Fuzileiros preocupados com aumento de suicídios

Eric Rosenberg

WASHINGTON - Os oficiais da Corporação dos Fuzileiros Navais estão preocupados que um recente aumento de suicídios em suas fileiras possa estar sinalizando um prenúncio trágico à medida que o período das festas se aproxima.

Os fuzileiros navais apresentam atualmente a mais alta taxa de suicídio entre as quatro divisões das forças armadas, apesar da corporação ter reduzido significativamente a taxa de suicídios por meio de programas de prevenção ao longo da última década.

O comandante da Corporação dos Fuzileiros Navais, o general James Jones, enviou uma mensagem a todos os fuzileiros navais em 26 de novembro, pedindo que renovem seus esforços para prevenção de suicídios.

"Relatórios recentes de suicídio na Corporação dos Fuzileiros Navais acentuam uma tendência perturbadora que necessita de nossa atenção imediata e compromisso renovado", disse Jones. "Nós devemos concentrar nossa atenção para assegurar que toda medida possível está sendo tomada para combater esta perda de vida trágica e sem sentido".

Até 1o. de dezembro, sete fuzileiros navais se mataram no ano fiscal que teve início em 1o. de outubro -três em outubro e quatro em novembro.

"Se a atual tendência continuar" ao longo do restante do ano fiscal de 2003, alertou Jones, "nós teremos dobrado a taxa de suicídio" em relação ao ano anterior. A atual tendência levaria a um total aproximado de 42 suicídios no ano fiscal; em comparação, os fuzileiros navais apresentaram uma média anual de 24 suicídios ao longo dos últimos quatro anos.

Os sete suicídios em dois meses representaram um aumento acentuado em relação aos meses anteriores. Um fuzileiro naval morreu em um aparente suicídio em setembro, enquanto dois morreram por suicídio em agosto, segundo os dados mensais compilados pelo gabinete de Jones. Não ocorreu nenhum suicídio de fuzileiros navais em julho, ocorreram três em junho, dois em maio, nenhum em abril, três em março, um em fevereiro e um em janeiro.

O capitão-de-fragata Thomas Gaskin, psicólogo da divisão de Pessoal e Amparo à Família da Corporação dos Fuzileiros Navais, disse que Jones está "preocupado com a tendência à medida que nos aproximamos do período das festas, que é considerado por muitos como um período estressante do ano".

O período de Natal e Ano Novo e as semanas que se seguem podem ser cheias de solidão e sofrimento emocional tanto para civis quanto para o pessoal militar. Em um aconselhamento enviado aos comandantes dos fuzileiros navais no ano passado, os oficiais do serviço de saúde mental alertaram que o período pós-festas pode ser especialmente "turbulento" para pessoas que contemplam o suicídio. "Janeiro pode trazer um sério fardo financeiro e sentimentos de solidão, portanto exigindo a nossa maior atenção", alertou o memorando.

Gaskin disse que não há causa especial para o recente aumento dos suicídios e que os envios de tropas e transferências adicionais ligados ao aumento das operações antiterrorismo não são um fator. Ao invés disso, ele disse, as causas são "as mesmas velhas coisas que todo mundo enfrenta", incluindo problemas de relacionamento, problemas legais, problemas financeiros, abuso de álcool e drogas.

Os fuzileiros navais que se matam geralmente são os recrutas mais jovens. Mas em 2000, os fuzileiros navais começaram a notar uma alteração demográfica -um aumento no percentual de vítimas entre oficiais e oficiais subalternos.

O número de mortes por suicídio em todas as forças armadas é baixo em comparação com força total ativa de cerca de 1,4 milhão de membros. A taxa de suicídio nas forças armadas é de cerca de 12 mortes por 100 mil pessoas, entre metade a dois terços da taxa do segmento comparável da população civil. Os oficiais militares relataram pelo menos 118 suicídios em todos os serviços em 2001, com outras 69 mortes ainda dependendo de resultado de investigação. Todavia, o suicídio costuma ser a segunda principal causa de morte nas forças armadas americanas, atrás de acidentes, nos últimos 10 anos.

A prevenção de suicídios recebeu nova atenção depois da morte em 1996 do chefe de operações navais da Marinha, o almirante Jeremy ``Mike'' Boorda, que se deu um tiro depois que começou a ser questionado se ele realmente merecia suas condecorações militares.

Jones disse que o propósito de sua mensagem de alerta ao suicídio foi "soar um chamado de ação" entre as tropas e encorajar os fuzileiros navais a ficarem atentos às tendências suicidas entre os colegas.

"Sinais de alerta freqüentemente são sentidos pelos fuzileiros próximos da vítima, mas muitas vezes eles são ignorados", disse ele. "Cuidar dos nossos sempre foi uma marca dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos por 227 anos. Não há substituto para o papel vital que cada um de nós tem na prevenção do suicídio", disse Jones.

Como parte do esforço da Corporação dos Fuzileiros Navais para combater o suicídio, todos os fuzileiros navais são obrigados a participar de um treinamento anual de conscientização sobre o suicídio. Além disso, o treinamento de conscientização sobre o suicídio é dado em escolas de liderança como cursos básicos para oficiais, nas academias de oficiais subalternos e nos seminários de infantaria. A duração do treinamento varia, mas dura até duas horas. Aconselhamento também está disponível para todos os fuzileiros navais para ajuda na solução de problemas, administração de raiva e estresse, problemas financeiros e abuso de substâncias.

A Força Aérea apresenta a mais baixa taxa de suicídio entre as quatro divisões das forças armadas, segundo um relatório do Pentágono intitulado "Mortes de militares americanos ativos em todo o mundo, uma comparação da força do pessoal militar e forma de morte", e outros dados do Pentágono.

As estatísticas mostram:

- Nos últimos 20 anos a taxa de suicídio na Corporação dos Fuzileiros Navais atingiu o pico de 20,7 mortes por 100 mil pessoas em 1993, e atingiu a baixa de cerca de 11,7 mortes por 100 mil pessoas em 1997. A taxa subiu em 2001 para 16,2 suicídios por 100 mil, e Gaskin disse que a taxa de 2002 exibirá uma queda para 12,6 suicídios por 100 mil.

- No mesmo período, o Exército atingiu um pico de 16,3 suicídios por 100 mil soldados em 1994, caindo para cerca de 10 mortes por 100 mil em 1997, antes de subir para cerca de 11 mortes por 100 mil em 2001.

- Nas duas últimas décadas na Marinha, os suicídios chegaram a 16,3 por 100 mil marinheiros em 1995, depois de atingir a baixa de 9,1 por 100 mil em 1991. Em 2001, a Marinha registrou sua taxa mais baixa em uma década, com 10,4 mortes por 100 mil.

- As taxas de suicídio da Força Aérea atingiram um zênite em 1988, quando 17 militares por 100 mil se mataram. Em 1999, os suicídios na Força Aérea despencaram para 5,6 por 100 mil, patamar em que permanecem até hoje.

Em um fórum no mês passado sobre prevenção de suicídio nas forças armadas, a tenente-coronel do Exército, Elsbeth Ritchie, uma especialista em saúde mental do escritórios de assuntos de saúde do Pentágono, disse que no geral a taxa de suicídio nas forças armadas tem se mantido relativamente estável nos últimos anos. Ainda assim, ela disse, as taxas precisam cair ainda mais devido ao efeito negativo que o suicídio tem sobre a prontidão militar.

"Qualquer suicídio tem um grande impacto sobre a unidade em termos do sentimento das pessoas, 'O que eu poderia ter feito?'" disse ela.

(Eric Rosenberg pode ser contatado pelo telefone 202-298-6920 ou no endereço de e-mail erichearstdc.com).

Tradução: George El Khouri Andolfato

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