Europeus enfrentam irrelevância militar na Otan

Stewart M. Powell e Eric Rosenberg
Hearst Newspapers
Em Washington (EUA)

O presidente norte-americano George W. Bush e os líderes dos outros 18 países membros da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) se reúnem em Praga nesta semana para planejar uma força de deslocamento rápido construída com base em contribuições "especializadas" dos países europeus, que não estão dispostos ou não s/ao capazes de acompanhar os gastos dos Estados Unidos com a defesa.

O objetivo é criar uma força permanente de prontidão, com cerca de 20 mil soldados, que poderia começar a se deslocar para as áreas de conflito em prazo de sete dias, e se sustentar independentemente, em condições de combate 24 horas por dia, por até um mês de operação contínua.

A criação de uma força de emergência como essa é o mais recente esforço da aliança formada na guerra fria para descobrir um novo propósito, depois do sucesso de sua missão original, defender a Europa Ocidental contra qualquer ataque militar do bloco soviético.

Como símbolo da nova ordem mundial em construção, a Otan também deve convidar sete países da Europa Oriental que no passado eram dominados por forças soviéticas para se integrar à aliança.

O secretário geral da Otan, George Robertson, antigo ministro da Defesa do Reino Unido, visitou as capitais dos países aliados antes da conferência de cúpula de Praga para averiguar que contribuições específicas os países membros da aliança poderiam fazer para a nova força de deslocamento rápido da Otan. Sua lista de contribuições:

- A República Tcheca foi convidada a oferecer especialistas treinados na detecção e defesa contra ataques químicos e biológicos;

- A Alemanha foi convidada a coordenar a aquisição de aviões de transporte militar de longo alcance, por meio de uma operação de arrendamento de transportes C-17 da Força Aérea dos Estados Unidos. Em toda a Europa, existe no momento menos de uma dúzia de aviões de transporte militar de fuselagem larga projetados para transportar soldados e material. Os Estados Unidos dispõem de pelo menos 250 desses aviões;

- A Espanha foi solicitada a obter aviões-tanque de reabastecimento aéreo para ajudar no transporte da nova força;

- A Noruega foi solicitada a oferecer forças de operações especiais treinadas por seu quadro de comandos especializados em guerra de inverno;

Aos holandeses cabe comandar o esforço pela obtenção de mais armas inteligentes para a nova força aliada;

- A Romênia, que deve receber um convite para se integrar à Otan durante a conferência de Praga, fornecerá tropas especializadas em guerra de montanha ou unidades de polícia militar.

As contribuições dos países aliados foram calculadas de maneira a cobrir o "diferencial de capacidade" entre as forças militares dos Estados Unidos e da Europa, que se vem alargando ao longo das duas últimas décadas devido ao investimento profundo dos norte-americanos na pesquisa, desenvolvimento e aquisição de armas.

Os Estados Unidos planejam gastar US$ 355 bilhões em defesa este ano -mais que o dobro dos US$ 160 bilhões em gastos dos membros europeus da Otan.

Robertson lamenta que as forças armadas européias sejam "um pigmeu militar" se comparadas às norte-americanas, acrescentando que "na Europa, a mensagem que me cansei de repetir é que a questão é modernização ou marginalização".

As contribuições desequilibradas à defesa da aliança vêm sendo uma fonte de atrito entre os membros da Otan dos dois lados do Atlântico há décadas.

Alguns apontam para essa imensa disparidade como prova de que os Estados Unidos estão gastando demais. Outros dizem que a distância demonstra que os europeus não gastam o suficiente.

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, sediado em Londres, uma organização de pesquisa sobre assuntos militares e internacionais sem afiliação política, recentemente concluiu que os baixos dispêndios dos europeus com a defesa e o investimento norte-americano consideravelmente mais elevado "indicam uma continuação e até mesmo uma ampliação do 'diferencial de capacidades' entre os Estados Unidos e a Europa".

Um relatório do comitê de Defesa do Parlamento britânico advertia no trimestre passado que as forças armadas européias não poderão continuar operando com as dos Estados Unidos caso essa tendência se mantenha por muito mais tempo. Se os aliados não concordaram em elevar seus gastos com defesa nas tecnologias e sistemas de armas principais de que carecem hoje em dia, "o desequilíbrio continuará a crescer e os elos de operação integrada entre os Estados Unidos e seus aliados europeus serão rompidos", afirmava o relatório.

A Otan tem 19 países membros -Alemanha, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Holanda, Hungria, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Turquia e Estados Unidos.

A conferência de cúpula da Otan em Praga deve resultar em convites a mais sete nações: Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia e Romênia.

Uma vez que o tratado da Otan compromete os países membros da aliança a defenderem uns aos outros, a diferença de capacidade está se ampliando em um momento em que os compromisso de segurança da aliança se estendem, devido à adesão de novos membros.

O diferencial ficou claro durante os conflitos na Bósnia (1995), Kosovo (1999) e Afeganistão (2001), nos quais as Forças Armadas dos Estados Unidos arcaram com a maioria esmagadora das operações, que incluíram pesado uso de ataques aéreos de precisão.

Os arsenais da defesa européia carecem da espécie de arma que terminou por se tornar a pedra básica da guerra moderna.

O mesmo pode ser dito sobre a Guerra do Golfo, em 1991, quando os Estados Unidos forneceram o grosso do poder de fogo e das capacidades de transporte necessária a conduzir as forças ao campo de batalha, bem como a logística requerida para sustentá-las no deserto meses a fio.

Não é que falte armas aos europeus. Em lugar disso, as armas de que eles dispõem foram projetadas para deter uma invasão soviética, e não para operações que podem exigir que as forças operem perto de centros civis de população. Apenas cerca de 10% dos 2,8 mil caças e aviões de ataque europeus têm a capacidade de atacar de dia ou de noite, usando munições de precisão bastante comuns no arsenal dos Estados Unidos.

Os aliados europeus da Otan dispõem de dois milhões de soldados, meio milhão a mais do que os Estados Unidos, mas não podem conduzi-los rapidamente a um ponto de conflito porque lhes faltam aviões de transporte.

Pode-se alegar em defesa dos líderes europeus que os gastos com defesa, na opinião deles, não contam toda a história. Washington é pelo menos parcialmente responsável pelo diferencial de capacidades, porque não permite que a tecnologia norte-americana mais avançada seja transferida à indústria da defesa européia.

"Se os Estados Unidos querem que os europeus compartilhem das responsabilidades e riscos acarretados pelas ameaças atuais, precisam estar preparados para lhes transferir a tecnologia necessária à modernização das forças armadas européias", disse Robertson, acrescentando que os Estados Unidos têm de "remover os álibis".

O general James Jones, do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, que assumirá em breve o comando da Otan, disse que há indicações de que os aliados europeus estão dispostos a fazer mais. Alguns países da Otan estão criando capacidades de guerra anfíbia. E os governos do Reino Unido e da França se comprometeram a ampliar seus gastos com a defesa.

"Se isso é o começo de uma tendência, pode vir a ser útil", disse o general Jones.

"Não importa o desafio do momento, nós o superaremos e emergiremos do processo ainda mais fortes", disse Jones, acrescentando que a conferência de cúpula ofereceria "um bom mapa para o caminho que teremos de percorrer".

Tradução: Paulo Migliacci.

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