Bush pedirá a Putin uma solução política para Tchetchênia

Stewart M. Powell
Hearst Newspapers
Em Washington (EUA)

O presidente Bush deve pressionar o presidente russo Vladimir Putin a fechar um acordo político com os guerrilheiros tchetchenos, durante reunião na próxima sexta-feira. Os combatentes pedem independência da sua república predominantemente islâmica.

Bush fará uma parada na cidade natal do líder russo, São Petersburgo, para mostrar sua apreciação pela expansão da Otan, pela primeira vez, em ex-território soviético.

A assessora de segurança interna, Condoleezza Rice, disse que Bush também condenará ataques terroristas contra civis, como fez Putin depois do seqüestro do teatro em Moscou. O atentado deixou 118 reféns mortos -117 deles vitimados por um gás anestésico usado por soldados russos que invadiram o teatro.

"Terrorismo nunca poderá ser um método legítimo, de nenhuma causa", disse Rice. O presidente se prepara para uma viagem de cinco dias pela Europa, que está concentrada na reunião da Otan, aliança de 19 nações do Ocidente.

Rice disse que Bush colocará de lado a opinião de Putin que a campanha tchetchena pela independência é outra faceta da campanha terrorista mundial de Osama bin Laden.

"Ainda acreditamos que a melhor forma de resolver esta situação é por solução política que possa envolver as aspirações legítimas do povo tchetcheno", disse Rice.

Os EUA continuarão seu movimento mundial para dizimar a Al Qaeda. Ao mesmo tempo, exortará o Kremlin a negociar com guerrilheiros tchetchenos, que têm, em suas fileiras, homens treinados em campos terroristas patrocinados por Bin Laden.

"Não é uma questão de dois pesos e duas medidas", insistiu Rice. "O terrorismo é condenável onde quer que seja --se praticado na Tchetchênia ou nas ruas de Moscou, em Nova York ou Berlin. Isso dito, as circunstâncias políticas (da Tchetchênia) precisam ser consideradas".

Putin expressa cada vez mais raiva diante das táticas da campanha pela independência da Tchetchênia. Ela mantém as forças russas atoladas na região sul, em situação similar ao Vietnã, e levou a ataques terroristas contra civis em outras partes na Rússia.

A raiva de Putin entrou em ebulição depois de uma reunião de cúpula da União Européia em Bruxelas, no dia 12 de novembro. Putin fez uma observação rude em resposta a um repórter francês, que perguntara sobre o uso de armas pesadas da Rússia contra civis na Tchetchênia.

"Se você quiser se tornar um radical islâmico e quiser ser circunciso, convido-o a vir para Moscou. Pediria àquele que executasse a cirurgia que fizesse um bom trabalho".

A circuncisão masculina é uma prática islâmica.

Autoridades da Casa Branca disseram que esperavam que Bush e Putin pudessem contar com o pragmatismo e facilidade de compreensão que caracterizaram os encontros entre dois líderes no passado.

As questões a serem discutidas incluem:

- O ataque ao Iraque. Bush deve oferecer a Putin recompensa concreta pelo apoio do Kremlin na resolução unânime do Conselho de Segurança da ONU, sobre as armas iraquianas de destruição em massa.

Mark Brzezinski, que serviu no Conselho de Segurança Nacional do governo Clinton, fez uma estimativa das expectativas do Kremlin: Que os EUA garantissem o pagamento iraquiano da dívida de US$ 8 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) da época soviética; parte significativa do futuro comércio de petróleo iraquiano e maior flexibilidade para lutar contra guerrilheiros tchetchenos na nação adjacente da Geórgia.

"Cabe ao presidente Bush convencer nossos parceiros internacionais a não explorar a guerra ao terrorismo, mas a unirem-se a nós para combatê-lo", escreveu Brzezinski, em uma coluna no New York Times.

- Coréia do Norte. Bush pedirá ajuda de Putin para persuadir o regime recluso de Kim Jong Il a desistir de seu projeto secreto de desenvolvimento de uma bomba atômica.

EUA, Coréia do Sul, Japão e a União Européia suspenderam entregas de petróleo para a Coréia do Norte até que o regime desmantele sua planta, recém descoberta, de enriquecimento de urânio. A Coréia do Norte concordou, em 1995, a abandonar projetos de construção de armas nucleares, em troca de 500.000 toneladas de petróleo pesado por ano e da construção de reatores nucleares geradores de energia, que não fossem capazes de produzir o urânio enriquecido necessário para armas nucleares.

Na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética liberou a Coréia do Norte da ocupação japonesa e, depois, apoiou a invasão norte-coreana da Coréia do Sul, em 1950. A Rússia, portanto, tem laços mais próximos com a Coréia do Norte do que os EUA.

Putin recebeu o líder norte-coreano em uma reunião em Vladivostok, em agosto. Seu governo ajudou a marcar um encontro entre o secretário de estado Colin Powell e o ministro de Relações Exteriores da Coréia do Norte, Paek Nam Sun, no verão passado.

- Potenciais fatores de irritação: O governo Bush parece querer usar incentivos comerciais para modificar os seguintes acordos russos: de US$ 40 bilhões de investimento russo no Iraque, em 10 anos, e de US$ 800 milhões no Irã, para construir um reator nuclear, no litoral do Golfo Pérsico.

O programa imposto pela ONU, de troca de petróleo por alimentos, governa as exportações de petróleo iraquianas. Assim, 40% do seu petróleo é exportado por intermediários russos, gerando US$ 1 bilhão por ano para a economia russa. O governo Bush poderia oferecer ao Kremlin fatia maior da indústria de petróleo iraquiana após a queda de Hussein.

O governo Bush já ofereceu a Putin a possibilidade de um projeto de US$ 10 bilhões (aproximadamente R$ 37 bilhões), para armazenar material radioativo em torno do mundo, como um incentivo para abandonar sua cooperação com o Irã. O Departamento de Estado diz que, se o Kremlin parar de dar assistência ao Irã, terá vantagens "econômicas, políticas e estratégicas muito maiores do que qualquer outra de curto prazo que obtém com as transferências para o Irã".

Bush se encontrará com Putin depois que a Otan, de 53 anos, convidar para inclusão sete nações do Leste europeu, inclusive três repúblicas bálticas ocupadas por forças soviéticas na Segunda Guerra Mundial --Lituânia, Estônia e Letônia.

Bush se reunirá com Putin, na Lituânia, celebrando sua inclusão na Otan. A nação, de 3,5 milhões de habitantes tem o tamanho do estado da Virgínia Ocidental. Depois, vai à România, para marcar a inclusão da nação do Mar Negro, antes de fechar sua viagem de cinco dias na Europa, no sábado.

Tradução: Deborah Weinberg

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