Salvadora de reféns é presa na Colômbia por ligação com guerrilheiros

John Otis
Houston Chronicles
Em Bucaramanga (Colômbia)

Quando os guerrilheiros marxistas seqüestraram Jaime Rodríguez, um ex-prefeito desta cidade colombiana, uma mulher com jeito para mediação e um Rolodex cheio de contatos rebeldes foi às montanhas para trazê-lo de volta. Maria Victoria Hernández passou dois dias adulando, brincando e implorando aos comandantes rebeldes até eles concordarem em libertar seu refém.

Mas enquanto Maria levava o político de volta para Bucaramanga, outros guerrilheiros pararam sua camionete apontando armas. Eles também queriam seqüestrar Jaime Rodríguez. Uma inabalável Maria persuadiu os guerrilheiros a desistirem.

Uma assessora próxima do governador do estado de Santander no norte, Maria ajudou a libertar cerca de 30 pessoas seqüestradas pelos guerrilheiros desde o final dos anos 1990.

Agora, as autoridades colombianas alegam que há um segredo sombrio por trás de seus poderes de persuasão. Maria Victoria Hernández, 44 anos, foi presa sob acusação de que é um alto membro do Exército de Libertação Nacional, conhecido como ELN, o menor dos dois principais grupos rebeldes da Colômbia.

Sua prisão em agosto reflete a crescente preocupação com a infiltração dos guerrilheiros nos governos locais, estaduais e federais, um fenômeno que muitos dizem ajudar a explicar o motivo da guerra civil da Colômbia se arrastar por quase quatro décadas.

Ao infiltrar simpatizantes ou rebeldes ativos em postos de governo, os grupos guerrilheiros podem ganhar acesso à informações sensíveis e influenciar decisões orçamentárias, nomeações de pessoal ou contratos de obras públicas.

O general Martin Carrero, o comandante da divisão do exército colombiano baseada em Bucaramanga, disse que a situação está tão ruim que guerrilheiros estão "co-governando" estados e municípios em algumas áreas do país. Maria Hernández insiste em que é inocente e diz que teve que manter laços amistosos com os rebeldes para assegurar a libertação dos reféns.

O ELN e seu primo rebelde maior, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc, ganham milhões de dólares a cada ano seqüestrando civis em busca de resgate.

"Se você pede a liberdade de alguém para os rebeldes, você não pode chegar com pedras nas mãos. Você precisa tocar seus corações", disse Maria em uma entrevista por telefone a partir do presídio feminino em Bucaramanga. "Eu sou muito expansiva. Eu cumprimento as pessoas com um abraço e um sorriso", ela acrescentou. "Mas tudo isto foi interpretado erroneamente".

Maria é acusada de colaborar com os líderes do ELN para assegurar moradias financiadas pelo estado e outros programas sociais em áreas dominadas pelo grupo guerrilheiro.

Segundo as autoridades, tais esquemas ajudaram o ELN a manter um grau de apoio público em uma época em que a organização rebelde estava obtendo pouco progresso no campo de batalha.

"O ELN sabe que não pode vencer a guerra", disse um oficial de inteligência do exército colombiano que pediu para permanecer anônimo. "Então ele quer usar os programas do governo para conquistar a população".

Em certas regiões do país, candidatos a vereador, prefeito e governador devem receber o endosso dos grupos rebeldes antes de poderem realizar a campanha em segurança. Assim que chegam ao poder, espera-se deles que dediquem parte de seus orçamentos aos rebeldes e aprovem contratos de obras públicas ligados aos grupos guerrilheiros. Aqueles que se recusam são seqüestrados ou mortos.

Segundo o analista militar colombiano Alfredo Rangel, os exércitos rebeldes são capazes de ditar como os recursos públicos são alocados em cerca de 20% do país. Como resultado, ele disse, os grupos guerrilheiros recebem de 5% a 10% do dinheiro destinado a obras públicas.

Alarmado com a penetração das guerrilhas nas instituições oficiais no estado de Arauca no norte, o presidente Álvaro Uribe declarou estado de emergência na província no mês passado e substituiu o governador por um indicado seu, um coronel aposentado do exército. A polícia prendeu em seguida um punhado de políticos de Arauca por supostos laços com o ELN e os Farc.

Jorge Gómez, o governador do estado de Santander, insiste em que seu governo não é um covil de espiões da guerrilha. Ele acredita que Maria, que serviu como sua consultora em questões de habitação, será exonerada quando for a julgamento no ano que vem.

"Eu conheço ela muito bem", disse Gómez em uma entrevista. "Ela não está ligada a nenhum grupo guerrilheiro".

Segundo ele, qualquer projeto de ajuda realizado nas áreas rurais poderia ser considerado como favorecendo os rebeldes, já que os grupos guerrilheiros controlam grande parte do interior colombiano.

"Se o presidente Uribe construir uma estrada que atravesse Santander, vocês também vão acusá-lo de ajudar as guerrilhas?" perguntou Gómez.

Mas as autoridades colombianas também dizem que têm um caso sólido contra Maria, uma mãe divorciada de dois filhos.

Como membro da comissão estadual de Santander para promoção da paz com as frentes guerrilheiras locais, Maria viajou com freqüência até as zonas do ELN para atuar como mediadora nos casos de seqüestro. Eventualmente, disseram as autoridades, ela fez amizade com os guerrilheiros e acabou tendo casos com dois comandantes regionais do ELN.

As evidências contra Maria Hernández incluem cartas de amor, conversas telefônicas gravadas e o testemunho de dois rebeldes do ELN capturados, disseram os investigadores do governo.

Segundo as autoridades, Maria ajudou os líderes do ELN a traçar os planos públicos de habitação para as zonas dominadas pela guerrilha em Santander. Maria, elas alegam, usou sua posição dentro do governo para conduzir os projetos pela burocracia estadual.

"Se a guerrilha pode aprovar 100 casas, eles conquistam 100 novos amigos", disse o oficial de inteligência do exército.

A informação contida nos computadores confiscados do ELN incluem propostas de habitação que eram quase idênticas aos projetos defendidos por Maria Hernández, acrescentaram as autoridades.

Alguns dos programas foram administrados por uma organização de ajuda privada, chamada Cidhe, que Maria ajudou a fundar. A Cidhe também está sob investigação por supostas ligações com o ELN.

O caso de Maria Hernández está deixando algumas pessoas em Bucaramanga nervosas, disseram os observadores. Muitos acreditam que Maria pode revelar os nomes de outros funcionários públicos que estão colaborando com o ELN.

O advogado dela se recusou a falar sobre sua cliente. Dois outros advogados largaram o caso após receberem ameaças de morte anônimas.

Ainda assim, Maria Hernández parece ter muitos apoiadores. "Ela se envolveu profundamente no esforço para a minha libertação", disse Rodríguez, o ex-prefeito de Bucaramanga que ficou refém do ELN por oito dias em 2000. "É difícil acreditar que ela está presa".

Clara Rojas, que serviu na comissão de paz de Santander e viajava freqüentemente com Maria até as áreas dominadas pelos rebeldes, disse que a mediadora presa está sendo difamada.

"Só porque você trata bem os guerrilheiros não significa que você esteja dormindo com eles", disse Clara.

Mas o oficial da inteligência do exército descreveu a prisão de Maria como um grande golpe contra o ELN, um mais importante do que capturar um soldado rebelde comum.

"Um guerrilheiro com um rifle nas montanhas está relativamente isolado. Mas Maria canalizou ajuda para centenas de guerrilheiros", argumentou o oficial.

Se condenada, Maria Hernández pode cumprir até nove anos atrás das grades. "Você não pode imaginar o sofrimento que estou passando", disse Maria, chorando, na entrevista por telefone. "Estas acusações não são verdadeiras. Era tudo trabalho humanitário".

Tradução de George El Khouri Andolfato

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