A frase de Truman

Helen Thomas
Colunista
DE WASHINGTON

Embora o presidente Bush não seja estudante de história, ele certamente ouviu falar na famosa frase de Truman: "The buck stops here" (a expressão é originária da gíria "pass the buck", que significa "passar a responsabilidade para outra pessoa ou colocar a culpa em outrem").

O slogan ficava em uma mesa do Salão Oval da Casa Branca na época de Truman. Pensei na frase ao constatar que, na Casa Branca de hoje, colocar a culpa nos outros e passar responsabilidades para frente se transformaram em um ritual, especialmente após o difícil período que se seguiu à invasão norte-americana do Iraque.

Houve presidentes que se responsabilizaram catástrofes, erros de avaliação ou planos que não deram certo.

No caso do ataque ao Iraque, é possível que o presidente Bush ainda venha a pagar pelo erro cometido ao levar a nação à guerra com base em propagandas enganosas sobre armas de destruição em massa inexistentes e em alegações de que aquele país seria um refúgio dos terroristas do 11 de setembro. Essa retórica belicosa acabou se mostrando uma grande bobagem.

Mas até o dia do pagamento, a prática de atribuir a culpa a outros segue a todo vapor.

Por exemplo, parece que a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) será o bode expiatório para as informações errôneas relativas ao suposto arsenal de armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Nenhuma arma dessa espécie foi encontrada, apesar da insistência de Bush e de seus assessores, no período pré-guerra, em afirmar categoricamente que Saddam tinha estoques enormes de armas químicas, biológicas e nucleares.

A Casa Branca tem duas opções: 1) culpar a CIA pelos maus relatórios de inteligência; 2) admitir que toda essa guerra foi apenas um pretexto para manter Bush à tona nas pesquisas de opinião, cultivando a imagem de um presidente adequado para tempos de conflito. Das duas, a opção 1 é de longe a preferida.

Isso significa que o indivíduo que provavelmente cairá em desgraça será o diretor da CIA George Tenet, cujo emprego pode estar em perigo.

Também nos arquivos da Casa Branca está o péssimo planejamento para o período pós-guerra no Iraque. A culpa caiu sobre as costas do secretário da Defesa Donald Rumsfeld.

Rumsfeld se envolveu basicamente com a tarefa de ganhar a guerra rapidamente, mas insistiu em continuar administrando a ocupação, ainda que a reconstrução de pós-guerra e a campanha para conquistar corações e mentes dos iraquianos deveriam, normalmente, ficar a cargo do Departamento de Estado e da Agência para o Desenvolvimento Internacional.

Mas Bush deixou Rumsfeld conduzir as coisas à sua maneira, pelo menos no início. No mês passado, dando uma rasteira política em Rumsfeld, Bush confiou à assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, a tarefa de coordenar as operações de pós-guerra no Iraque. Mas não esperem que ela diga a Rumsfeld o que fazer. Ele é um profissional quando se trata de lutas políticas internas e não está disposto a ser o bode expiatório de Bush.

Ainda não se sabe onde vai terminar esse caso de transferência de responsabilidade. Fiquem ligados.

Um outro episódio do gênero diz respeito a descobrir sobre quem recairá a culpa pela enorme faixa de fundo, com a frase "Missão Cumprida", a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, em 1º de maio, quando Bush fez um discurso televisado à nação declarando o fim dos combates expressivos no Iraque.

Em uma entrevista coletiva à imprensa no Jardim Rosado da Casa Branca, Bush negou de todas as maneiras que a faixa fosse um anúncio prematuro do fim da guerra. O número crescente de baixas no Iraque fez com que ele encarasse a realidade.

Bush insistiu em dizer que a faixa foi colocada por marinheiros para sugerir que a missão fora cumprida. A Marinha afirma que a faixa foi idéia da Casa Branca. E a Casa Branca jura que foi idéia da Marinha.

Algumas vezes presidentes norte-americanos fizeram um mea culpa. Em abril de 1961, John Fitzgerald Kennedy assumiu a responsabilidade pela fracassada tentativa de invasão de Cuba, por parte de exilados cubanos apoiados pelos Estados Unidos, na Baía dos Porcos. Foi uma operação planejada pelo governo Eisenhower, mas Kennedy a adotou após se tornar presidente.

No entanto, ele titubeou e não enviou a cobertura aérea que prometera. O resultado foi uma derrota catastrófica dos invasores.

A popularidade de Kennedy despencou imediatamente após esse fracasso de política externa, mas ele recuperou a credibilidade junto à população em pouco tempo.

Em 25 de abril de 1980, oito soldados norte-americanos morreram durante o pouso secreto de um helicóptero no Irã, em uma tentativa fracassada de resgatar 53 reféns norte-americanos mantidos em cativeiro pelo regime do aiatolá Khomeini. Quando a notícia da desastrosa operação de resgate chegou a Washington, o presidente Jimmy Carter foi para frente das câmeras para assumir inteira responsabilidade pelo fiasco.

Carter não teve tanta sorte quanto Kennedy. As suas tentativas de usar as negociações para libertar os reféns - a maioria deles pessoal da embaixada em Teerã - também não tiveram sucesso. O Irã não cedeu a Carter e os reféns só foram soltos no dia que o seu sucessor, Ronald Reagan, tomou posse.

E isso nos remete ao presente.

Se a resistência iraquiana continuar e o número de baixas norte-americanas aumentar, em 2004 os eleitores poderão botar a culpa em alguém. E em termos de transferência de responsabilidades é a urna eleitoral que dá a última palavra. Danilo Fonseca

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