Em caso de guerra, Iraque poderá contar com satélites espiões

Eric Rosenberg
Hearst Newspapers
Em Washington (EUA)

Caso o presidente Bush ordene um ataque contra o Iraque, os comandantes militares dos Estados Unidos teriam que se defrontar com um recurso potencial que não estava à disposição de Saddam Hussein durante a Guerra do Golfo Pérsico de 1991. Desta vez, Bagdá provavelmente terá acesso a sofisticados satélites espiões que ajudariam os iraquianos a reduzir o impacto de qualquer ataque norte-americano.

Durante os preparativos para a Guerra do Golfo, 12 anos atrás, os Estados Unidos tinham o monopólio das fotografias tiradas por satélites, uma vantagem que ajudou a assegurar uma vitória rápida.

Naquela época, somente os Estados Unidos, a Rússia - um país aliado na Guerra do Golfo - e uma empresa francesa privada - a Spot Image - possuíam satélites capazes de fornecer a Hussein fotografias do campo de batalha e da concentração de forças aliadas. Com um número tão reduzido de países participando do setor de imagens de satélites, as autoridades norte-americanas organizaram com facilidade um embargo de imagens de satélites para Bagdá.

Em dois de agosto de 1990, a Spot vendeu a Bagdá cerca de 20 fotografias de alta definição tiradas por satélites, ao preço de US$ 3 mil (cerca de R$ 9.500) cada, anunciou a companhia, em 1991. Após a invasão, a Spot concordou em obedecer às sanções comerciais impostas pela ONU contra o Iraque e interrompeu a venda de imagens de satélites a Bagdá.

Após ter cessado o fornecimento de tais fotos, os EUA e os seus aliados puderam preparar uma grande campanha militar de tanques praticamente em segredo. O resultado foi o famoso "gancho de esquerda" no oeste do Iraque, que isolou e esmagou a Guarda Republicana iraquiana em menos de 100 horas. No decorrer da batalha, os comandantes militares dos EUA utilizavam as suas próprias imagens de satélites para determinar onde estavam as forças de Saddam Hussein, os seus centros de comando, as instalações de radar e os quartéis.

Caso Saddam tivesse recebido um fluxo contínuo de imagens de satélite do campo de batalha, em 1991, a vitória dos EUA poderia ter sido demorada e os aliados talvez tivessem sofrido mais baixas.

Desde a Guerra do Golfo, o número de países e empresas privadas que possuem satélites espiões aumentou muito. Além dos EUA, da França e da Rússia, atualmente possuem satélites o Canadá, a China, o Brasil, um consórcio europeu, a Índia e Israel. E mais países deverão contar com esse recurso dentro dos próximos cinco anos.

"No momento, a capacidade do Iraque em observar o que se passa na região do Golfo é inacreditavelmente maior, comparada a uma década atrás, já que hoje existem imagens comerciais à venda", afirma James Lewis, especialista em satélites do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, uma organização de pesquisas sobre o setor militar.

Os estrategistas militares norte-americanos estão preocupados com a possibilidade de que Hussein possa comprar serviços de satélites de empresas privadas ou de governos amigos, conforme o negócio feito com a Spot Image, antes da Guerra do Golfo. De posse de tais imagens, ele poderia ser capaz de determinar se tropas norte-americanas estariam a caminho, de que direção viria um ataque, se países árabes estariam fornecendo secretamente bases aos norte-americanos e onde estariam sendo armazenados armamentos.

"Caso eles tenham acesso a tal recurso, esse fato seria muito ruim", afirma Peter Teets, diretor do Departamento Nacional de Reconhecimento, a agência governamental que fabrica e opera os satélites espiões da nação. "Esse tipo de informação é muito valiosa para qualquer operação bélica".

Caso os EUA se envolverem em um conflito com uma nação que tenha acesso à essa tecnologia, "é importantíssimo que neguemos ao adversário desfrutar de tal vantagem", acrescenta Teets.

As autoridades norte-americanas se recusam a dizer como isso poderia ser feito, no caso de uma outra guerra entre os Estados Unidos e o Iraque.

Joan Mears, porta-voz da Agência de Mapeamento e Imagens do Pentágono, disse que "não pode especular sobre o tipo de providência que teria melhor resultado no caso de um evento futuro".

"Estamos cientes de que outras nações possuem recursos de coleta de imagens contra os quais temos que nos proteger. Como seria possível fazer um embargo comercial que incluísse imagens produzidas por países estrangeiros? Como controlar as instalações de outros governos? Quando se fala sobre vulnerabilidades, é necessário que se leve em conta todas as facetas do problema", acrescenta a porta-voz, que se recusou a fornecer respostas para tais questões.

Apoio ao Iraque

Especialistas em satélites dizem que as autoridades norte-americanas podem tentar exercer pressão sobre países dotados dessa tecnologia para que não forneçam imagens da região do Golfo Pérsico a Saddam Hussein. O país pode ainda tentar fazer acordos com as várias empresas de satélites do globo para que bloqueiem efetivamente a transmissão de imagens, como se fez com o Spot, durante a Guerra do Golfo, e com uma empresa norte-americana de satélites no ano passado, durante o conflito no Afeganistão. Mesmo assim, o número de atores internacionais nessa área - vários deles de nações contrárias a qualquer ataque dos Estados Unidos ao Iraque - torna ambas as opções difíceis.

"Se alguém, secretamente, acha que nós não devemos invadir o Iraque, poderia fornecer aos iraquianos todos os dados que eles desejam", diz William Stoney, especialista em satélites da Mitretek Systems, uma organização de pesquisas científicas sem fins lucrativos de Falls Church, Virginia.

Lewis concorda que o controle norte-americano sobre imagens de satélite no caso de outra guerra no Golfo Pérsico seria um grande problema a ser superado. "Não tenho 100% de certeza de que os chineses, os russos e os franceses deixariam de ajudar Saddam Hussein", afirma.

Autoridades norte-americanas vêm advertindo nos últimos anos que a sua capacidade de travar guerras futuras pode ser prejudicada pelo número crescente de governos e companhias privadas que operam satélites espiões.

O diretor da CIA, George Tenet, disse, no início deste ano, que os EUA estariam perdendo a sua vantagem no campo de imagens de satélites.

"A vantagem espacial única da qual os EUA desfrutaram nas últimas décadas está diminuindo à medida que outros países - inclusive a China e a Índia - colocam em órbita satélites de reconhecimento cada vez mais sofisticados", disse Tenet, perante uma comissão do Senado, em abril deste ano. "Forças armadas estrangeiras, agências de inteligência e organizações terroristas estão tirando vantagem desse fato, e também da disponibilidade dos serviços comerciais de navegação e comunicação, para aprimorar o planejamento e a execução de suas operações", afirmou Tenet.

Gil Klinger, que, à época, era diretor de políticas do Departamento Nacional de Reconhecimento, disse em 1999 que inimigos dos EUA poderiam ter acesso a satélites capazes de fornecer imagens de atividades no solo com uma resolução de um metro".

"Infelizmente, os nossos inimigos podem contar com imagens essa resolução de um metro de locais como, por exemplo, o Pentágono ou a Casa Branca", afirmou Klinger. "Poderemos nos defrontar com um perigo nítido, caso os Husseins e Milosevics do mundo obtiverem controle sobre tais tecnologias e informações".

Mark Brender, diretor-executivo de assuntos governamentais da Space Imaging, uma empresa comercial norte-americana de imagens de satélites, com sede em Thornton, no Colorado, afirma que a proliferação de companhias de satélite tem implicações militares diretas.

"Essa tecnologia costumava ser monopólio dos governos, mas agora está se deslocando do 'mundo negro' da inteligência para o 'mundo branco' do comércio", afirma. "A nova questão que se apresenta é, agora que essa tecnologia está disponível para todos, como esse fato vai mudar as estratégias militares?".

Tradução de Danilo Fonseca

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