Bush transferiu o foco da campanha para a guerra

Stewart M. Powell
Hearst Newspapers
Em Washington (EUA)

Por alguma razão, logo no início desta campanha eleitoral, o presidente Bush transferiu o centro do debate político para o Iraque e o terrorismo, e afastou o foco das incertezas econômicas e corrupção corporativa.

Como resultado, obteve vitória histórica nas eleições do Congresso, no meio de seu mandato. Democratas fumegantes reclamaram que suas mensagens econômicas não atingiram os eleitores, por causa da ênfase do presidente na segurança nacional.

Talvez Karl Rove, sagaz estrategista político da Casa Branca, já soubesse disso em janeiro. Na ocasião, disse aos republicanos que, se usassem a guerra na campanha, teriam bons resultados.

"Podemos falar sobre isso ao país, porque o povo confia mais no Partido Republicano para proteger os EUA e reforçar o exército americano", confidenciou Rove.

Funcionou. Bush teve a vitória presidencial mais estreita em um século. Agora, garantiu a maior vitória republicana nas eleições de meio mandato para a Câmara e o Senado desde 1856.

Enron? WorldCom? Harvey Pitt? Bush relegou essas questões preocupantes às páginas de economia ao fazer campanha como comandante das Forças Armadas. Anunciou sucessos na guerra contra o terrorismo e fez ameaças de ataque militar para compelir o desarmamento iraquiano. Ele insistiu no assunto nos discursos na ONU, em Nova York e na campanha. Visitou 27 Estados, aparecendo ao lado de 16 candidatos ao Senado, 23 à Câmara e 22 ao governo.

Bush pressionou o Congresso para que autorizasse ataques militares contra o Iraque sem aviso, por qualquer razão, a qualquer hora. Os congressistas aprovaram resolução prontamente. Para assiná-la, o presidente montou uma cerimônia dramática na Casa Branca. A medida era desnecessária, mas ajudou a manter a questão de segurança nacional no centro das atenções do público americano.

A tinta mal tinha secado na resolução do Iraque quando a Casa Branca, subitamente, revelou que a Coréia do Norte tinha admitido, mais de duas semanas antes, que ela também tinha violado acordos internacionais e procurava material para produzir armas nucleares.

Também dentro do país, os americanos foram relembrados de sua própria vulnerabilidade. O FBI emitiu alertas de terror nos dias 9 e 23 de outubro. Alegou ter descoberto unidades terroristas em Lackawanna, Nova York, Pacific Northwest e Detroit.

Dois atiradores espreitaram comunidades residenciais, em torno da capital do país, por três semanas, fazendo ataques de tanto sangue frio que as famílias atemorizadas se perguntavam se não seriam da Al Qaeda.

Essas ansiedades, junto com o retumbar de tambores de Bush, dificultaram a vida dos democratas, enquanto brigavam pela atenção dos eleitores. Ficou difícil tirar a atenção dos eleitores de assuntos de vida ou morte e concentrá-la nos escândalos corporativos e dificuldades econômicas que poderiam ter fortalecido os candidatos democratas nas urnas.

"Às vezes era muito difícil passar nossa mensagem, romper a barreira", lamentou o democrata Terry McAuliffe.

Tom Daschle, democrata de Dakota do Sul, agora deixa de ser líder da maioria no Senado. Segundo ele, a insistência de Bush no combate ao terrorismo e uma possível guerra contra o Iraque empurraram para o segundo plano assuntos favoráveis aos democratas. Daschle acrescentou: "O presidente quis assim, fez disso seu rufar de tambores".

Presidente da Federação Americana de Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), John J. Sweeney, força democrata, disse que a campanha de seu partido baseada na economia foi fraca. "Não fez competição ao foco do presidente no Iraque".

A vitória dos republicanos na Câmara e no Senado foi sem precedentes, graças à resposta de Bush aos ataques terroristas de 11 de setembro, disse o próximo líder da maioria no Senado, Trent Lott, republicano de Mississippi.

"Não se pode ignorar o fato que os EUA mudaram no dia 11 de setembro", disse Lott. Os eleitores "têm confiança na liderança do presidente, em sua guerra contra o terrorismo e a Al Qaeda".

Talvez os críticos tracem paralelos entre a estratégia de sucesso de Bush nas eleições e o filme "Mera Coincidência", comédia de 1998. No filme, Washington une-se a um produtor de Hollywood para fabricar uma crise estrangeira e recuperar a popularidade decrescente de um presidente buscando se reeleger.

O material promocional do filme anunciava: "Ficção com reflexos históricos. 'Mera Coincidência' explora os limites confusos entre a política, a mídia e o entretenimento, mais tênues que muitos gostam de admitir".

O filme tornou-se metáfora para políticos que se beneficiam de crises estrangeiras. Poucos meses depois de seu lançamento, o presidente Bill Clinton enviou ataques militares ao Iraque durante o escândalo de Mônica Lewinsky e o processo de impeachment. Alguns políticos brincalhões sugeriram que estava tirando lições do filme.

Qualquer que tenha sido a estratégia de Clinton, funcionou. Os democratas tiveram conquistas históricas na Câmara, nas eleições no meio de seu mandato, em 1998. Três meses depois, o Senado liderado pelos republicanos, talvez influenciado pelo resultado, desistiu de tirá-lo do cargo.

Alguns críticos agora poderão fazer a mesma sugestão sobre Bush.

O presidente continuará a ressaltar seu papel como comandante das forças armadas, enfatizou Fleischer, na quarta-feira. "O presidente tem muito orgulho de defender este país. Estamos no meio de uma guerra contra o terrorismo, e o presidente continuará a fazer todo o possível para combater e vencer esta guerra", disse Fleischer.

Tradução: Deborah Weinberg

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