Democratas esperam poupar John Kerry do casamento gay

Judy Holland

WASHINGTON - Uma nova estratégia dos Democratas no Senado- eles esperam
bloquear a votação formal de uma emenda constitucional que baniria o
casamento entre homossexuais. Esse bloqueio pouparia o provável candidato do partido, senador John Kerry, de tomar uma posição nesse assunto politicamente tão delicado.

Os líderes republicanos no Senado pretendem fazer uma emenda que contém
somente uma sentença: "O casamento nos Estados Unidos deverá consistir
apenas na união entre um homem e uma mulher". Eles querem que a emenda seja votada no Senado em meados de julho, pouco antes do início da convenção Democrata, onde espera-se que Kerry receba a indicação do partido para concorrer à presidência.

A questão do casamento gay está mexendo com os nervos de muitos
legisladores. Isso porque as pesquisas indicam que os americanos estão bem divididos quanto à mudança na Constituição, que baniria o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Kerry tem um ponto de vista complexo sobre a questão. Mas já avisou que
votaria contra a emenda, criando um risco, que os críticos republicanos
explorariam, de se afastar de alguns católicos e religiosos fundamentalistas em estados importantes na batalha eleitoral, como Ohio, Pensilvânia e Missouri.

A porta-voz da campanha de Kerry acusou os republicanos do Senado de fazer uma manobra política aproveitando a emenda contra o casamento gay.

"Obviamente os republicanos estão tentando dividir ainda mais a nação numa questão por si só já extremamente polêmica", declarou a porta-voz Allison Dobson.

O senador republicano da Pensilvânia, Rick Santorum, um dos mais influentes na Casa, confirma francamente que seu partido quer colocar Kerry na berlinda, e também expor o líder da minoria democrata no Senado, Thomas A. Daschle, do estado de South Dakota.

Santorum disse que Kerry não será capaz de "ir para casa e ficar enrolando" a questão do casamento gay até a eleição de novembro, sem tomar uma posição definitiva sobre o assunto. "Ele terá que se responsabilizar", declarou Santorum.

Santorum também disse que Daschle, que está enfrentando uma disputa difícil para a reeleição em novembro, "deveria voltar a Dakota do Sul e explicar às pessoas porque está impedindo a questão" de chegar à votação no Senado.

Segundo o senador Richard Durbin, democrata de Illinois, os motivos que os republicanos têm para forçar a votação da emenda do casamento gay são
"estritamente políticos".

"Os republicanos e seus partidários vão tentar usar a convocação para a
votação, contra John Kerry e o Partido Democrata", disse Durbin. "Eles
tentarão passar a emenda para a ordem do dia antes da convenção Democrata em Massachusetts, só para colocar os senadores em evidência e na berlinda. Ninguém precisa ter pós-graduação em Ciências Políticas para perceber que a convenção será realizada justamente em Massachusetts - o principal campo de batalha para essa questão".

O Estado de Massachusetts começou a emitir certidões de casamento para
casais homossexuais em maio. A Convenção Nacional Democrata acontece dia 26 de julho, devendo consagrar o nome de Kerry como o candidato à presidência.

Durbin acredita que os republicanos estão usando a emenda também para
"inflamar a base" dos eleitores de Bush que se opõem ao casamento gay.

Propostas de emendas nas constituições dos estados, proibindo casamentos
entre homossexuais, serão votadas em referendos regionais que coincidirão
com a eleição presidencial no mês de novembro. Os referendos acontecerão nos Estados de Georgia, Kentucky, Mississippi, Oklahoma e Utah, onde os
partidários de Bush querem "energizar" os adversários do casamento gay,
para aproveitar a ocasião e votar tanto pela emenda quanto pela reeleição do presidente.

O senador Patrick Leahy, do Estado liberal de Vermont, e principal líder
Democrata no Comitê Judiciário do Senado, acredita que "o debate não é
sobre preservar ou não a santidade do matrimônio. Trata-se de querer
preservar os republicanos na Casa Branca e no Senado."

Mas o líder da maioria republicana no Senado Bill Frist, sulista do
Tennessee, admite que a emenda dificilmente alcançará os dois terços da Casa necessários para aprovação de emenda constitucional, e que será difícil até mesmo obter os 60 votos necessários para levar a polêmica lei até a votação.

"O motivo para abrir essa discussão é levantar uma questão que irá nos
definir enquanto uma sociedade". Frist completou: "A cada dia que eu adiar essa discussão, mais e mais pessoas (homossexuais) irão se casar".

Porém o líder da maioria republicana na Câmara de Representantes, Tom DeLay, do Texas, mesmo apoiando a emenda anti-casamento gay, questiona a
estratégia de Frist de lançar uma proposta já destinada a cair:

"Pessoalmente acredito que o Senado deveria votar essa questão quando
realmente tiver os votos para aprová-la", DeLay disse recentemente aos
repórteres. "Se o Senado votar e não passar, caberá aos representantes a
incumbência de aprovar uma emenda que irá pressionar o Senado novamente
para a votação." A Câmera dos Representantes nunca deliberou sobre a medida.

Kerry tem delicadamente "pisado em ovos" em relação ao casamento gay. Ele
diz acreditar que um casamento de verdade é entre um homem e uma mulher, mas também reivindica direitos iguais para gays e lésbicas.

Em 1996, Kerry votou a favor dos gays quando se opôs ao Ato de Defesa do
Casamento- mais tarde promulgado pelo presidente Bill Clinton. O Ato
proíbe o reconhecimento a nível federal dos casamentos entre pessoas do
mesmo sexo, e permite aos Estados negar legitimidade a casamentos realizados em outros Estados.

Kerry declarou em 2003 que "há muito tempo acredita que homens gays e
lésbicas devem ter garantidos proteção e benefícios iguais aos de todas as outras famílias." Mas, acrescentou na época, "continuo a me opor ao
casamento gay."

Kerry também disse em 2003 acreditar que as uniões civis "seriam mais
aceitáveis para o público em geral que cerimônias de casamentos
homossexuais", mas sinalizou que poderia eventualmente apoiar os
matrimônios entre gays se o consenso popular aumentasse em relação a essa questão.

Jennifer Duffy, uma analista para o relatório on line Cook Political Report, acredita que o assunto seja arriscado para Kerry. "É difícil para Kerry porque são águas não demarcadas". Duffy completa: "É
um assunto relativamente novo, que desperta reações muito fortes. E o
momento é muito volátil. Agora Kerry terá que agir ou se posicionar
claramente a respeito".

Numa pesquisa de opinião realizada pelo jornal The Los Angeles Times em
junho, 51% dos 1.230 eleitores registrados disseram apoiar uma
emenda que define, perante a Constituição Americana, o casamento como um ato entre um homem e uma mulher, e que dificulta a legalização dos matrimônios gays nos Estados. Do outro lado, 44% são pró-gays e contra a
emenda.

Emendas à Constituição requerem aprovação por maiorias de dois terços tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, além da ratificação em nível regional por três quartos nas casas legislativas estaduais. Eles esperam bloquear a votação formal de uma emenda constitucional que baniria o casamento entre homossexuais Marcelo Godoy

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