de manutenção da lei.

O novo Comando do Norte dos Estados Unidos, que iniciará suas operações em 1º de outubro, ficará encarregado das patrulhas de combate aéreo sobre as cidades americanas, da guarda das águas costeiras e em responder a grandes ataques terroristas.

- Tratado de Mísseis Antibalísticos: citando os ataques terroristas, o governo Bush se retirou do tratado de 1972 que proibia a implementação de um sistema nacional de defesa antimísseis para abater mísseis balísticos intercontinentais.

"Como os eventos de 11 de setembro deixaram claro, nós não vivemos mais no mundo da Guerra Fria para o qual o Tratado de Mísseis Antibalísticos foi criado", disse Bush. "Nós agora enfrentamos novas ameaças, de terroristas que buscam destruir nossa civilização por quaisquer meios disponíveis até estados inamistosos dotados de armas de destruição em massa e mísseis de longo alcance", disse o presidente.

Mas os críticos argumentam que Bush minou a segurança internacional ao se retirar de um tratado que era a pedra angular da estabilidade do controle de armas com a Rússia.


Tradução: George El Khouri Andolfato

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