É hora de consertar as relações com a ONU

Marianne Means


WASHINGTON - Depois de mandar pelos ares a diplomacia no pré-guerra, não é cedo demais para os Estados Unidos remendarem as coisas com as Nações Unidas.

O órgão internacional foi apenas um nervoso fórum de debate enquanto rumávamos para a guerra contra o Iraque. Mas ele tem uma experiência valiosa na ajuda a refugiados, fornecendo alimentos e remédios para países devastados por lutas e levando ordem a sociedades despedaçadas. As agências de ajuda da ONU podem realizar essas tarefas complicadas melhor que nós.

Os conservadores que denunciam as Nações Unidas por sua indecisão e ineficácia podem estar tecnicamente corretos, mas estão estrategicamente errados. Há muito em jogo envolvendo o futuro do Oriente Médio para que nós reclamemos dos franceses e outros que hesitaram. E é um desperdício de tempo sugerir que nos afastemos e criemos nossa própria organização internacional pró-americana -como alguns zelotes da direita sugeriram.

O presidente Bush e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disseram recentemente que buscariam uma nova resolução da ONU para definir os termos de uma autoridade civil pós-Saddam Hussein para governar o Iraque. Aprovar a forma do novo governo iraquiano, porém, exigirá mais uma vez um grande debate. Os franceses, mantendo sua extravagante posição antiamericana, imediatamente exigiram que as Nações Unidas detenham todo o controle sobre o Iraque.

Bush não vai permitir que isso aconteça, pelo menos por algum tempo. Ele imagina uma presença governante inicial americana sob o comando dos militares para descobrir as armas de destruição em massa ocultas e manter o país unido até que o caos se dissipe e sejam escolhidos novos líderes regionais. Contratos com o governo já estão sendo distribuídos a empresas americanas para reparar os antiquados campos de petróleo iraquianos e a infra-estrutura bombardeada. Outras empreiteiras privadas estão sendo consideradas para assumir ministérios iraquianos e administrá-los.

Bush indicou que as Nações Unidas são bem-vindas para controlar as iniciativas humanitárias quando o país estiver sob controle. Bush continua dizendo que será uma libertação, e não uma ocupação. Mas se não nos abrigarmos sob o guarda-chuva da ONU os países árabes e muitos outros vão considerá-la uma ocupação, não importa o que Bush diga. Isso acontecerá especialmente se durar cerca de dois anos, como sugeriu o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Diplomatas europeus e asiáticos, além dos franceses, já se queixaram sobre os planos americanos de se sobrepor às Nações Unidas.

Outros suspeitam de que estamos nisso apenas para tomar o petróleo. Se nossas intenções são benignas, precisaremos demonstrá-las. O secretário de Estado, Colin Powell, disse recentemente: "Nós voltaremos às Nações Unidas para conseguir resoluções adequadas a respeito do programa Petróleo por Alimentos, para que não seja interrompido". Esse programa permite o uso da renda do petróleo iraquiano para comprar alimentos e remédios para a população do país. Durante sete anos, 14 milhões de iraquianos dependeram totalmente do programa para se alimentar.

Powell também disse que tentará incentivar uma maior participação da ONU no Iraque pós-guerra, embora não esteja claro como isso poderá ocorrer sob a liderança dos Estados Unidos. Se os contribuintes americanos vão suportar todo o peso financeiro da reconstrução do Iraque, a Casa Branca não está muito disposta a compartilhar a autoridade sobre como esse dinheiro será gasto.

O presidente Bush está requerendo US$ 75 bilhões do Congresso para pagar a guerra e a campanha de reconstrução do Iraque. É apenas um adiantamento. Custos enormes deverão se seguir.

Bush previu um "movimento maciço de ajuda humanitária", apesar de a fraca coordenação entre as diversas organizações americanas e da ONU que seriam envolvidas ter prejudicado o programa no Afeganistão e em outros lugares. Para evitar problemas semelhantes no Iraque, o Pentágono já nomeou uma equipe chefiada pelo general Tommy Franks, que está encarregado do campo de batalha, para dirigir o espetáculo no pós-guerra.

A recuperação e o esforço de ajuda serão organizados como uma operação de paz da ONU, com a supervisão de tudo, desde a ajuda até estabelecer uma segurança nacional baseada em oficiais iraquianos que não estavam entre os cruéis seguidores de Saddam Hussein.

Seja qual for a realidade de um controle militar americano no Iraque pós-guerra, as Nações Unidas merecem um papel de destaque -e a comunidade internacional o exigirá. Exatamente qual será esse papel causará discussões ruidosas muito depois que a guerra tiver terminado. É do interesse dos Estados Unidos incentivar todo o apoio e a participação que as Nações Unidas puderem oferecer.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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