Colômbia é uma enorme bomba-relógio na América Latina

Enrique Rangel
Em San Antonio, Texas

Levou anos, mas o mundo está finalmente prestando atenção aos horrores no Sudão, país africano onde uma guerra civil que já dura décadas levou milhões de pessoas à morte, escravização ou deslocamento. Os cidadãos do Congo, outra república africana, ainda não receberam esse tipo de atenção internacional. Assim como no Sudão, milhões de pessoas fugiram de suas casas ou foram mortas no que se tornou a guerra civil mais devastadora da história mundial.

Mas, por mais sangrentos que sejam esses conflitos, raramente pensamos neles, porque estão tão distantes e não nos afetam. Talvez precisemos mudar nosso modo de pensar.

Na Colômbia, não muito longe de nossas praias, uma guerra civil alimentada pela droga criou uma crise humanitária que todo o hemisfério ocidental talvez não seja capaz de enfrentar. Mais de 2 milhões de pessoas foram expulsas de suas propriedades agrícolas ou urbanas - a metade delas nos últimos quatro anos - e tribos indígenas inteiras correm o risco de ser exterminadas.

"A Colômbia é, portanto, de longe a maior catástrofe humanitária no hemisfério ocidental", disse recentemente o subsecretário geral para assuntos humanitários da ONU, Jan Egeland. Um ex-assessor da ONU na Colômbia, Egeland voltou recentemente do país sul-americano, onde visitou milhares de pessoas que vivem em favelas.

Ele se concentrou principalmente na área de Cartagena, na costa do Atlântico, e em Bogotá, a capital. No entanto, se Egeland tivesse viajado por todo o país - que tem o tamanho do Texas, Oklahoma e Novo México juntos - teria encontrado milhares de outros colombianos deslocados vivendo em condições semelhantes.

Em Medellín, segunda maior cidade do país, e Bucaramanga, a sexta maior área metropolitana, é difícil não notar o grande número de deslocados. Eles criaram favelas inteiras e pressionaram a infra-estrutura inadequada.

Isso não é tudo. O grande número de refugiados urbanos, combinados ao alto índice de desemprego, à pobreza generalizada e à constante ameaça de seqüestros por grupos rebeldes obrigou milhares de colombianos a migrar para outros países.

Ao longo dos anos, a vizinha Venezuela e os Estados Unidos receberam a maior parte desses imigrantes. Mas com a economia da Venezuela combalida desde que o autoritário presidente Hugo Chávez chegou ao poder, cinco anos atrás, e o endurecimento das fronteiras americanas depois dos ataques terroristas de 11/9, países menores e mais pobres como Costa Rica e Equador são os últimos destinos para os colombianos deslocados.

Essa crise demográfica é preocupante porque, com 44 milhões de habitantes, a Colômbia é o terceiro país mais populoso da América Latina, depois do Brasil e do México. Se o êxodo continuar, países menores, que têm diversos problemas próprios - incluindo a pobreza maciça -, não poderão absorver mais imigrantes.

Além disso, 7 milhões das 18 milhões de crianças da Colômbia são pobres mesmo pelos padrões locais, e muitas não vão à escola. Um país que deixa de educar suas crianças não tem futuro.

Em suma, a Colômbia é uma bomba-relógio. Mas a crise nesse país foi amplamente ignorada. Os Estados Unidos, por exemplo, parecem mais preocupados em vencer a guerra contra o narcotráfico do que ver o país estabilizado. Primeiro sob o ex-presidente Bill Clinton e agora sob o presidente Bush, os Estados Unidos deram à Colômbia quase US$ 3 bilhões para combater o tráfico de drogas.

Mas o combate às drogas é importante porque a maior parte da cocaína que os viciados americanos consomem vem da Colômbia. E embora os governos americano e colombiano tenham feito um tremendo progresso no combate ao narcotráfico, os resultados seriam insignificantes se o número de deslocados continuar crescendo e mergulhar o país em uma crise que seria sentida muito além de suas fronteiras.

Portanto, quanto mais cedo o governo colombiano - com a ajuda dos Estados Unidos - enfrentar essa bomba-relógio, melhor. Não é difícil imaginar dezenas de milhares de colombianos chegando às praias americanas, assim como cubanos e haitianos fizeram no passado. Narcotráfico impõe guerra civil no país, que poderá ser origem de milhões de refugiados Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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