Cheney alega que existem vínculos entre o Iraque e a Al Qaeda

Stewart M. Powell
Hearst Newspapers
Em Washington (EUA)

O vice-presidente Dick Cheney acusou o Iraque de estabelecer "contatos de alto nível" com a rede terrorista Al Qaeda de Osama bin Laden e oferecer treinamento a agentes do terrorismo.

Cheney fez as acusações seis dias antes do fim do prazo dado ao ditador Saddam Hussein para que o líder iraquiano admita a suposta posse de armas de destruição em massa proibidas pela ONU.

Cheney discursou em um congresso de 1,5 mil líderes da Guarda Aérea Nacional dos Estados Unidos, em Denver, enquanto o presidente Bush voltava a advertir que o Iraque enfrentaria desarmamento à força imposto por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos a não ser que as revelações feitas por Bagdá no domingo venham a ser "uma declaração plena e precisa" de armas proibidas pelas Nações Unidas, "confiável e completa".

"Nosso adversário é um regime singularmente perigoso que dispõe de armas de destruição em massa, empregou essas armas e poderia fornecer essas armas a redes terroristas", disse Bush durante uma cerimônia no Departamento da Defesa, onde ele assinou uma lei que autoriza US$ 355,5 bilhões em gastos com a defesa norte-americana, de acordo com a requisição apresentada por ele alguns meses atrás. Bush não fez qualquer menção aos supostos laços entre o Iraque e a Al Qaeda.

Bush disse que "os sinais não eram animadores" quanto à satisfação por Saddam Hussein da resolução de 8 de novembro do Conselho de Segurança das Nações Unidas exigindo que o Iraque fornecesse uma lista detalhada de seus programas de desenvolvimento de armas químicas, biológicas e nucleares. Ele mencionou os contínuos ataques da artilharia antiaérea iraquiana contra os caças norte-americanos e britânicos que patrulham as zonas de exclusão de vôos impostas pelos aliados no norte e no sul do Iraque.

Bush também mencionou cartas não especificadas de funcionários do governo iraquiano, "repletas de protestos e falsidades". Ele aparentemente estava fazendo menção a uma carta do ministro do Exterior iraquiano Naji Sabri ao secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, se queixando dos ataques aéreos realizados por aeronaves norte-americanas e britânicas no domingo contra alvos no porto iraquiano de Basra. As autoridades iraquianas alegam que os ataques mataram quatro pessoas e causaram ferimentos a outras 27. Sabri pediu por proteção das Nações Unidas contra novos ataques, alegando que essas agressões violavam as resoluções do Conselho de Segurança e eram um sinal da "escalada da campanha hostil e terrorista empreendida pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido".

A resolução da ONU sobre as armas de destruição em massa oferece a Bagdá um complicado dilema. O governo iraquiano pode continuar alegando que não tem armas proibidas em seus arsenais, e correr o risco de um ataque liderado dos Estados Unidos por estar supostamente mentindo. Ou pode admitir a posse das armas proibidas e na prática confirmar as alegações do governo Bush no sentido de que não se pode confiar que o Iraque diga a verdade.

Cheney, que tem a reputação de fazer parte da linha dura na política norte-americana quanto ao Iraque, ofereceu a retórica mais severa na ofensiva verbal combinada dos dois principais funcionários eletivos do governo dos Estados Unidos.

Cheney disse que havia "um sério perigo" de que a Al Qaeda se "unisse a regimes fora da lei que dispõem desse tipo de armas a fim de preparar um ataque contra o inimigo comum deles, os Estados Unidos da América".

O regime de Hussein "já teve contatos de alto nível com a Al Qaeda, que remontam já há uma década, e ofereceu treinamento aos terroristas da Al Qaeda", disse Cheney, que era secretário da Defesa no governo do presidente George Bush (pai) durante a guerra do Golfo Pérsico em 1991, que expulsou as forças iraquianas que haviam invadido o Kuwait.

"Confrontar a ameaça que o Iraque representa não é uma distração com relação à nossa guerra contra o terrorismo, mas sim um passo absolutamente crucial para que vençamos a guerra contra o terrorismo", disse Cheney. "A guerra contra o terrorismo não será vencida até que o Iraque seja privado, de maneira completa e verificável, de suas armas de destruição em massa".

Cheney não ofereceu provas de um vínculo entre Bagdá e a Al Qaeda.

Cheney ofereceu uma lista de resultados na guerra de 14 meses que os Estados Unidos vêm travando contra o terrorismo. O Serviço Federal de Investigações (FBI) identificou "mais de 200 suspeitos de terrorismo" que haviam inicialmente entrado nos Estados Unidos "despercebidos", entre os quais uma suposta célula terrorista em Lackawanna, Nova York, supostos patrocinadores financeiros de atos terroristas na região de Detroit, Michigan, e quatro pessoas na região de Portland, Oregon, em conexão com "uma investigação sobre terrorismo que ainda não foi encerrada".

Cheney acrescentou que "nosso país continua em perigo. As ameaças aos Estados Unidos são graves".

Ele disse que as autoridades haviam desmantelado células terroristas na Itália, Espanha e Alemanha, e congelado US$ 110 milhões em ativos supostamente controlados por terroristas, em 500 contas em todo o mundo, incluindo US$ 34 milhões nos Estados Unidos.

Cheney disse que 2,4 mil pessoas foram detidas em 99 países, em uma operação mundial, incluindo três proeminentes agentes da Al Qaeda: Abu Zubaydah, o chefe de operações de Bin Laden; Ramzi bin al-Shibh, um dos supostos planejadores dos ataques de 11 de setembro; e Abdal Rashim al Nashiri, suspeito de ter sido o chefe de operações da Al Qaeda no Golfo Pérsico e suposto coordenador do ataque de outubro de 2000 contra o destróier USS Cole, que resultou na morte de 17 marinheiros dos Estados Unidos.

Tradução: Paulo Migliacci

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