EUA têm acesso a declaração de armas do Iraque

Stewart M. Powell
Hearst Newspapers

Especialistas do setor americano de inteligência começaram a examinar nesta segunda-feira o dossiê iraquiano de 11.807 páginas encaminhado à ONU em busca de provas da existência de armas proibidas de destruição em massa.

O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, se recusou a definir um prazo para que as autoridades americanas concluíssem uma análise "muito abrangente, atenta e minuciosa" do conteúdo do relatório iraquiano que foi repassado a autoridades da ONU no sábado.

O presidente Bush poderia se apoiar no resultado da análise americana para justificar uma ofensiva contra o Iraque em nome da aplicação da determinação de desarmamento definida pela ONU.

"Caso se chegue a um combate, tenham a certeza de que o presidente informará o povo americano e explicará as razões", afirmou Fleischer.

Fleischer aventou a hipótese de que Bush talvez já disponha de provas que fundamentem a afirmação de que o Iraque possui armas que foram banidas pelo Conselho de Segurança da ONU ao final da Guerra do Golfo, de 1991.

O presidente poderá se dirigir ao povo americano no momento oportuno, mas "isso não significa que o presidente irá divulgar dados de inteligência que viriam a comprometer fontes, métodos ou recursos para vencer uma guerra, caso esta seja a única alternativa restante", afirmou Fleischer.

Bush, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld, o vice-presidente Dick Cheney, o ex-presidente Bill Clinton e o ex-vice-presidente Al Gore já acusaram o Iraque por possuir armas de destruição em massa, afirmou Fleischer.

"Eles fizeram declarações explícitas", afirmou Fleischer. "Há uma razão para que todos estes representantes de ambos os partidos tenham feito esta afirmação: eles disseram apenas porque dispõem de dados de inteligência que sabem que são verdadeiras".

O ministro iraquiano do Exterior, Naji Sabri, afirmou em uma carta de apresentação destinada ao Conselho de Segurança da ONU e obtida na segunda-feira pela CNN que a declaração iraquiana representava o atual atestado "exato, integral e completo" dos "antigos programas do país nos campos de armas químicas, biológicas e nucleares e de mísseis balísticos implementados desde seu nascimento".

O porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher, afirmou que o governo Bush ainda não havia decidido como lidar com as contradições que poderão surgir do confronto entre as afirmações dos Estados Unidos e a negativa iraquiana quanto à questão das armas de destruição em massa.

Autoridades do governo Bush afirmam que os especialistas americanos iriam comparar as recentes alegações iraquianas a documentos secretos da inteligência americana e à documentação compilada pelos inspetores de armas da ONU desde 1991, que aponta a existência de vastos estoques de materiais bélicos proibidos à época do encerramento das atividades dos inspetores da ONU, em 1998.

O relatório final dos inspetores da ONU, que foi encaminhado ao Conselho de Segurança da ONU em janeiro de 1999 servirá como modelo para a análise americana iniciada após a chegada da volumosa documentação iraquiana nesta segunda-feira, segundo afirmam as autoridades.

O relatório de 81 mil palavras elaborado pelos inspetores de armas da ONU adverte ao Conselho de Segurança que "a colaboração iraquiana foi restrita" e que "os relatórios do Iraque jamais foram completos".

Os inspetores da ONU esboçaram uma avaliação sobre as armas iraquianas de destruição em massa ao longo de oito anos através do cruzamento de informações obtidas por vigilância eletrônica e via satélite, documentação relativa a importações e exportações, vistorias locais, amostras de material suspeito e entrevistas com cientistas iraquianos de confiança ou especialistas em armamentos.

Entretanto, ao deixar o Iraque os inspetores de armas da ONU nem sequer começaram a examinar 4 milhões de produtos químicos que poderiam ser empregados para a fabricação de armas químicas como o gás mostarda, gases venenosos como VX e recursos biológicos capazes de produzir mais de 25 mil litros de esporos de antraz.

Os inspetores concluíram também que o Iraque possuía aproximadamente 31 mil bombas, projéteis e ogivas capazes de transportar agentes químicos. Este arsenal inclui 550 projéteis de artilharia carregados com gás mostarda.

Entretanto, os inspetores lamentaram que por causa da resistência e das artimanhas dos iraquianos, "não tenha sido possível verificar plenamente as declarações do Iraque acerca da natureza e da dimensão de seus programas de armas proibidas e sua atual condição".

A inspeção da ONU atestou ainda que o Iraque possuía um arsenal de 20 a 80 mísseis scud com capacidade para conduzir armas convencionais, químicas ou biológicas, de acordo com Anthony Cordesman, um analista de defesa do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, sediado em Washington.

Agências americanas de inteligência informaram ao Congresso que o Iraque necessitaria de mais cinco anos e sólido auxílio externo para reconstruir as instalações em que seria possível produzir o urânio enriquecido necessário para a fabricação de uma arma nuclear. O Pentágono advertiu que este prazo poderia ser reduzido caso o Iraque adqurisse material nuclear no exterior.

Boucher refutou a afirmação, feita por autoridades iraquianas, de que uma nação com as dimensões da Califórnia tivesse eliminado suas armas proibidas durante os quatro anos de intervalo entre as inspeções de armas da ONU.

"Até mesmo declarações anteriores apresentadas pelo Iraque atestam a posse de armamentos deste gênero", disse Boucher. "Não podemos aceitar que os iraquianos digam apenas: 'Veja bem, não temos mais nada, nós perdemos tudo' ou algo parecido. Eles têm a obrigação de apresentar provas convincentes".

O governo Bush permanece "firme em nossa crença e em nossas informações de que o Iraque possui armas de destruição em massa, contou com programas para sua manutenção e expansão e ainda possui tais armas", declarou Boucher.

Tradução: André Medina Carone

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