Vice de Bush não quer que mídia revele os negócios dele na reconstrução do Iraque

Helen Thomas
EM WASHINGTON

Vejam só quem está falando. O vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, está acusando a imprensa de fazer "jornalismo sensacionalista barato" na cobertura do governo Bush. Ele alega que "as pessoas não estão checando os fatos".

Reuters

Dick Cheney, durante entrevista
Cheney está irritado com uma série de matérias sobre os seus vínculos com a Halliburton Company, um conglomerado do setor energético com sede em Houston; empresa que mais recebeu contratos do governo federal para a reconstrução do Iraque.

Antes de fazer sermões sobre exatidão, Cheney deveria, ele próprio, checar a veracidade das suas próprias declarações sobre armas de destruição em massa iraquianas. A cantilena pró-guerra do vice-presidente sobre tais armas contribuiu para levar os Estados Unidos à guerra.

Agora, apesar de uma intensa busca pelo arsenal, que teve início assim que as forças armadas norte-americanas passaram a controlar o Iraque no primeiro semestre, o vice-presidente está tendo dificuldades em aceitar o fato de que tais armas não passavam de uma fantasia dos falcões belicosos do governo.

Parece que até mesmo David Kay, chefe da equipe norte-americana de caçadores de armas que vasculha o Iraque, está a ponto de jogar a toalha. Cheney manifestou a sua crítica à imprensa em uma entrevista com o comentarista conservador Armstrong Williams.

O vice-presidente admitiu que uma imprensa livre é "uma parte vital da sociedade", mas acrescentou: "às vezes, ela me deixa louco". O que o deixa louco, continuou o Cheney, "é me deparar com histórias que são fundamentalmente inexatas".

"É a hipocrisia que às vezes surge quando alguns profissionais da imprensa se apresentam como observadores objetivos do cenário, quando, na verdade, é óbvio que não têm objetividade", declarou.

"Nem todo mundo é culpado", afirmou. "Mas isso tem acontecido".

Vamos examinar aquilo que irrita o vice-presidente. Bem, uma coisa que aborrece Cheney é o fato de a mídia lembrar constantemente que ele foi, durante cinco anos, o diretor-executivo da Halliburton, empresa que recebeu US$ 5 bilhões em contratos federais - muitos deles sem licitação - para a reconstrução do Iraque.

Cheney ainda possui vínculos comerciais com a Halliburton, apesar de suas negações. Ele continua a receber compensações atrasadas da companhia, incluindo pagamentos no total de US$ 150 mil em 2001, e US$ 160 mil em 2002. E pagamentos adicionais estão por vir.

Além disso, o vice-presidente possui cerca de 433 mil ações com opções de comercialização não exercidas, que devem expirar entre 2007 e o final de 2009. Cheney disse que vai doar essas ações a grupos filantrópicos. Mas elas só terão grande valor se a cotação da Halliburton no mercado aumentar.

Essa é a mesma Halliburton que foi acusada por uma auditoria do Pentágono de superfaturar em US$ 61 milhões a gasolina vendida às forças armadas dos Estados Unidos no Iraque.

"Tem muita gente na imprensa que não entende a comunidade de negócios", criticou Cheney.

Ele caçoou da oposição, dizendo que somente os adversários políticos do governo acusaram a Halliburton de ter contado com "favoritismo" para a obtenção dos contratos.

"Não há evidências que comprovem algo dessa natureza", afirmou Cheney. "Mas, se isso for repetido um número suficiente de vezes, vai se tornar uma espécie de dogma".

Com esse argumento, Cheney poderia estar explicando a sua própria arenga repetitiva ao povo norte-americano sobre as armas de destruição em massa iraquianas. Afinal, se algo for suficientemente repetido, torna-se uma verdade aceita.

Em agosto de 2002, Cheney disse em um discurso à organização Veteranos de Guerras Estrangeiras: "colocando os fatos de forma simples, não há dúvida de que, neste momento, Saddam Hussein possui armas de destruição em massa, e tampouco de que ele as está acumulando para usá-las contra nossos amigos, contra nossos aliados e contra nós".

No mesmo discurso, ele advertiu que Saddam, "armado com um arsenal de armas de terror, e sentado sobre 10% das reservas mundiais de petróleo... poderia submeter os Estados Unidos ou qualquer outra nação a uma chantagem nuclear".

Em 16 de março deste ano, o vice-presidente disse no programa "Meet the Press" (Encontro com a Imprensa), da rede de televisão NBC: "nós acreditamos que Saddam, de fato, restaurou as suas armas nucleares".

Mais tarde, Cheney procurou corrigir a declaração. "Expressei-me mal", alegou. "O que realmente quis dizer foi que o Iraque tinha 'capacidade de produzir armas', ao invés de realmente possuir tais armas".

O elogio feito pelo vice-presidente à livre imprensa é contradito pela sua intensiva campanha para manter em segredo os nomes daqueles que o assessoraram quando estava montando a política do governo para o setor energético. Tal informação deveria ser de conhecimento público.

Grupos conservacionistas reclamam que suas idéias quanto à questão energética foram largamente ignoradas pelo governo.

As organizações Judicial Watch e Sierra Club processaram a administração Bush para terem acesso a essa informação. Um tribunal federal se pronunciou em favor da divulgação desses dados e a corte de apelações concordou. A Suprema Corte dos Estados Unidos concordou em ouvir a apelação.

Talvez Cheney tenha se esquecido de que não trabalha mais para uma empresa privada e que, ao invés disso, é um servidor público, realizando negócios públicos que precisam ser conduzidos à luz do dia.

Desde que assumiu o posto de vice-presidente, Cheney vem operando nas sombras, tomando bastante cuidado para não deixar impressões digitais.

Quando se trata da questão do Iraque, ele pouco tem prestado contas, e sua credibilidade é nula. Os seus discursos públicos se limitam a círculos restritos de grupos conservadores e de financiadores do Partido Republicano. Quando o governo defende a sua ação belicista, ele é enviado aos programas de entrevistas de domingo na televisão para repetir os seus argumentos - atualmente desacreditados - favoráveis à guerra.

E, assim, podemos vislumbrar imagens ocasionais de um homem que muita gente acredita ser a verdadeira encarnação do poder na Casa Branca.

Mas, quando se trata do conselho de Cheney à mídia, o vice-presidente deveria seguir as suas próprias recomendações.

Nós checamos os nossos fatos, senhor vice-presidente. O senhor deveria fazer o mesmo. Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos