O Iraque não é nenhuma valsa

Por Helen Thomas
DE WASHINGTON

Era para ser uma valsa, a invasão americana do Iraque. Os iraquianos iam jogar flores, enquanto os conquistadores marchavam e tomavam seu país. Essa era a fantasia dos assessores do presidente Bush, que deram ouvidos a exilados iraquianos, cujos interesses combinavam com os dos gaviões do governo.

Agora sabemos que, apesar dos líderes americanos talvez se considerarem "libertadores", muitos iraquianos os vêem como invasores.

A realidade está mostrando sua cara. E os eventos trágicos dos últimos dias indicam que ficaremos no Iraque um longo tempo, com uma presença bem maior do que planejavam as autoridades americanas.

Com centenas de americanos e milhares de iraquianos mortos, a guerra está novamente ocupando as manchetes. A emboscada e assassinato de quatro americanos, agentes de segurança privada em Falluja, na quarta-feira e a destruição selvagem de seus corpos trouxeram de volta a dura realidade do Iraque.

Os corpos mutilados chocaram o público americano. O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, chamou os assassinatos de "bárbaros".

Paul Bremer, administrador americano no Iraque disse que os atentados foram cometidos por homens "covardes e vândalos".

No mesmo dia, a 24 km de distância, cinco soldados americanos morreram quando uma bomba explodiu na estrada e destruiu seu veículo blindado.
Empresas americanas contratadas para reconstruir o Iraque estão descobrindo que metade das pessoas que precisam contratar são especialistas em segurança.

Chocadas com os recentes desdobramentos, duas senadoras querem enviar mais tropas ao Iraque, para reforçar o contingente de 150.000 soldados americanos e da coalizão.

As senadoras Hillary Rodham Clinton, Democrata de Nova York e Kay Bailey Hutchison, Republicana do Texas, dizem que a presença militar americana tem que ser reforçada. As duas votaram a favor da autorização da guerra.

Isso faz lembrar a estimativa do general Eric Shinseki, ex-chefe das forças armadas, que advertiu, antes da guerra, que a ocupação do Iraque "ia requerer várias centenas de milhares de soldados".

Shinseki foi ridicularizado pelo secretário de defesa Paul Wolfowitz, que chamou sua avaliação de "totalmente enganada".

Hutchison disse, durante um almoço do Grupo de Política Externa de Mulheres, na quarta-feira, que mais forças americanas eram necessárias no Iraque. Ela disse: "Não temos opção. A democracia não pode falhar."
Hutchison, diretora do subcomitê de construção militar do Comitê de Apropriações da Câmara, pediu que duas ou mais divisões fossem enviadas ao Iraque, de acordo com seus assessores.

Clinton concordou que são necessárias mais tropas e ressaltou o custo crescente da guerra no Iraque e Afeganistão, que está em torno de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões) por mês.

"Estamos em uma situação difícil, com forças reduzidas e nenhuma saída à vista", disse ela. "Temos um caminho muito perigoso à frente".
Nenhuma das duas senadoras defendeu a volta do recrutamento militar. Isso cairia como uma bola de chumbo em um ano de eleição.

O secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, disse que os atos "abomináveis... bárbaros" em Falluja não desviarão os EUA de sua missão de transformar o Iraque em uma democracia.

O general do exército Mark Kimmitt, vice-diretor de operações militares no Iraque, prometeu "caçar os criminosos" e disse: "Pacificaremos Falluja".

Talvez o envio de Marines acalme temporariamente a violência na área, dominada por muçulmanos sunitas, que estavam por cima quando Saddam Hussein estava no poder. Os sunitas agora são minoria, e os xiitas, maioria. Os xiitas talvez lembrem o tratamento que tiveram no governo de Saddam Hussein, um sunita.

Mas será que os EUA conseguirão conquistar os "corações e mentes" dos iraquianos?

"Manteremos o curso", disse McClellan aos repórteres.

Novamente, lembranças do atoleiro do Vietnã.

Mesmo quando a administração do Iraque for transferida, no correr do ano, para o governo iraquiano interino, cerca de 100.000 soldados continuarão no país para garantir a segurança durante a transição para um governo eleito.

Não se fala de retirada de tropas americanas. Algumas autoridades especulam que será preciso uma geração de ocupação.

Será uma dissimulação se a guerra no Iraque não se tornar uma questão prioritária no debate da campanha de eleição presidencial. Os concorrentes, Bush e seu provável oponente Democrata, senador John Kerry, de Massachusetts, devem nos dizer ao menos o que pensam em relação a uma estratégia de saída.

(Helen Thomas pode ser encontrada no endereço eletrônico: hthomas@hearstdc.com) Deborah Weinberg

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