Inimigos mortos não contam

Helen Thomas
DE WASHINGTON

Você se lembra da contagem de corpos de inimigos durante a Guerra do Vietnã? Alguns desses cálculos foram grandemente exagerados em uma tentativa de exibir vitórias nos campos de batalha.

Bem, não fazemos mais tal coisa.

O Pentágono anunciou meticulosamente o número de baixas norte-americanas no Iraque, atualmente em 286. Este número inclui 183 mortes causadas por fogo inimigo desde o início da guerra. Nele estão também computadas as 148 mortes ocorridas desde 1º de maio, dia em que o presidente Bush anunciou o fim das grandes operações de combate. Um porta-voz do Pentágono disse que 1.105 soldados dos Estados Unidos ficaram feridos desde o início da guerra.

Mas essa precisão numérica não se aplica a toda a guerra contra o Iraque. Determinar o número de mortos iraquianos mostrou ser uma missão impossível.

Fiz uma pergunta simples a funcionários graduados do Pentágono: "Quantos iraquianos foram mortos nesta guerra?". As respostas foram dadas "nos bastidores" - o que significa que os porta-vozes do Pentágono pediram sigilo quanto a seus nomes. Os porta-vozes em questões são honestos, tenho que admitir este fato, e estavam claramente seguindo ordens dos superiores quando responderam que simplesmente não devemos nos preocupar com o número de mortos iraquianos.

A resposta à minha primeira pergunta ao Pentágono foi: "Não computamos o número de iraquianos mortos".

Algumas semanas depois, fiz a mesma pergunta e ouvi de um funcionário do Departamento de Defesa a seguinte resposta: "Eles não contam. Não são importantes", referindo-se aos inimigos mortos.

Em uma outra ligação telefônica para o Pentágono pedi uma explicação sobre o motivo de não ter havido nenhuma tentativa no sentido de se determinar o número de iraquianos mortos na guerra.

Um funcionário do Pentágono me deu, pacientemente, esta explicação: "Em operações de combate, temos objetivos. O nosso objetivo não era matar pessoas e sim retirar Saddam Hussein do poder".

"Quando os iraquianos largavam as armas não havia problemas. Mas se precisássemos usar a força e mata-los, o número de mortos não fazia diferença. Isso não é uma questão que nos preocupe", acrescentou.

Ele disse que as tropas norte-americanas utilizaram armas de precisão para diminuir o número de baixas. "Alcançamos o nosso objetivo militar. Não fizemos contagens de corpos de inimigos", afirmou. "Além do mais, seria no mínimo muito difícil determinar quem morreu em embates com soldados em terra".

Várias agências de notícias publicaram estimativas de baixas iraquianas que variam de 1.700 a 3.000 pessoas.

Mas a enorme quantidade de bombas despejadas sobre o Iraque provavelmente fez com que o número de baixas entre civis fosse mais alto do que as estimativas acima. Um oficial do Centro de História Militar do Exército dos Estados Unidos reconheceu que a questão das baixas entre o inimigo "é um pouco sensível para o nosso povo. Nós simplesmente nos recusamos a admitir quantas vidas foram perdidas".

Livros de referência no centro histórico falam de 50 mil norte-americanos mortos na Primeira Guerra Mundial e de cerca de 250 mil na Segunda Grande Guerra. Já a Alemanha perdeu 1,8 milhão de soldados na Primeira Guerra e, como nossa arquiinimiga na Segunda Guerra Mundial, cerca de 3,25 milhões de pessoas.

Sabemos que 58.198 norte-americanos morreram na Guerra do Vietnã. Já os vietnamitas tiveram vários milhares de mortos a mais.

Os civis iraquianos eram alvo legítimo para alguns norte-americanos. A edição de 29 de março do "The New York Times" trouxe uma matéria que relata uma conversa entre dois atiradores de precisão do Corpo de Fuzileiros Navais, o sargento Eric Schrumpf, de 28 anos, e o cabo Michael McIntosh, de 20, no acampamento do Quinto Regimento de Fuzileiros Navais no Iraque.

Contando histórias de combate, os dois fuzileiros disseram que não tiveram problemas para abater seus inimigos, que eles definiram como mal treinados e covardes.

"Foi um ótimo dia", afirmou Schrumpf. "Matamos um bocado de gente. É verdade que liquidamos alguns civis, mas o que poderíamos fazer?".

Ele lembrou um incidente no qual viu uma mulher que estava ao lado de um soldado iraquiano cair após ter disparado. "Sinto muito, mas ela estava na linha de tiro", justificou.

Um jornalista perguntou ao secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, se o presidente Bush sabia quantas pessoas foram mortas e feridas no Iraque - "não só norte-americanos, mas o número total de mortos e feridos no Iraque desde o início da guerra".

Ele se esquivou da pergunta, dizendo simplesmente que Bush tem "plena consciência dos sacrifícios que nossos soldados fizeram e dos sacrifícios pelos quais as suas famílias estão passando enquanto as nossas tropas permanecem no Iraque".

Em 18 de março, dois dias antes da invasão norte-americana, Barbara Bush foi entrevistada pela apresentadora da rede de televisão ABC, Diane Sawyer.

"Por que deveríamos dar ouvidos a questões relativas a 'body bags' (sacos para repatriar cadáveres de soldados), mortes ou ficar nos preocupando com quantos e quando vão morrer?", declarou Barbara Bush. "Não são questões relevantes. Então, para que eu deveria desperdiçar a minha bela mente com coisas desse tipo?".

Talvez Barbara Bush esteja certa, mas eu acho que não.

Se não conhecermos ou dermos importância ao custo humano da guerra, tanto para os vencedores quanto para os vencidos, os Estados Unidos ficarão para sempre diminuídos perante os olhos do mundo. Danilo Fonseca

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